Genialidade

Acabou o azeite, lá vou eu para o supermercado do outro lado da rua. Levo um choque de realidade: a garrafinha já está dezoito reais. Tenho um surto revolucionário. “Tá maluco, isso tem que acabar!” Munido da seletiva indignação classe média pego a moto e vou para o Mundial de Botafogo, reduto da resistência contra os zonas sul, pães de açúcar e delicatessens do Leblon. O ministro Levy, carioca, já devia ter aprendido: se existe uma batalha contra a inflação, as trincheiras estão no Mundial. Trincheiras um tanto sujas e com algumas baratas, mas guerra é guerra.

Encontro a garrafinha a quatorze reais. Arrá! Mas aí percebo que tem duas senhoras cochichando perto de mim. Todo mundo sabe que em supermercado popular duas pessoas falando baixinho só pode ser uma coisa: estão malocando oferta. Tal qual um Sherlock Holmes classe C percorro o Mundial atrás da misteriosa promoção. Não dá outra: lá no fundo, numa gôndola escondida, tem oferta-relâmpago: o mesmo azeite está sendo vendido por R$11.99. Vou enchendo o carrinho com tanta sofreguidão que o gerente pergunta: não quer levar logo uma caixa de dez?

E lá vou eu para a famosa fila quilométrica no caixa, a fase onde os coxinhas e os fracos desistem. Carrego meus azeites de 11.99 como um troféu. Só na saída me dou conta que caixas e motos não combinam. As pessoas na rua olham para a minha situação e dão risadas. Não me importo, não será a chacota pública que irá me deter, ao menos desta vez. Coloco a caixa entre as pernas e, usando toda minha cultura circense, vou saracoteando pelo trânsito até em casa. Por milagre chegamos, o azeite e eu, inteiros. Um feito e todo feito exige uma comemoração, de preferência com muito glúten. Mais uma vez atravesso a rua e vou ao Guerin, que, ironicamente, fica ao lado do Zona Sul. Carboidratos com vingança, combinação infalível.

Peço um café e um croissant. Dois pães para levar. A sensação de vitória é algo maravilhoso. E fugaz. O caixa me apresenta a conta. R$ 61,00. Faço a contabilidade: Poupei R$ 60,1 no azeite, gastei R$ 61 na comemoração pela economia.

Acho que preciso muito mais de uma professora primária do que de um psicanalista.

Mãe Dináh

 

strangelove

9 de outubro de 2015 – Aparecem extratos das contas de Eduardo Cunha na Suiça. O endereço do responsável é na Barra da Tijuca, na casa do Deputado. Ele nega tudo, diz que não tem contas no exterior. Os tucanos só falam do impeachment, os petistas assoviam.

14 de outubro de 2015- Um vídeo mostra Eduardo Cunha entrando numa agencia bancária suiça com maços de dinheiro em sacolas do Mundial. Nas imagens se percebe que notas caem no chão mas Cunha, saltitante, nem aí. O deputado diz que não eram notas de verdade, que estava indo jogar Banco Imobiliário com o gerente. Os tucanos só falam do impeachment. Os petistas dizem que estão indo comprar Coca com casco de Pepsi mas voltam já.

3 de novembro de 2015 – Surge uma cópia de um cheque de um banco suiço, assinado pelo deputado, usado para pagar uma TV de 150 polegadas em Miami. Eduardo Cunha diz que nunca foi a Miami, não sabe o que é TV e só usa cheque, sem fundos, para pagar o dízimo. Os tucanos só falam do impeachment. Os petistas dizem que a culpa é da TV golpista.

20 de novembro de 2015 – Enquanto um solitário deputado pede a renúncia do presidente da Câmara na tribuna, Eduardo Cunha, às gargalhadas, faz aviõezinhos com notas de cem dólares. O vídeo da confusão, épica, de centenas de deputados correndo atrás do dinheiro que voa desbanca Gangnam Style e se torna o mais visto do Youtube. Enquanto o Brasil comemora o feito, os tucanos só falam do impeachment. Os petistas, acuados, entregam todos seus aviõezinhos para o PMDB.

10 de dezembro de 2015 – Um jornal descobre que Eduardo Cunha paga a Net e a assinatura da Veja no debito automático. De um banco suíço. O deputado nega, diz que só assiste Netflix com a senha da sogra e pega a revista do vizinho, “tá de férias, nem repara”. Chateado, exige que todos os deputados beijem seus pés. Há uma corrida na Câmara garantir lugar. Na fila, os tucanos só falam do impeachment. Os petistas negociam dois ministérios com o PMDB para ficar na frente.

23 de dezembro de 2015 – O presidente da Câmara entra em rede nacional. Acaricia um gato angorá branco que tem no colo. Avisa que, em retaliação às perseguições absurdas e injustas que tem sofrido, acaba de aprovar uma lei que cancela o Natal. “O governo tem que entender que papai Noel já era e que o carnaval está chegando. Ou não.” Termina a transmissão com uma gargalhada maligna. Os tucanos só falam o impeachment. Os petistas dizem que suspender o natal é uma boa forma de cortar gastos.

 

 

 

 

 

Novos tempos

Estou esperando o sinal. Do outro lado da rua tem uma moça bem bonita, de saia. Bate um vento forte e a saia voa. Meu reflexo é abrir um sorrisão e pensar: wooohooo! Mas isso não é o correto, presto muita atenção ao que as moças escrevem no Facebook sobre comportamento masculino. Então viro a cara pro lado, com ar sério e expressão grave. Dou de frente para outro sujeito, que está com um sorrisão na cara, olhando a saia que voa da moça bonita. O sujeito vê a minha expressão grave e pensa que a moça é minha mulher, minha irmã ou minha filha. Imediatamente ele também vira a cara. Agora somos dois olhando pro lado, onde está uma senhorinha, também esperando o sinal. Esta vê a cena da moça da saia voando e dois homens com a cara virada e dá um sorrisão.
Não consegui decifrar se era de aprovação, ironia ou sarcasmo.

Supremacia mestiça

 

KKK

O “Imperial Klans of America Brasil” espalhou cartazes em Niterói ameaçando comunistas, gays, negros, judeus etc. Pode parecer uma estupidez uma organização racista que defende a supremacia branca, assim como também parece coisa de sequelado seguir isso num país miscigenado. Puro preconceito. Uma câmera secreta gravou a última reunião desta tão injustiçadada entidade. Dez pessoas estavam presentes na escura e apertada sala do movimento.

– Comandante Uésleison, já termin…

– Cale-se insolente! Já não disse para me chamar de Mein Führer?

– Sim…Mein Führer…já terminamos de colar os cartazes, podemos partir finalmente pro genocídio?

– Por que tanta pressa?

– Semana que vem saio de férias, vou para pra casa da minha tia Sarah

Silêncio na sala

– Sara? Sarah! Isso não cheira bem…Por acaso sua tia é judia?

– Não, Mein Führer, quer dizer, é meio, mas é que ..

– Saia daqui agora! Hebreu sujo! Como ousa?

O membro é expulso aos pontapés da reunião.

– Vocês vejam! Um judeu entre nós! Mais alguém tem esse sangue vil e sórdido?

Discretamente duas pessoas se encaminham para a porta.

– Vamos deixar eles sairem assim, Mein Führer? Não vamos queimá-los vivos?

Uésleison usa sua autoridade para segurar a tigrada

– Calma! Temos que guardar a gasolina para as tochas. Você aí, qual o seu nome?

– Mayquel

– Vai até a cozinha e pega uma cerveja pra nós.

Mayquel, que estava num canto escuro, atravessa a sala e passa embaixo da única lâmpada. Silêncio na sala.

Ô Mayquel…de onde vieram seus antepassados?

– Da Suécia e da Alemanha! Vovô Helmut e vovó Johanna!

– Tem certeza Mayquel, você não parece… a sua cor de pele…Joseildo, pega agora a tabela de cores!

Mayquel fica na defensiva

– Pego muito sol, Mein Führer, e todos sabem que protetor solar leva ao homossexualismo!

A tabela dá o veredicto: Mayquel é expulso debaixo de tapas. Três outros, não confiando no pó de arroz e nas lentes de contato azuis, aproveitam a confusão para sair de fininho.

Sobram Uésleison e mais dois.

– Agora somos apenas três mas não tem problema. Vamos acabar com essa gentalha inferior de qualquer maneira. Jefferson, pega seu caderno e vamos anotar nossos próximos passos.

Jefferson põe seu caderno na mesa. Silêncio na sala

– Meu amigo, seu caderno é cor de rosa? Só efeminados usam rosa!

– Rosa..? Não!!! É vermelho! Vermelho! De sangue! De macho!!!

– Joseildo, pega de novo a tabela de cores!

Mais um veredicto da escala: o caderno é rosa

– Tirem esse homossexual asqueroso daqui! Verme pederasta!

Sobram Joseildo e Uésleison. Os Imperial Klans e a supremacia branca estão por um fio.

– Mein Führer, Sómos só nós dois para implementar o extermínio de duzentos milhões de brasileiros mestiços. Vamos ter que dividir as tarefas…

Silêncio na sala

– Dividir??? Comunista!!!

 

Vem chegando o verão

arrastão

No primeiro arrastão da temporada saem da toca dois personagens tão típicos do verão carioca como o mate e o biscoito Globo:

– O menino psicopata do Rio – Cevado a Red Bull na classe média do balneário, o psicopata não se conforma com aquela gente diferenciada conspurcando seu playground no domingo de sol. Para ele sobram ônibus e falta exército. O que essa gente tá fazendo aqui? Quem deixou entrar? Cadê o porteiro, cadê o segurança? Onde está a PM pra mandar essa classe C de volta pro morro? Injustiça social, desigualdade, nada disso é com ele, é coisa de “comunistazinho tentando implantar a ditadura bolivariana e gayzista”. “Volta pra Cuba!” é o seu bordão e “Crédito ou débito?” o seu maior dilema existencial. Decepcionado com o Brasil, país pobre e cafona, está sempre ameaçando uma mudança para Miami, que nunca acontece. Sonha com o fechamento do Rebouças nos fins de semana e a implantação do passaporte baseado na escala Pantone. Ama o arrastão, é a grande chance de apertar ainda mais o torniquete.

– O neo-brizolista kamikaze – Veio da mesma classe média mas foi criado tomando danoninho e soltando pipa no ventilador. É um ativista online, que nunca pisou numa favela ou mesmo num conjunto residencial mas já leu 578 livros e assistiu 693 documentários sobre o assunto, além de conversar durante dez minutos por semana com sua empregada doméstica, que ele faz questão, revolucionário que é, de chamar de secretária do lar. Decepcionado com o Brasil, país reacionário e careta, está sempre ameaçando uma mudança para Berlim ou Lisboa, o que nunca acontece. Mesmo com todo seu engajamento virtual se acha responsável pelo quadro social, então dá cinco reais por mês para uma obscura creche em Bangu, seguindo a filosofia do “por eles mas longe deles”. Como sua generosidade e as sessões de psicanálise não aliviam a culpa, acha que a violência urbana é um castigo mais que merecido. “A burguesia merece punição” é o seu mantra. Tem orgasmos ao ver assaltos na TV. Ama o arrastão, seu grande sonho é ser imolado durante um, o que o levará ao Paraíso onde 72 estudantes virgens de sociologia o esperam.

Os dois personagens vão brigar pelas redes sociais até a chegada das águas de março, quando hibernarão até o primeiro e desejado arrastão anunciar a chegada da nova estação.

Super-herói

Quando criança minha idéia de futuro era virar super-herói. Tinha como certo que mais cedo ou mais tarde me tornaria o Super-Homem ou o Batman ou, na pior da hipóteses, o Homem-Aranha. Era só uma questão de tempo. Mas o tempo foi passando, passando e um outro fenômeno está acontecendo.

Notei a mudança aos poucos: primeiro as mulheres, que não olham mais. Não que eu fosse algum tipo de Brad Pitt ou George Clooney, longe disso, aliás bem longe, mas sempre havia as míopes e as que me confundiam com outra pessoa. Era o que bastava para que a minha auto estima desse uma pedalada na realidade, garantindo algumas migalhas de ilusão. Mas ao sair do radar das distraídas e das que não enxergam bem, entrei no vácuo. Nas festas, nos bares da moda, no show da banda incrível da semana, em todo lugar virei uma abstração. Não foi só isso, outros sinais também surgiram: a modelo troca de roupa na minha frente, a desconhecida conta suas peripécias sexuais sem se importar com a minha presença, entro no banheiro femenino por engano e ninguém repara. Sou um Fred numa eterna Copa do Mundo.

Os vendedores de loja são outro capítulo. Entro e ninguém se mexe. Antes era recebido com fogos de artifício, como um bilhete premiado com duas pernas e dois braços. Descobri que todo o comércio, a moda e a publicidade são dirigidos só ao grupo a que pertencia, os solteiros sem filhos. São os que tem dinheiro sobrando e nenhuma preocupação com o futuro. Aliás, bons tempos esses, eu entrava para comprar um par de meias e saia com três pares de tênis, quatro calças e um terno que jamais usaria. E nem aí para os preços. Agora entro para comprar uma camisa, faço mil contas e comparações, peço desconto e se me perguntam se quero outra coisa caio na gargalhada. Não é à toa que num shopping ninguém me vê.

E finalmente a Lei. Blitzes, barreiras policiais, alfândegas, nada disso me diz mais respeito. Passo por tudo como um fantasma. Ninguém me para. Não é que eu tenha cara de santo, é que já não tenho cara de nada, um zero à esquerda. As autoridades acham que um sujeito da minha idade, de óculos de grau e cadeirinha de criança no banco de trás não tem a coragem necessária para cometer qualquer crime, no máximo atrasa a conta de luz e ainda liga para a Light pedindo desculpas. Na blitz da Lei Seca param o cara da frente, param o cara de trás, e comigo nada, parece que fazem de propósito, um bulliyng torto. Passo fazendo caretas e gestos obscenos e eles nem aí. Chega a ser humilhante.

Acho que cheguei naquela fase em ninguém teme algum arroubo juvenil da minha parte mas ainda não ganhei o respeito dos cabelos brancos. É um tipo de limbo etário, que faz que a sociedade me trate como um ser impalpável e imaterial. Se a vida é um palco, me colocaram lá no fundo, no papel de árvore.

Há um consolo. Posso dizer agora que, sem querer, meu sonho de criança se realizou: me tornei um super-herói.

O homem invisível.

Saudosismo

No domingo de sol estava eu a comprar revistas numa banca do Humaitá quando reparei que na padaria ao lado estava se formando uma fila. Adoro filas. Filas e senhas. Nem quero saber pra que é, vou logo entrando. Cada um se diverte como pode. Essa da padaria era para comprar frangos. Aqueles que ficam rodando no forno com vitrine, a famosa TV de cachorro. Eu nem estava com fome, mas fui fisgado mais uma vez pelo meu saudosismo, pelas memórias da infância. Lembrei daquele frango que vinha mal empacotado em papel, gordura pra todo lado, a disputa facínora com meu irmão pelas melhores partes e o engasgamento com a farofa. Um clássico. Toda aquelas felizes recordações estavam ao meu alcance por apenas vinte e sete reais. O que poderia dar errado?

Ainda chafurdando na nostalgia comecei a prestar atenção na conversa do casal atrás de mim. Eles comentavam não só o tamanho mas também características dos frangos à venda naquele dia. Percebi na hora que toda a fila era íntima da padaria e da sua TV de cachorro. Falavam dos galináceos como quem comenta a escalação do Flamengo. Uma confraria volátil. Eu, criado soltando pipa no ventilador e jogando bolinha de gude no tapete, comecei a ficar inseguro. Só tinha comido, nunca fui a pessoa que ia lá comprar. Na minha ingenuidade, achei que era so pagar, pegar e ir embora, como num supermercado. Na, na, na. Precisava escolher, e escolher muito bem, precisava saber das sutilezas das sobrecoxas e dos detalhes miúdos do drumet. Não era só o tamanho e o ponto. Nada disso, pensar de tal maneira já mostrava o meu total despreparo para tarefa. Notei que a moça que estava lá na frente analisou um espeto inteiro antes de fazer sua escolha. E ficou com o menor frango. Ela sabia de algo que não se aprendia em MBAs ou assistindo TEDs.

Logo à frente estava um senhor de bermuda, camisa social e chinelo. Cara de militar aposentado ou síndico na ativa, com aquela eterna expressão grave que não era aliviada nem num domingo de sol. Quando chegou a vez dele o atendente tremeu como chef na frente de crítico. O coroa apontou para o primeiro espeto. O cara mostrou com orgulho e ele o examinou detalhadamente. Fez um sinal de negativo. Apontou para o espeto de cima. Sem reclamar, o rapaz atendeu. Assim foram até o quinto e último. O sujeito era um sommelier de penosas. Parecia sentir o terroir de cada ave e mudava os espetos como quem troca de safras. No final escolheu o o último da fila, um trabalhão para tirar, mas o vendedor, sem cara feia, fez a vontade do cliente. Moral é tudo na vida.

A fila seguiu e o atendente gritou: próximo! Era eu. Ao perceber o trouxa inexperiente, o rapaz abriu um sorriso sarcástico e, piscando para a caixa, perguntou: vai escolher qual? Resolvi blefar: o segundo da terceira fila, disse com uma displicência mal ensaiada. Quase ouvi os risinhos nas minhas costas. O blefe não tinha dado certo. Mudei de tática. Não, o terceiro da segunda fila. Tem certeza? Não! Peraí… Liguei para minha mãe. Ninguém atendeu. Procurei no Google “terroir de frango”. Nada. Então amigo, vai levar qual? Entreguei os pontos: Qual o senhor acha melhor? Me senti um turista pegando táxi na rodoviária. O sujeito mal conseguia disfarçar o riso. O resto da fila também. Esse aqui tá ótimo, é o melhor…pode levar. Derrotado, peguei o embrulho e fui arrastando meu fracasso pela rua.

Cheguei em casa e já levei a primeira bronca: tá atrasado! Lembra que íamos almoçar com fulana e beltrano? Onde você estava? Assim não é possível! Meu filho olha aquele pacote, abre e faz cara de nojo: que porcaria é essa?

O sol continuava lá fora.

Não é à toa que sou saudosista.

O sem-cerimônia

“Fulano é ótimo, super sem-cerimônia!”

Você, ingênuo e inocente, logo imagina um ser libertário, desprovido das amarras pequeno-buguesas, um artista iluminado, livre de regras, que deixa todos à vontade com seu calor fraternal. Nada disso. Você está prestes a conhecer uma das bestas-feras modernas, o sem-cerimônia, aquele que consegue ser folgado, grosso e mal-educado ao mesmo tempo e ainda assim ser tratado como guia espiritual.

Eu não sei em que maldito momento a gente começou a implicar com a cerimônia, a achar que ser minimamente educado, respeitar regras básicas de convivência era coisa de tia velha, um hábito de octogenários vestindo blazer com brasão e foulard.

O sem-cerimônia só faz o que quer, desconhece por favor e obrigado, tem aversão a horário marcado e sempre fala alto, muito alto. Ultimamente tem sido valorizado como símbolo do espontâneo e do genuíno. Esquecemos que nosso default latino-americano já é a esculhambação total e se até isso já está sendo opressor demais é por que chegamos ao nível anterior à pedra lascada. Uma coisa é um japonês cansado da cerimônia do chá ou um alemão pensando em chegar cinco minutos atrasado só pra fazer pirraça. Mas nós, habituados ao vale-tudo do cada-um-por-si, celebrarmos a versão anabolizada da grossura nativa é um convite ao suicídio coletivo. E a praga está se espalhando, os sem-cerimônia estào tomando conta de tudo. É o motorista que avança o sinal porque tem preguiça de frear o carro, é o convidado que põe o pé na mesa porque está cansado, é o político que ameaça quebrar o país porque o valor da propina não está do seu agrado.

Minha solução é o centro de recuperação de sem-cerimônias, o CRESCER: o sujeito seria obrigado a andar o dia todo de fraque, só almoçaria se estivesse na porta do refeitório pontualmente às 12:32:25 e levaria choques elétricos ao interromper uma conversa dos guardas. Água só pedindo por favor três vezes e a porta do banheiro só abriria ouvindo um “com licença” a 50 decibéis, nem mais nem menos. Celular à mesa no almoço
faria o interno perder o jantar.

E, é claro, seis meses na solitária para quem sai na rua para pedir a volta da ditadura.

Vida fácil

taximetro

Semana passada o país inteiro ficou chocado ao descobrir que Andressa Urach, ex-vice-miss bumbum, já fez programas. O que me chamou a atenção foi o valor: quinze mil reais por duas horas. Não estou muito por dentro do mercado de compra, venda e aluguel de aparelhos genitais mas quinze mil reais em duas horas significam 125 reais por minuto. Sou nerd de carteirinha e pragmático crônico, então me surgiram algumas dúvidas.

A primeira coisa é um detalhe técnico. Andressa contou que exigia o pagamento antes do programa. Imagino que cartões de crédito ou débito não eram bem recebidos, não é um negócio muito dado a recibos. A miss bumbum teria que contar as notas para saber se a quantia estava exata. Dependendo da habilidade matemática dela a operação poderia demorar vários minutos. Ou seja, você perderia uns quinhentos reais só vendo alguém contar o seu dinheiro. Um exercício de desprendimento.

Outra questão é o figurino. Para otimizar seu investimento o ideal seria que você chegasse no quarto já nu. No entanto, dependendo do hotel, isso pode ser considerado de mau gosto ou até impróprio. O melhor então seria usar roupas que pudessem ser tiradas rapidamente, como calças de elástico, mocassins e camisetas. Uma combinação que não aparece na capa da Vogue, mas economizaria pelo menos uns 250 reais. O crime fashion às vezes compensa. A conversa pré-sexo também é algo a ser planejado. O mais prático seria não ter conversa nenhuma, mas isso poderia sugerir uma relação mecânica e impessoal, o que não é socialmente bem visto. Uma conversa rápida seria mais adequada. Nada de falar da Dilma ou do petrolão, que o colóquio poderia se estender por horas e com isso levar o cliente à falência. Melhor se ater ao tempo, ainda mais quando o taxímetro corre na bandeira três. Talvez  “E esse calor logo no inverno, hein?”. Como você está pagando dois reais por segundo, não gastaria mais de vinte com essa frase genial e já poderia partir para a ação com a consciência limpa, sem ser acusado de ogro insensível.

Já a ação propriamente dita teria que ser muito bem ensaiada. Nada poderia dar errado, um preservativo mal colocado poderia significar mil reais no lixo. Imaginei um treino com metas e cronômetro. É o que fazem os grandes campeões (com objetivos mais práticos, por assim dizer). Também iria antes no hotel para medir bem o tamanho da cama, a distância da porta, a localização do banheiro, enfim, conhecer o campo, que qualquer passo em falso é jogar grana fora. Outro detalhe importante seria dosar o esforço, para não cansar em meia hora e ter que falar sobre o impeachment ou a nova temporada de Game of thrones  no resto do tempo. Melhor um estoque de pílulas, um balão de oxigênio e alguns itens mais old school, como catuaba, ovos de codorna, amendoim e pó de chifre de rinoceronte. Só pra garantir.

Mas nada disso era problema para a vasta clientela da Andressa, afinal ela contou que trabalhava de segunda à sábado, sete programas por dia. Uma máquina de fazer dinheiro. Desconfio que o PIB brasileiro dos anos Lula deve muito à essa moça. Quem investiu nela teve muito mais retorno do que quem acreditou no Eike ou aplicou em ações da Petrobras. No entanto todo esse sucesso não resistiu a uma overdose de hidrogel, que fez a a vice miss bumbum chegar à iluminação mística. A experiência transformou-lhe a vida: se tornou evangélica e ingressou na Igreja Universal. Mudou de público.

Resolveu aprender com o Bispo Macedo a verdadeira vida fácil.

Malandragem

O celular tocou no meio de um trabalho. Como o número era familiar não tinha como não atender.

– Consertei o chão do vovô. Posso pedir dinheiro pra ele?

O primeiro reflexo é responder “Claro!”, desligar e continuar trabalhando. Lembro a tempo que estou falando com uma criança de cinco anos que, por acaso, é meu filho. Melhor dar atenção agora que pagar o psicanalista depois.

– Como assim? O que você fez?

– Tinha um pedaço do chão solto, eu consertei. Posso cobrar dele?

Aí é que mora o perigo. O momento em que uma palavra errada pode por toda a educação a perder. Um não como resposta pode significar tolher a iniciativa do menino. Se respondo que sim posso mostrar o valor do trabalho, algo que se aprende cedo mas por outro lado posso também incentivar a exploração de parentes, o que, a princípio, não é saudável. Me sinto como naqueles filmes onde o mocinho tem que decidir se corta o fio azul ou vermelho da bomba que está prestes a explodir. Preciso ganhar tempo.

– Quanto você quer pedir.

– Vinte reais

Até que não é muito, mas não sei o que ele quis dizer exatamente com ”um pedaço solto no chão”. Vai ver foi ele mesmo que soltou. O garoto é esperto. Criar problemas para vender soluções é uma das atividades mais valorizadas hoje em dia. Preciso pensar. Ele percebe minha hesitação. Crianças tem um sexto sentido com as inseguranças dos pais.

– Posso cobrar mais? Cinquenta?

– Não, claro que não, Vinte tá muito bom.

O pequeno pilantra está me levando na conversa.

– Então tá, tchau papai.

– Peraí, deixa eu falar com seu avô

– Não precisa não, ele já disse que vai pagar.

– Deixa eu falar com ele

– Tá muito ocupado, não pode.

Pra bom entendedor…ligo direto pro avô.

– Que bom que você ligou. Tô mandando pelo Martín os vinte reais que estava te devendo. Já tinha até esquecido, ainda bem que ele lembrou.