Mãe Dináh

 

strangelove

9 de outubro de 2015 – Aparecem extratos das contas de Eduardo Cunha na Suiça. O endereço do responsável é na Barra da Tijuca, na casa do Deputado. Ele nega tudo, diz que não tem contas no exterior. Os tucanos só falam do impeachment, os petistas assoviam.

14 de outubro de 2015- Um vídeo mostra Eduardo Cunha entrando numa agencia bancária suiça com maços de dinheiro em sacolas do Mundial. Nas imagens se percebe que notas caem no chão mas Cunha, saltitante, nem aí. O deputado diz que não eram notas de verdade, que estava indo jogar Banco Imobiliário com o gerente. Os tucanos só falam do impeachment. Os petistas dizem que estão indo comprar Coca com casco de Pepsi mas voltam já.

3 de novembro de 2015 – Surge uma cópia de um cheque de um banco suiço, assinado pelo deputado, usado para pagar uma TV de 150 polegadas em Miami. Eduardo Cunha diz que nunca foi a Miami, não sabe o que é TV e só usa cheque, sem fundos, para pagar o dízimo. Os tucanos só falam do impeachment. Os petistas dizem que a culpa é da TV golpista.

20 de novembro de 2015 – Enquanto um solitário deputado pede a renúncia do presidente da Câmara na tribuna, Eduardo Cunha, às gargalhadas, faz aviõezinhos com notas de cem dólares. O vídeo da confusão, épica, de centenas de deputados correndo atrás do dinheiro que voa desbanca Gangnam Style e se torna o mais visto do Youtube. Enquanto o Brasil comemora o feito, os tucanos só falam do impeachment. Os petistas, acuados, entregam todos seus aviõezinhos para o PMDB.

10 de dezembro de 2015 – Um jornal descobre que Eduardo Cunha paga a Net e a assinatura da Veja no debito automático. De um banco suíço. O deputado nega, diz que só assiste Netflix com a senha da sogra e pega a revista do vizinho, “tá de férias, nem repara”. Chateado, exige que todos os deputados beijem seus pés. Há uma corrida na Câmara garantir lugar. Na fila, os tucanos só falam do impeachment. Os petistas negociam dois ministérios com o PMDB para ficar na frente.

23 de dezembro de 2015 – O presidente da Câmara entra em rede nacional. Acaricia um gato angorá branco que tem no colo. Avisa que, em retaliação às perseguições absurdas e injustas que tem sofrido, acaba de aprovar uma lei que cancela o Natal. “O governo tem que entender que papai Noel já era e que o carnaval está chegando. Ou não.” Termina a transmissão com uma gargalhada maligna. Os tucanos só falam o impeachment. Os petistas dizem que suspender o natal é uma boa forma de cortar gastos.

 

 

 

 

 

Supremacia mestiça

 

KKK

O “Imperial Klans of America Brasil” espalhou cartazes em Niterói ameaçando comunistas, gays, negros, judeus etc. Pode parecer uma estupidez uma organização racista que defende a supremacia branca, assim como também parece coisa de sequelado seguir isso num país miscigenado. Puro preconceito. Uma câmera secreta gravou a última reunião desta tão injustiçadada entidade. Dez pessoas estavam presentes na escura e apertada sala do movimento.

– Comandante Uésleison, já termin…

– Cale-se insolente! Já não disse para me chamar de Mein Führer?

– Sim…Mein Führer…já terminamos de colar os cartazes, podemos partir finalmente pro genocídio?

– Por que tanta pressa?

– Semana que vem saio de férias, vou para pra casa da minha tia Sarah

Silêncio na sala

– Sara? Sarah! Isso não cheira bem…Por acaso sua tia é judia?

– Não, Mein Führer, quer dizer, é meio, mas é que ..

– Saia daqui agora! Hebreu sujo! Como ousa?

O membro é expulso aos pontapés da reunião.

– Vocês vejam! Um judeu entre nós! Mais alguém tem esse sangue vil e sórdido?

Discretamente duas pessoas se encaminham para a porta.

– Vamos deixar eles sairem assim, Mein Führer? Não vamos queimá-los vivos?

Uésleison usa sua autoridade para segurar a tigrada

– Calma! Temos que guardar a gasolina para as tochas. Você aí, qual o seu nome?

– Mayquel

– Vai até a cozinha e pega uma cerveja pra nós.

Mayquel, que estava num canto escuro, atravessa a sala e passa embaixo da única lâmpada. Silêncio na sala.

Ô Mayquel…de onde vieram seus antepassados?

– Da Suécia e da Alemanha! Vovô Helmut e vovó Johanna!

– Tem certeza Mayquel, você não parece… a sua cor de pele…Joseildo, pega agora a tabela de cores!

Mayquel fica na defensiva

– Pego muito sol, Mein Führer, e todos sabem que protetor solar leva ao homossexualismo!

A tabela dá o veredicto: Mayquel é expulso debaixo de tapas. Três outros, não confiando no pó de arroz e nas lentes de contato azuis, aproveitam a confusão para sair de fininho.

Sobram Uésleison e mais dois.

– Agora somos apenas três mas não tem problema. Vamos acabar com essa gentalha inferior de qualquer maneira. Jefferson, pega seu caderno e vamos anotar nossos próximos passos.

Jefferson põe seu caderno na mesa. Silêncio na sala

– Meu amigo, seu caderno é cor de rosa? Só efeminados usam rosa!

– Rosa..? Não!!! É vermelho! Vermelho! De sangue! De macho!!!

– Joseildo, pega de novo a tabela de cores!

Mais um veredicto da escala: o caderno é rosa

– Tirem esse homossexual asqueroso daqui! Verme pederasta!

Sobram Joseildo e Uésleison. Os Imperial Klans e a supremacia branca estão por um fio.

– Mein Führer, Sómos só nós dois para implementar o extermínio de duzentos milhões de brasileiros mestiços. Vamos ter que dividir as tarefas…

Silêncio na sala

– Dividir??? Comunista!!!

 

Vem chegando o verão

arrastão

No primeiro arrastão da temporada saem da toca dois personagens tão típicos do verão carioca como o mate e o biscoito Globo:

– O menino psicopata do Rio – Cevado a Red Bull na classe média do balneário, o psicopata não se conforma com aquela gente diferenciada conspurcando seu playground no domingo de sol. Para ele sobram ônibus e falta exército. O que essa gente tá fazendo aqui? Quem deixou entrar? Cadê o porteiro, cadê o segurança? Onde está a PM pra mandar essa classe C de volta pro morro? Injustiça social, desigualdade, nada disso é com ele, é coisa de “comunistazinho tentando implantar a ditadura bolivariana e gayzista”. “Volta pra Cuba!” é o seu bordão e “Crédito ou débito?” o seu maior dilema existencial. Decepcionado com o Brasil, país pobre e cafona, está sempre ameaçando uma mudança para Miami, que nunca acontece. Sonha com o fechamento do Rebouças nos fins de semana e a implantação do passaporte baseado na escala Pantone. Ama o arrastão, é a grande chance de apertar ainda mais o torniquete.

– O neo-brizolista kamikaze – Veio da mesma classe média mas foi criado tomando danoninho e soltando pipa no ventilador. É um ativista online, que nunca pisou numa favela ou mesmo num conjunto residencial mas já leu 578 livros e assistiu 693 documentários sobre o assunto, além de conversar durante dez minutos por semana com sua empregada doméstica, que ele faz questão, revolucionário que é, de chamar de secretária do lar. Decepcionado com o Brasil, país reacionário e careta, está sempre ameaçando uma mudança para Berlim ou Lisboa, o que nunca acontece. Mesmo com todo seu engajamento virtual se acha responsável pelo quadro social, então dá cinco reais por mês para uma obscura creche em Bangu, seguindo a filosofia do “por eles mas longe deles”. Como sua generosidade e as sessões de psicanálise não aliviam a culpa, acha que a violência urbana é um castigo mais que merecido. “A burguesia merece punição” é o seu mantra. Tem orgasmos ao ver assaltos na TV. Ama o arrastão, seu grande sonho é ser imolado durante um, o que o levará ao Paraíso onde 72 estudantes virgens de sociologia o esperam.

Os dois personagens vão brigar pelas redes sociais até a chegada das águas de março, quando hibernarão até o primeiro e desejado arrastão anunciar a chegada da nova estação.

Super-herói

Quando criança minha idéia de futuro era virar super-herói. Tinha como certo que mais cedo ou mais tarde me tornaria o Super-Homem ou o Batman ou, na pior da hipóteses, o Homem-Aranha. Era só uma questão de tempo. Mas o tempo foi passando, passando e um outro fenômeno está acontecendo.

Notei a mudança aos poucos: primeiro as mulheres, que não olham mais. Não que eu fosse algum tipo de Brad Pitt ou George Clooney, longe disso, aliás bem longe, mas sempre havia as míopes e as que me confundiam com outra pessoa. Era o que bastava para que a minha auto estima desse uma pedalada na realidade, garantindo algumas migalhas de ilusão. Mas ao sair do radar das distraídas e das que não enxergam bem, entrei no vácuo. Nas festas, nos bares da moda, no show da banda incrível da semana, em todo lugar virei uma abstração. Não foi só isso, outros sinais também surgiram: a modelo troca de roupa na minha frente, a desconhecida conta suas peripécias sexuais sem se importar com a minha presença, entro no banheiro femenino por engano e ninguém repara. Sou um Fred numa eterna Copa do Mundo.

Os vendedores de loja são outro capítulo. Entro e ninguém se mexe. Antes era recebido com fogos de artifício, como um bilhete premiado com duas pernas e dois braços. Descobri que todo o comércio, a moda e a publicidade são dirigidos só ao grupo a que pertencia, os solteiros sem filhos. São os que tem dinheiro sobrando e nenhuma preocupação com o futuro. Aliás, bons tempos esses, eu entrava para comprar um par de meias e saia com três pares de tênis, quatro calças e um terno que jamais usaria. E nem aí para os preços. Agora entro para comprar uma camisa, faço mil contas e comparações, peço desconto e se me perguntam se quero outra coisa caio na gargalhada. Não é à toa que num shopping ninguém me vê.

E finalmente a Lei. Blitzes, barreiras policiais, alfândegas, nada disso me diz mais respeito. Passo por tudo como um fantasma. Ninguém me para. Não é que eu tenha cara de santo, é que já não tenho cara de nada, um zero à esquerda. As autoridades acham que um sujeito da minha idade, de óculos de grau e cadeirinha de criança no banco de trás não tem a coragem necessária para cometer qualquer crime, no máximo atrasa a conta de luz e ainda liga para a Light pedindo desculpas. Na blitz da Lei Seca param o cara da frente, param o cara de trás, e comigo nada, parece que fazem de propósito, um bulliyng torto. Passo fazendo caretas e gestos obscenos e eles nem aí. Chega a ser humilhante.

Acho que cheguei naquela fase em ninguém teme algum arroubo juvenil da minha parte mas ainda não ganhei o respeito dos cabelos brancos. É um tipo de limbo etário, que faz que a sociedade me trate como um ser impalpável e imaterial. Se a vida é um palco, me colocaram lá no fundo, no papel de árvore.

Há um consolo. Posso dizer agora que, sem querer, meu sonho de criança se realizou: me tornei um super-herói.

O homem invisível.

Saudosismo

No domingo de sol estava eu a comprar revistas numa banca do Humaitá quando reparei que na padaria ao lado estava se formando uma fila. Adoro filas. Filas e senhas. Nem quero saber pra que é, vou logo entrando. Cada um se diverte como pode. Essa da padaria era para comprar frangos. Aqueles que ficam rodando no forno com vitrine, a famosa TV de cachorro. Eu nem estava com fome, mas fui fisgado mais uma vez pelo meu saudosismo, pelas memórias da infância. Lembrei daquele frango que vinha mal empacotado em papel, gordura pra todo lado, a disputa facínora com meu irmão pelas melhores partes e o engasgamento com a farofa. Um clássico. Toda aquelas felizes recordações estavam ao meu alcance por apenas vinte e sete reais. O que poderia dar errado?

Ainda chafurdando na nostalgia comecei a prestar atenção na conversa do casal atrás de mim. Eles comentavam não só o tamanho mas também características dos frangos à venda naquele dia. Percebi na hora que toda a fila era íntima da padaria e da sua TV de cachorro. Falavam dos galináceos como quem comenta a escalação do Flamengo. Uma confraria volátil. Eu, criado soltando pipa no ventilador e jogando bolinha de gude no tapete, comecei a ficar inseguro. Só tinha comido, nunca fui a pessoa que ia lá comprar. Na minha ingenuidade, achei que era so pagar, pegar e ir embora, como num supermercado. Na, na, na. Precisava escolher, e escolher muito bem, precisava saber das sutilezas das sobrecoxas e dos detalhes miúdos do drumet. Não era só o tamanho e o ponto. Nada disso, pensar de tal maneira já mostrava o meu total despreparo para tarefa. Notei que a moça que estava lá na frente analisou um espeto inteiro antes de fazer sua escolha. E ficou com o menor frango. Ela sabia de algo que não se aprendia em MBAs ou assistindo TEDs.

Logo à frente estava um senhor de bermuda, camisa social e chinelo. Cara de militar aposentado ou síndico na ativa, com aquela eterna expressão grave que não era aliviada nem num domingo de sol. Quando chegou a vez dele o atendente tremeu como chef na frente de crítico. O coroa apontou para o primeiro espeto. O cara mostrou com orgulho e ele o examinou detalhadamente. Fez um sinal de negativo. Apontou para o espeto de cima. Sem reclamar, o rapaz atendeu. Assim foram até o quinto e último. O sujeito era um sommelier de penosas. Parecia sentir o terroir de cada ave e mudava os espetos como quem troca de safras. No final escolheu o o último da fila, um trabalhão para tirar, mas o vendedor, sem cara feia, fez a vontade do cliente. Moral é tudo na vida.

A fila seguiu e o atendente gritou: próximo! Era eu. Ao perceber o trouxa inexperiente, o rapaz abriu um sorriso sarcástico e, piscando para a caixa, perguntou: vai escolher qual? Resolvi blefar: o segundo da terceira fila, disse com uma displicência mal ensaiada. Quase ouvi os risinhos nas minhas costas. O blefe não tinha dado certo. Mudei de tática. Não, o terceiro da segunda fila. Tem certeza? Não! Peraí… Liguei para minha mãe. Ninguém atendeu. Procurei no Google “terroir de frango”. Nada. Então amigo, vai levar qual? Entreguei os pontos: Qual o senhor acha melhor? Me senti um turista pegando táxi na rodoviária. O sujeito mal conseguia disfarçar o riso. O resto da fila também. Esse aqui tá ótimo, é o melhor…pode levar. Derrotado, peguei o embrulho e fui arrastando meu fracasso pela rua.

Cheguei em casa e já levei a primeira bronca: tá atrasado! Lembra que íamos almoçar com fulana e beltrano? Onde você estava? Assim não é possível! Meu filho olha aquele pacote, abre e faz cara de nojo: que porcaria é essa?

O sol continuava lá fora.

Não é à toa que sou saudosista.

O sem-cerimônia

“Fulano é ótimo, super sem-cerimônia!”

Você, ingênuo e inocente, logo imagina um ser libertário, desprovido das amarras pequeno-buguesas, um artista iluminado, livre de regras, que deixa todos à vontade com seu calor fraternal. Nada disso. Você está prestes a conhecer uma das bestas-feras modernas, o sem-cerimônia, aquele que consegue ser folgado, grosso e mal-educado ao mesmo tempo e ainda assim ser tratado como guia espiritual.

Eu não sei em que maldito momento a gente começou a implicar com a cerimônia, a achar que ser minimamente educado, respeitar regras básicas de convivência era coisa de tia velha, um hábito de octogenários vestindo blazer com brasão e foulard.

O sem-cerimônia só faz o que quer, desconhece por favor e obrigado, tem aversão a horário marcado e sempre fala alto, muito alto. Ultimamente tem sido valorizado como símbolo do espontâneo e do genuíno. Esquecemos que nosso default latino-americano já é a esculhambação total e se até isso já está sendo opressor demais é por que chegamos ao nível anterior à pedra lascada. Uma coisa é um japonês cansado da cerimônia do chá ou um alemão pensando em chegar cinco minutos atrasado só pra fazer pirraça. Mas nós, habituados ao vale-tudo do cada-um-por-si, celebrarmos a versão anabolizada da grossura nativa é um convite ao suicídio coletivo. E a praga está se espalhando, os sem-cerimônia estào tomando conta de tudo. É o motorista que avança o sinal porque tem preguiça de frear o carro, é o convidado que põe o pé na mesa porque está cansado, é o político que ameaça quebrar o país porque o valor da propina não está do seu agrado.

Minha solução é o centro de recuperação de sem-cerimônias, o CRESCER: o sujeito seria obrigado a andar o dia todo de fraque, só almoçaria se estivesse na porta do refeitório pontualmente às 12:32:25 e levaria choques elétricos ao interromper uma conversa dos guardas. Água só pedindo por favor três vezes e a porta do banheiro só abriria ouvindo um “com licença” a 50 decibéis, nem mais nem menos. Celular à mesa no almoço
faria o interno perder o jantar.

E, é claro, seis meses na solitária para quem sai na rua para pedir a volta da ditadura.

Vida fácil

taximetro

Semana passada o país inteiro ficou chocado ao descobrir que Andressa Urach, ex-vice-miss bumbum, já fez programas. O que me chamou a atenção foi o valor: quinze mil reais por duas horas. Não estou muito por dentro do mercado de compra, venda e aluguel de aparelhos genitais mas quinze mil reais em duas horas significam 125 reais por minuto. Sou nerd de carteirinha e pragmático crônico, então me surgiram algumas dúvidas.

A primeira coisa é um detalhe técnico. Andressa contou que exigia o pagamento antes do programa. Imagino que cartões de crédito ou débito não eram bem recebidos, não é um negócio muito dado a recibos. A miss bumbum teria que contar as notas para saber se a quantia estava exata. Dependendo da habilidade matemática dela a operação poderia demorar vários minutos. Ou seja, você perderia uns quinhentos reais só vendo alguém contar o seu dinheiro. Um exercício de desprendimento.

Outra questão é o figurino. Para otimizar seu investimento o ideal seria que você chegasse no quarto já nu. No entanto, dependendo do hotel, isso pode ser considerado de mau gosto ou até impróprio. O melhor então seria usar roupas que pudessem ser tiradas rapidamente, como calças de elástico, mocassins e camisetas. Uma combinação que não aparece na capa da Vogue, mas economizaria pelo menos uns 250 reais. O crime fashion às vezes compensa. A conversa pré-sexo também é algo a ser planejado. O mais prático seria não ter conversa nenhuma, mas isso poderia sugerir uma relação mecânica e impessoal, o que não é socialmente bem visto. Uma conversa rápida seria mais adequada. Nada de falar da Dilma ou do petrolão, que o colóquio poderia se estender por horas e com isso levar o cliente à falência. Melhor se ater ao tempo, ainda mais quando o taxímetro corre na bandeira três. Talvez  “E esse calor logo no inverno, hein?”. Como você está pagando dois reais por segundo, não gastaria mais de vinte com essa frase genial e já poderia partir para a ação com a consciência limpa, sem ser acusado de ogro insensível.

Já a ação propriamente dita teria que ser muito bem ensaiada. Nada poderia dar errado, um preservativo mal colocado poderia significar mil reais no lixo. Imaginei um treino com metas e cronômetro. É o que fazem os grandes campeões (com objetivos mais práticos, por assim dizer). Também iria antes no hotel para medir bem o tamanho da cama, a distância da porta, a localização do banheiro, enfim, conhecer o campo, que qualquer passo em falso é jogar grana fora. Outro detalhe importante seria dosar o esforço, para não cansar em meia hora e ter que falar sobre o impeachment ou a nova temporada de Game of thrones  no resto do tempo. Melhor um estoque de pílulas, um balão de oxigênio e alguns itens mais old school, como catuaba, ovos de codorna, amendoim e pó de chifre de rinoceronte. Só pra garantir.

Mas nada disso era problema para a vasta clientela da Andressa, afinal ela contou que trabalhava de segunda à sábado, sete programas por dia. Uma máquina de fazer dinheiro. Desconfio que o PIB brasileiro dos anos Lula deve muito à essa moça. Quem investiu nela teve muito mais retorno do que quem acreditou no Eike ou aplicou em ações da Petrobras. No entanto todo esse sucesso não resistiu a uma overdose de hidrogel, que fez a a vice miss bumbum chegar à iluminação mística. A experiência transformou-lhe a vida: se tornou evangélica e ingressou na Igreja Universal. Mudou de público.

Resolveu aprender com o Bispo Macedo a verdadeira vida fácil.

Malandragem

O celular tocou no meio de um trabalho. Como o número era familiar não tinha como não atender.

– Consertei o chão do vovô. Posso pedir dinheiro pra ele?

O primeiro reflexo é responder “Claro!”, desligar e continuar trabalhando. Lembro a tempo que estou falando com uma criança de cinco anos que, por acaso, é meu filho. Melhor dar atenção agora que pagar o psicanalista depois.

– Como assim? O que você fez?

– Tinha um pedaço do chão solto, eu consertei. Posso cobrar dele?

Aí é que mora o perigo. O momento em que uma palavra errada pode por toda a educação a perder. Um não como resposta pode significar tolher a iniciativa do menino. Se respondo que sim posso mostrar o valor do trabalho, algo que se aprende cedo mas por outro lado posso também incentivar a exploração de parentes, o que, a princípio, não é saudável. Me sinto como naqueles filmes onde o mocinho tem que decidir se corta o fio azul ou vermelho da bomba que está prestes a explodir. Preciso ganhar tempo.

– Quanto você quer pedir.

– Vinte reais

Até que não é muito, mas não sei o que ele quis dizer exatamente com ”um pedaço solto no chão”. Vai ver foi ele mesmo que soltou. O garoto é esperto. Criar problemas para vender soluções é uma das atividades mais valorizadas hoje em dia. Preciso pensar. Ele percebe minha hesitação. Crianças tem um sexto sentido com as inseguranças dos pais.

– Posso cobrar mais? Cinquenta?

– Não, claro que não, Vinte tá muito bom.

O pequeno pilantra está me levando na conversa.

– Então tá, tchau papai.

– Peraí, deixa eu falar com seu avô

– Não precisa não, ele já disse que vai pagar.

– Deixa eu falar com ele

– Tá muito ocupado, não pode.

Pra bom entendedor…ligo direto pro avô.

– Que bom que você ligou. Tô mandando pelo Martín os vinte reais que estava te devendo. Já tinha até esquecido, ainda bem que ele lembrou.

Pai herói

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Pai zeloso que sou escolhi a dedo a estréia do meu filho de cinco anos no Maracanã: Fluminense x Vasco. O Flu, segundo na tabela, contra o penúltimo colocado. E mais: sem torcida do Vasco, já que presidente do clube tinha dado ordem a seus seguidores para boicotar o jogo. Como poderia dar
errado? Seria uma festa só, uma goleada, nem teríamos tempo de sentar na cadeira, de tanta comemoração.

Passei pelo sofisticadíssimo sistema de compras do estádio, que faz com que você adquira os ingressos pelo site, pague taxa de conveniência (seria mais adequado chamá-la de taxa de sarcasmo, como verão a seguir), vá ao clube retirar o ingresso, faça uma fila de uma hora, depois descubra que no clube só entregam meia entrada, vá o Maracanã, dê a volta toda no estádio atrás da bilheteria correta, faça outra fila e aí sim consiga os ingressos na mão. O que é perder uma dia inteiro de trabalho diante da perspectiva de uma epifania futebolística?

Chegamos ao estádio e tudo estava como previsto. A torcida tricolor ocupava quase todo estádio e a do Vasco era um pequeno grupo isolado lá longe. Mas o Maracanã não é só futebol. É toda uma filosofia de vida que mora naquelas arquibancadas. A maneira de se vestir, a maneira de se relacionar com os outros e principalmente, de externar os próprios sentimentos.

Assim que o jogo começou percebi que estava no meio de um grupo de poetas parnasianos, que só se comunicavam em versos alexandrinos. Que privilégio! O mais sábio e experiente deles, que tinha idade suficiente para ter assistido à fundação do clube, abriu os trabalhos:

PORRA, VAMOS GANHAR ESTA CARALHA!!!!! (sic)

Imediatamente meu filho se virou perguntando o que era “porra”, o que era “caralha” e de que maneira se pode “ganhar esta caralha”. Enquanto explicava que eram expressões de um idioma alienígena, outro poeta do grupo se levantou e, com o som mavioso da sua voz fanha, exclamou:

“FFFUUUTÃÃÃ QUE FARIU, GERSON! VÃÃÃ SE FUDER! MANDA EFFA FFFFORRÃÃÃ DE BOLA NA DIREFFFÃO DO GOL, FEU MERDÃÃÃÃ!

O nobre poeta que externara tão brilhante intervenção tinha uma figura toda peculiar, que combinava com sua retórica. Usava uma camisa vintage, aparentemente da época da Máquina tricolor. No entanto ele adquirira desde então algumas dezenas de quilos, que sobravam por baixo da camisa. O tamanho da pança produzia todo um efeito acústico, que fazia com que sua voz fanha fosse ouvida até fora do estádio. E cada vez eu tinha que dar mais explicações sobre as palavras novas que meu filho ia aprendendo. O desempenho do time também não ajudava muito: “Papai, por que o Fred não corre atrás da bola?” Antes que eu começasse a tentar dizer alguma coisa um dos nobres colegas do grupo de estudos de Camões me tomou a palavra:

“FRED, SEU ARROMBADO FILHO DA PUTA! CORRE ATRÁS DESSA MERDA DE BOLA, Ô VIADO ESCROTO!!!”

Tinha que fazer tantos rodeios semânticos nas explicações que não conseguia mais prestar atenção no jogo. Fui pego de surpresa pelo gol do adversário. O que não aconteceu com meus colegas de torcida, que já tinham o comentário pronto, tanto que foi feito em uníssono.

“SEUS CUZÕES!!! VAO SE FUDÊ !!! BANDO DE VIADINHOS!!!!

Após esse brado partiram para um jogral, cada um mais criativo que o outro nos xingamentos. Abandonaram o estilo parnasiano e se reinventaram no realismo mágico, como se fossem uma espécie de Guimarães Rosa do baixo calão. Não fosse a minha função de tecla SAP eu até ficaria mais tempo admirando tamanha criatividade. Resolvi abandonar a nau sem rumo.

É claro que na volta o motorista do táxi era rubro negro. E é claro que o rubro negro sorria de orelha a orelha enquanto eu tentava convencer o meu filho que com o Ronaldinho tudo vai ser diferente. O motorista também era um poeta. De uma escola mais concreta, por assim dizer

“DOTÔ, RONALDINHO SÓ VAI RESOLVÊ O PROBLEMA DAS VAGABUNDAS DAQUI! HAHAHAHAHA”

E tem gente que reclama que o filho assiste muita Peppa Pig.

 

Novos Horizontes

naveComo todos sabem a nave New Horizons acabou de passar por Plutão, depois de 10 anos de viagem e mais de cinco bilhões de km percorridos. O custo da missão foi de dois bilhões de reais. A linha 4 do metro do Rio, por exemplo, tem 16km, ainda não foi concluida e teve, até agora, um custo de 8 bilhões e meio.
Como seria a New Horizons se fosse um projeto do governo brasileiro?

7 set 1996 – O projeto Novos Horizontes é anunciado em cadeia nacional: uma nave brasileira, produzida por um consórcio formado pela Odebrecht, Mendes Júnior e Queiroz Galvão, vai viajar até Plutão. O custo será de 4 bilhões de reais. A previsão do lançamento é em janeiro do ano 2000.

19.jan 2006 – O lançamento da nave é adiado pela quinta vez, agora a pedido do PMDB. A nave seria enviada da base se Alcântara, já existente, mas decidiu-se criar uma nova base, em terras do senador Barbosa, no interior do Mato Grosso. Por conta da mudança de local um aditivo de um bilhão é feito ao projeto. Pelos alegados prejuízos causados às suas terras o senador é indenizado em 2 bilhões.

20 março de 2008 – Apesar de ainda não estar pronto o presidente inaugura o novo pólo de lançamentos espaciais em Mato Grosso, criando também o ministério de Novos Horizontes, que é entregue ao deputado Waldisnei Paranhos, do partido do senador Barbosa. O lançamento é marcado para 2010.

25 de abril de 2011 – A nave Novos Horizontes é lançada. O projeto inicial previa que ela chegaria a Plutão em dez anos mas por um problema de custos ela só vai até Netuno. O projeto já está orçado em dez bilhões.

15 novembro de 2011 – A nave perde comunicação com a Terra. Um jornal descobre que o sistema de rádio, orçado em 500 milhões, foi trocado por um Startac com bateria gasta. Uma revista apura que a linha do celular pertence ao deputado Waldisnei. Este nega, acusa o jornal de golpista e a revista de bolivariana. O senador Barbosa, agora na oposição, exige a renúncia de Waldisnei e a privatização da Novos Horizontes.

17 de novembro de 2011 – Após fulminante campanha de mídia a nave é privatizada. Agora ela é da NH space, de propriedade de Odroaldo Barbosa, o Barbosinha, filho do senador. A operação é toda financiada pelo BNDES. O projeto já está em quinze bilhões, mas Barbosinha promete rever todos os contratos.

10 janeiro de 2012 – Barbosinha alega que a nave está sucateada e exige do governo um empréstimo para poder chegar ao menos até Saturno. A campanha “Saturno é nosso” toma as ruas, bonés verde amarelos com anéis são vendidos aos milhões. O governo injeta vinte bilhões na NH Space e se torna sócio da companhia. A população vibra mas a nave continua em silêncio.

20 fevereiro de 2012 – Uma faxineira esbarra inadvertidamente num controle da base de Mato Grosso e a Novos Horizontes volta a funcionar. O acontecimento é passado à imprensa como o fruto do esforço do departamento de controle espacial, gerenciado pelo irmão do deputado Waldisnei, Waltenor Paranhos.

23 de junho de 2013 – O New York Times publica uma matéria revelando que a nave brasileira não está indo em direção a Saturno, mas sim voltando à Terra. Pressionado, Barbosinha diz que é de propósito, afinal saudade é algo típico do Brasil. A explicação não convence o presidente, que, com apoio da opinião pública, indeniza Barbosinha e reestatiza a nave, que passa a se chamar Nova Novos Horizontes. Waltenor Paranhos é o novo diretor da empreitada. O custo do projeto está em trinta bilhões.

14 de agosto de 2014 – O consórcio de empreiteiras pede um adendo de cinco bilhões para redirecionar a nave. Dois bilhões vão para o diretor Paranhos, dois para que o Senador Barbosa não instaure uma CPI e um bilhão para as empreiteiras, que com cinquenta reais contratam um hacker chinês que põe a Nova Novos Horizontes no caminho.

10 de julho de 2015 – A nave bate em alguma coisa. O presidente pede explicações a Waltenor, que não sabe de nada pois estava de licença remunerada em Paris. O consórcio tenta localizar o hacker chinês mas ele está de castigo no quarto e a mãe não deixa atender o telefone. O presidente, constrangido, pede ajuda à NASA, que redireciona o Telescópio Hubble para saber onde foi parar a nave brasileira.

12 de julho de 2015 – A Nova Novos Horizontes é localizada. Se espatifou num planeta desconhecido, entre Marte e Saturno. A descoberta de um novo corpo celeste enche de orgulho a nação, o novo planeta é batizado como Tupã e garante a reeleição do presidente, que assim justifica os 56 bilhões gastos no projeto. Barbosa é o novo vice presidente e Waldisnei o presidente do Congresso. Waltenor Paranhos recebe o prêmio Nobel

13 de julho de 2015 – O telescópio espacial encontra entre os restos na nave brasileira varias barras de ouro e maços de dólares. O governo tenta abafar mas o fato vaza pelo Wikileaks. É instaurada uma CPI no Congresso nacional. As empreiteiras confessam que o dinheiro era para financiar campanhas políticas de alienígenas, caso fossem encontrados. “Temos que garantir nosso futuro” alegam. A rápida ação do Vice Barbosa e do deputado Waldisnei transforma a CPI em pizza.

15 de julho de 2015 – Barbosinha planeja uma viagem à Tupã, como objetivo secreto de resgatar o ouro e os dólares. “Pela lei de Tupã é de quem chegar primeiro” avisa aos cúmplices. Para não ter que coçar o próprio bolso ele inventa a nave “Emoções”, com design do Romero Britto e transportando a obra completa de Paulo Coelho, conseguindo assim financiamento pela Lei Rouanet. O projeto, com a missão de levar a cultura brasileira pro espaço, é aprovado com louvor.