A moça da barriga sarada

(Originalmente publicado no http://projetocolabora.com.br )

 

A moça da barriga sarada chega aos dois milhões de seguidores no Instagram.

Ao ler isso fico intrigado, preciso conferir. É importante estar por dentro dos fenômenos culturais do meu tempo, saber o que está acontecendo à minha volta. Li isso num livro do século passado.

A primeira foto é da moça na praia, de biquini, exibindo a tal barriga sarada. A imagem tem cinquenta mil likes. A seguinte é muito parecida, deve ter um coqueiro lá no fundo que é diferente, mas os dois milhões não parecem se importar. Sessenta mil likes. Na terceira ela está numa academia, mais uma vez mostrando a barriga. Outros milhares de likes. Ela posa do lado do logo da tal academia mas, desconfiada – com alguma razão – da perspicácia do seu público, repete o nome da academia na legenda. A audiência exulta. Cem mil likes.

A quarta é um texto, de auto-celebração. Talvez por ser um texto os likes diminuem, agora são só vinte mil. Faz sentido, se a pessoa gostasse de ler não estaria por lá. Na próxima, para alívio geral, tudo volta ao normal, barriga sarada na praia. Os milhões comemoram, à sua maneira: oitenta mil likes. A sequência segue em looping: praia, academia, praia, textinho (auto) celebratório, praia. A audiência se multiplica, extasiada com tanta formosura e sabedoria.

A barriga sarada faz parte dos blogueiros fitness: gente que ganha a vida exibindo o seu dia a dia – praia e academia – e dicas de boa forma – coma menos e faça mais exercícios-. O dinheiro, muito dinheiro, vem dos produtos que aparecem, sem o menor constrangimento, nos posts – malhando com o meu lindo tênis da marca X- . O público, esses dois milhões de sábios, compra tudo com sofreguidão, afinal sabem, gênios que são, que usando o tênis X você será ejetado para uma praia paradisíaca, com vinte kilos a menos. Pode parecer um raciocínio tosco e primário mas o sucesso dessas pessoas confirma que ninguém nunca perdeu dinheiro subestimando a inteligência dos internautas.

O mais curioso é que os blogueiros não fazem nada na vida além de posar para as redes sociais. Não estrelaram filmes, não gravaram discos ou escreveram livros, nada. Também não há uma única dica de dieta que não seja óbvia, não ajudam a descobrir praias desconhecidas, não tem um ângulo diferente para lugar algum. É só barriga sarada e olhe lá. Mesmo no mais rasteiro Big Brother, farol da estultice, pioneiro em tornar protozoários celebridades, tinha algo acontecendo, um resquício de drama, nem que fosse o quadrúpede apaixonado pela sequelada que por sua vez gostava do imbecil. Ao que parece para muita gente até esse fio de trama do BBB era complicado demais. Os blogueiros fitness vieram ocupar esse vácuo.

Os comentários nos posts são uma atração à parte, de certa maneira até mais interessantes que as fotos. Grunhidos, frases sem nexo, reflexões sem nenhum sentido. Já vi pessoas saídas de um derrame com mais articulação. Um mix de inveja, admiração torta, fanatismo histérico e oligofrenia patológica. A parte boa é que toda essa gente conseguiu um motivo para viver: ter um abdomen perfeitamente definido. Quem disse que as utopias morreram?

Após exasperantes quinze minutos deixo o instagram da moça de barriga sarada de lado e volto aos livros antigos. Se é isso que está acontecendo lá fora é melhor voltar para dentro.

Ícone fashion

No almoço de domingo o veredicto vem junto com a sobremesa:

– Voce já tá velho demais para andar o dia todo de camiseta. Faça-me o favor! Uma camisa ao menos. Seu avô dormia de terno e gravata.

Vou ao shopping para agradar meus antepassados. Se não discuto com madame, muito menos com minha mãe. Uma camisa branca vai resolver.

Na vitrine tudo é lindo. Vejo os manequins, altos, magros, bem vestidos, a camisa branca que preciso perfeitamente alinhada ao corpo. Tanta perfeição me faz entrar naquele templo da elegância moderna. Percorrendo as araras tento encontrar alguma do meu tamanho, “M”. Até tem, mas tudo “slim fit”. Slim, fit, slim fit, slim fit…Alguma normal?

– As camisas slim fit tem um corte mais atual, contemporâneo, explica o entediado vendedor, como quem mostra uma Ferrari para um Sem Terra.

Experimento no provador. Se slim fit é o contemporâneo, meu corpo é medieval. Medieval na forma, pré-histórico no conteúdo. A camisa está apertada, as mangas são enormes, pareço um bonecão de posto de gasolina balançando no meio da rua. Mamãe não vai gostar, vovô vai revirar no túmulo.

O vendedor me olha com desprezo. Conheço esse olhar, é o mesmo dos meus amigos gays quando chego numa festa. Uma mistura de horror, pena e constrangimento (desse bullying fashion dos gays contra os heteros o Jean Wyllys não fala!) Voltando à loja: tento me safar com uma tática diversionista:

– E sapatos, tem?

O que ele traz aperta dos lados e sobra um quilometro na frente. Parece coisa de circo ou congresso de ortopedia. Pergunto se tem algum com forma de pé e não de lacraia. A moda é assim, garante o vendedor, enfadado com a minha falta de cultura e informação. Sou um ianomâmi perdido em Manhattan. E o maldito percebeu isso no segundo em que entrei na loja. O Ianomâmi ao menos tem mais cultura e estilo.

Ultima tentativa:

– Quem sabe uma calça? Preciso de uns jeans novos.

Ao ouvir a expressão “uns jeans novos” o vendedor faz uma cara de pavor, pede os sais e desmaia. É acudido pelo gerente, que se comove com a sua situação. Acho que ele está encenando só pra poder fugir. O gerente manda outro para a missão impossível. Que tipo de “jeans” o senhor quer? Skinny? Bootcut? Straight?

– Ahnnn..normal, uns bolsos na frente, outros atrás, duas pernas…

O cara bufa e revira os olhos, “O ianomâmi é metido a engraçadinho”, dá pra ler no pensamento dele. Vai me enxotando para o provador, deixando claro que a minha presença na loja está espantando os outros clientes.

A calça me transforma. Deixo de ser um daqueles boneco de posto e viro um de Olinda, de carnaval. O rídiculo é igual ao diabo, se apresenta de infinitas formas. O desafio agora é sair do templo da elegância moderna com alguma dignidade. Levo um par de meias. “Nada pode dar errado com meias”….murmuro baixinho. O vendedor me olha com pena e me acompanha até a saída. Acho que é para garantir

No almoço seguinte o veredito já vem antes do prato principal

– Quando voce vai aprender a combinar as meias com o resto da roupa?

Exército branco

São astutos e matreiros. Primeiro aparece o líder, perto das orelhas. Depois vem outro e mais outro e, olhando no espelho, você pensa que caiu alguma coisa no cabelo. Dá uma sacudida e continua igual. Os patifes quando chegam é pra ficar. Você usa a malandragem para tentar ganhar a batalha. “Tudo bem, é sinal de sabedoria…” Enquanto isso eles só se espalhando. Você se ilude: “é o charme da maturidade, se não parecia com o Brad Pitt ao menos agora vou lembrar o George Clooney” achando, ingênuo e convencido, que meia dúzia deles e uma xícara de nespresso vão confirmar sua teoria. Na verdade está mais para Mr. Bean e mesmo assim num dos episódios sem graça.

Aí o tempo passa, os tratantes se organizam e o chefe, corajoso, pula para sobrancelha. Você não acredita, acha que é um reflexo da luz ou um pelo de gato que voou. Arranca fora, finge que nada aconteceu e pensa que está resolvido. Mas eles tem uma meta, querem vencer a guerra e não vão descansar enquanto não chegarem lá.

Vem a hora da barba. Como sempre, primeiro o comandante, sozinho, para desbravar o terreno, depois os outros. E agora? Se deixar correr solto vira Papai Noel. Por sorte os cavilosos recuam um pouco. Mas voltarão e todo mundo sabe que com reforços. Estão se organizando para o golpe final. Você tenta esquecer, pensa nos benefícios da maturidade: a vida responsável, a estabilidade, o apartamento, o fim de semana no sítio. Fica deprimido e isso só os ajuda. Melhor sair de casa, dar uma volta, se divertir, como diz o anúncio de vitaminas geriátricas.

Aí acontece uma trégua: você vai levando e se acostumando. Já nem acha tão ruim, uns aqui outros ali, afinal nada demais, o tempo passa mesmo pra todo mundo. Brad Pitt, Mr. Bean, George Clooney, todos envelhecem, assim é a vida, e a felicidade é muito mais do que isso. Pensa, outra vez ingênuo, que seu desdém vai triunfar sobre o exército branco

Então, finalmente, um dia você acorda, desavisado e alegre, e vai ao banheiro. Olha pra baixo, para aquela fortaleza que parecia inexpugnável e lá está o líder deles, sorrindo satisfeito.

Venceram a guerra.

Genialidade

Acabou o azeite, lá vou eu para o supermercado do outro lado da rua. Levo um choque de realidade: a garrafinha já está dezoito reais. Tenho um surto revolucionário. “Tá maluco, isso tem que acabar!” Munido da seletiva indignação classe média pego a moto e vou para o Mundial de Botafogo, reduto da resistência contra os zonas sul, pães de açúcar e delicatessens do Leblon. O ministro Levy, carioca, já devia ter aprendido: se existe uma batalha contra a inflação, as trincheiras estão no Mundial. Trincheiras um tanto sujas e com algumas baratas, mas guerra é guerra.

Encontro a garrafinha a quatorze reais. Arrá! Mas aí percebo que tem duas senhoras cochichando perto de mim. Todo mundo sabe que em supermercado popular duas pessoas falando baixinho só pode ser uma coisa: estão malocando oferta. Tal qual um Sherlock Holmes classe C percorro o Mundial atrás da misteriosa promoção. Não dá outra: lá no fundo, numa gôndola escondida, tem oferta-relâmpago: o mesmo azeite está sendo vendido por R$11.99. Vou enchendo o carrinho com tanta sofreguidão que o gerente pergunta: não quer levar logo uma caixa de dez?

E lá vou eu para a famosa fila quilométrica no caixa, a fase onde os coxinhas e os fracos desistem. Carrego meus azeites de 11.99 como um troféu. Só na saída me dou conta que caixas e motos não combinam. As pessoas na rua olham para a minha situação e dão risadas. Não me importo, não será a chacota pública que irá me deter, ao menos desta vez. Coloco a caixa entre as pernas e, usando toda minha cultura circense, vou saracoteando pelo trânsito até em casa. Por milagre chegamos, o azeite e eu, inteiros. Um feito e todo feito exige uma comemoração, de preferência com muito glúten. Mais uma vez atravesso a rua e vou ao Guerin, que, ironicamente, fica ao lado do Zona Sul. Carboidratos com vingança, combinação infalível.

Peço um café e um croissant. Dois pães para levar. A sensação de vitória é algo maravilhoso. E fugaz. O caixa me apresenta a conta. R$ 61,00. Faço a contabilidade: Poupei R$ 60,1 no azeite, gastei R$ 61 na comemoração pela economia.

Acho que preciso muito mais de uma professora primária do que de um psicanalista.

Mãe Dináh

 

strangelove

9 de outubro de 2015 – Aparecem extratos das contas de Eduardo Cunha na Suiça. O endereço do responsável é na Barra da Tijuca, na casa do Deputado. Ele nega tudo, diz que não tem contas no exterior. Os tucanos só falam do impeachment, os petistas assoviam.

14 de outubro de 2015- Um vídeo mostra Eduardo Cunha entrando numa agencia bancária suiça com maços de dinheiro em sacolas do Mundial. Nas imagens se percebe que notas caem no chão mas Cunha, saltitante, nem aí. O deputado diz que não eram notas de verdade, que estava indo jogar Banco Imobiliário com o gerente. Os tucanos só falam do impeachment. Os petistas dizem que estão indo comprar Coca com casco de Pepsi mas voltam já.

3 de novembro de 2015 – Surge uma cópia de um cheque de um banco suiço, assinado pelo deputado, usado para pagar uma TV de 150 polegadas em Miami. Eduardo Cunha diz que nunca foi a Miami, não sabe o que é TV e só usa cheque, sem fundos, para pagar o dízimo. Os tucanos só falam do impeachment. Os petistas dizem que a culpa é da TV golpista.

20 de novembro de 2015 – Enquanto um solitário deputado pede a renúncia do presidente da Câmara na tribuna, Eduardo Cunha, às gargalhadas, faz aviõezinhos com notas de cem dólares. O vídeo da confusão, épica, de centenas de deputados correndo atrás do dinheiro que voa desbanca Gangnam Style e se torna o mais visto do Youtube. Enquanto o Brasil comemora o feito, os tucanos só falam do impeachment. Os petistas, acuados, entregam todos seus aviõezinhos para o PMDB.

10 de dezembro de 2015 – Um jornal descobre que Eduardo Cunha paga a Net e a assinatura da Veja no debito automático. De um banco suíço. O deputado nega, diz que só assiste Netflix com a senha da sogra e pega a revista do vizinho, “tá de férias, nem repara”. Chateado, exige que todos os deputados beijem seus pés. Há uma corrida na Câmara garantir lugar. Na fila, os tucanos só falam do impeachment. Os petistas negociam dois ministérios com o PMDB para ficar na frente.

23 de dezembro de 2015 – O presidente da Câmara entra em rede nacional. Acaricia um gato angorá branco que tem no colo. Avisa que, em retaliação às perseguições absurdas e injustas que tem sofrido, acaba de aprovar uma lei que cancela o Natal. “O governo tem que entender que papai Noel já era e que o carnaval está chegando. Ou não.” Termina a transmissão com uma gargalhada maligna. Os tucanos só falam o impeachment. Os petistas dizem que suspender o natal é uma boa forma de cortar gastos.

 

 

 

 

 

Novos tempos

Estou esperando o sinal. Do outro lado da rua tem uma moça bem bonita, de saia. Bate um vento forte e a saia voa. Meu reflexo é abrir um sorrisão e pensar: wooohooo! Mas isso não é o correto, presto muita atenção ao que as moças escrevem no Facebook sobre comportamento masculino. Então viro a cara pro lado, com ar sério e expressão grave. Dou de frente para outro sujeito, que está com um sorrisão na cara, olhando a saia que voa da moça bonita. O sujeito vê a minha expressão grave e pensa que a moça é minha mulher, minha irmã ou minha filha. Imediatamente ele também vira a cara. Agora somos dois olhando pro lado, onde está uma senhorinha, também esperando o sinal. Esta vê a cena da moça da saia voando e dois homens com a cara virada e dá um sorrisão.
Não consegui decifrar se era de aprovação, ironia ou sarcasmo.

Supremacia mestiça

 

KKK

O “Imperial Klans of America Brasil” espalhou cartazes em Niterói ameaçando comunistas, gays, negros, judeus etc. Pode parecer uma estupidez uma organização racista que defende a supremacia branca, assim como também parece coisa de sequelado seguir isso num país miscigenado. Puro preconceito. Uma câmera secreta gravou a última reunião desta tão injustiçadada entidade. Dez pessoas estavam presentes na escura e apertada sala do movimento.

– Comandante Uésleison, já termin…

– Cale-se insolente! Já não disse para me chamar de Mein Führer?

– Sim…Mein Führer…já terminamos de colar os cartazes, podemos partir finalmente pro genocídio?

– Por que tanta pressa?

– Semana que vem saio de férias, vou para pra casa da minha tia Sarah

Silêncio na sala

– Sara? Sarah! Isso não cheira bem…Por acaso sua tia é judia?

– Não, Mein Führer, quer dizer, é meio, mas é que ..

– Saia daqui agora! Hebreu sujo! Como ousa?

O membro é expulso aos pontapés da reunião.

– Vocês vejam! Um judeu entre nós! Mais alguém tem esse sangue vil e sórdido?

Discretamente duas pessoas se encaminham para a porta.

– Vamos deixar eles sairem assim, Mein Führer? Não vamos queimá-los vivos?

Uésleison usa sua autoridade para segurar a tigrada

– Calma! Temos que guardar a gasolina para as tochas. Você aí, qual o seu nome?

– Mayquel

– Vai até a cozinha e pega uma cerveja pra nós.

Mayquel, que estava num canto escuro, atravessa a sala e passa embaixo da única lâmpada. Silêncio na sala.

Ô Mayquel…de onde vieram seus antepassados?

– Da Suécia e da Alemanha! Vovô Helmut e vovó Johanna!

– Tem certeza Mayquel, você não parece… a sua cor de pele…Joseildo, pega agora a tabela de cores!

Mayquel fica na defensiva

– Pego muito sol, Mein Führer, e todos sabem que protetor solar leva ao homossexualismo!

A tabela dá o veredicto: Mayquel é expulso debaixo de tapas. Três outros, não confiando no pó de arroz e nas lentes de contato azuis, aproveitam a confusão para sair de fininho.

Sobram Uésleison e mais dois.

– Agora somos apenas três mas não tem problema. Vamos acabar com essa gentalha inferior de qualquer maneira. Jefferson, pega seu caderno e vamos anotar nossos próximos passos.

Jefferson põe seu caderno na mesa. Silêncio na sala

– Meu amigo, seu caderno é cor de rosa? Só efeminados usam rosa!

– Rosa..? Não!!! É vermelho! Vermelho! De sangue! De macho!!!

– Joseildo, pega de novo a tabela de cores!

Mais um veredicto da escala: o caderno é rosa

– Tirem esse homossexual asqueroso daqui! Verme pederasta!

Sobram Joseildo e Uésleison. Os Imperial Klans e a supremacia branca estão por um fio.

– Mein Führer, Sómos só nós dois para implementar o extermínio de duzentos milhões de brasileiros mestiços. Vamos ter que dividir as tarefas…

Silêncio na sala

– Dividir??? Comunista!!!

 

Vem chegando o verão

arrastão

No primeiro arrastão da temporada saem da toca dois personagens tão típicos do verão carioca como o mate e o biscoito Globo:

– O menino psicopata do Rio – Cevado a Red Bull na classe média do balneário, o psicopata não se conforma com aquela gente diferenciada conspurcando seu playground no domingo de sol. Para ele sobram ônibus e falta exército. O que essa gente tá fazendo aqui? Quem deixou entrar? Cadê o porteiro, cadê o segurança? Onde está a PM pra mandar essa classe C de volta pro morro? Injustiça social, desigualdade, nada disso é com ele, é coisa de “comunistazinho tentando implantar a ditadura bolivariana e gayzista”. “Volta pra Cuba!” é o seu bordão e “Crédito ou débito?” o seu maior dilema existencial. Decepcionado com o Brasil, país pobre e cafona, está sempre ameaçando uma mudança para Miami, que nunca acontece. Sonha com o fechamento do Rebouças nos fins de semana e a implantação do passaporte baseado na escala Pantone. Ama o arrastão, é a grande chance de apertar ainda mais o torniquete.

– O neo-brizolista kamikaze – Veio da mesma classe média mas foi criado tomando danoninho e soltando pipa no ventilador. É um ativista online, que nunca pisou numa favela ou mesmo num conjunto residencial mas já leu 578 livros e assistiu 693 documentários sobre o assunto, além de conversar durante dez minutos por semana com sua empregada doméstica, que ele faz questão, revolucionário que é, de chamar de secretária do lar. Decepcionado com o Brasil, país reacionário e careta, está sempre ameaçando uma mudança para Berlim ou Lisboa, o que nunca acontece. Mesmo com todo seu engajamento virtual se acha responsável pelo quadro social, então dá cinco reais por mês para uma obscura creche em Bangu, seguindo a filosofia do “por eles mas longe deles”. Como sua generosidade e as sessões de psicanálise não aliviam a culpa, acha que a violência urbana é um castigo mais que merecido. “A burguesia merece punição” é o seu mantra. Tem orgasmos ao ver assaltos na TV. Ama o arrastão, seu grande sonho é ser imolado durante um, o que o levará ao Paraíso onde 72 estudantes virgens de sociologia o esperam.

Os dois personagens vão brigar pelas redes sociais até a chegada das águas de março, quando hibernarão até o primeiro e desejado arrastão anunciar a chegada da nova estação.

Super-herói

Quando criança minha idéia de futuro era virar super-herói. Tinha como certo que mais cedo ou mais tarde me tornaria o Super-Homem ou o Batman ou, na pior da hipóteses, o Homem-Aranha. Era só uma questão de tempo. Mas o tempo foi passando, passando e um outro fenômeno está acontecendo.

Notei a mudança aos poucos: primeiro as mulheres, que não olham mais. Não que eu fosse algum tipo de Brad Pitt ou George Clooney, longe disso, aliás bem longe, mas sempre havia as míopes e as que me confundiam com outra pessoa. Era o que bastava para que a minha auto estima desse uma pedalada na realidade, garantindo algumas migalhas de ilusão. Mas ao sair do radar das distraídas e das que não enxergam bem, entrei no vácuo. Nas festas, nos bares da moda, no show da banda incrível da semana, em todo lugar virei uma abstração. Não foi só isso, outros sinais também surgiram: a modelo troca de roupa na minha frente, a desconhecida conta suas peripécias sexuais sem se importar com a minha presença, entro no banheiro femenino por engano e ninguém repara. Sou um Fred numa eterna Copa do Mundo.

Os vendedores de loja são outro capítulo. Entro e ninguém se mexe. Antes era recebido com fogos de artifício, como um bilhete premiado com duas pernas e dois braços. Descobri que todo o comércio, a moda e a publicidade são dirigidos só ao grupo a que pertencia, os solteiros sem filhos. São os que tem dinheiro sobrando e nenhuma preocupação com o futuro. Aliás, bons tempos esses, eu entrava para comprar um par de meias e saia com três pares de tênis, quatro calças e um terno que jamais usaria. E nem aí para os preços. Agora entro para comprar uma camisa, faço mil contas e comparações, peço desconto e se me perguntam se quero outra coisa caio na gargalhada. Não é à toa que num shopping ninguém me vê.

E finalmente a Lei. Blitzes, barreiras policiais, alfândegas, nada disso me diz mais respeito. Passo por tudo como um fantasma. Ninguém me para. Não é que eu tenha cara de santo, é que já não tenho cara de nada, um zero à esquerda. As autoridades acham que um sujeito da minha idade, de óculos de grau e cadeirinha de criança no banco de trás não tem a coragem necessária para cometer qualquer crime, no máximo atrasa a conta de luz e ainda liga para a Light pedindo desculpas. Na blitz da Lei Seca param o cara da frente, param o cara de trás, e comigo nada, parece que fazem de propósito, um bulliyng torto. Passo fazendo caretas e gestos obscenos e eles nem aí. Chega a ser humilhante.

Acho que cheguei naquela fase em ninguém teme algum arroubo juvenil da minha parte mas ainda não ganhei o respeito dos cabelos brancos. É um tipo de limbo etário, que faz que a sociedade me trate como um ser impalpável e imaterial. Se a vida é um palco, me colocaram lá no fundo, no papel de árvore.

Há um consolo. Posso dizer agora que, sem querer, meu sonho de criança se realizou: me tornei um super-herói.

O homem invisível.

Saudosismo

No domingo de sol estava eu a comprar revistas numa banca do Humaitá quando reparei que na padaria ao lado estava se formando uma fila. Adoro filas. Filas e senhas. Nem quero saber pra que é, vou logo entrando. Cada um se diverte como pode. Essa da padaria era para comprar frangos. Aqueles que ficam rodando no forno com vitrine, a famosa TV de cachorro. Eu nem estava com fome, mas fui fisgado mais uma vez pelo meu saudosismo, pelas memórias da infância. Lembrei daquele frango que vinha mal empacotado em papel, gordura pra todo lado, a disputa facínora com meu irmão pelas melhores partes e o engasgamento com a farofa. Um clássico. Toda aquelas felizes recordações estavam ao meu alcance por apenas vinte e sete reais. O que poderia dar errado?

Ainda chafurdando na nostalgia comecei a prestar atenção na conversa do casal atrás de mim. Eles comentavam não só o tamanho mas também características dos frangos à venda naquele dia. Percebi na hora que toda a fila era íntima da padaria e da sua TV de cachorro. Falavam dos galináceos como quem comenta a escalação do Flamengo. Uma confraria volátil. Eu, criado soltando pipa no ventilador e jogando bolinha de gude no tapete, comecei a ficar inseguro. Só tinha comido, nunca fui a pessoa que ia lá comprar. Na minha ingenuidade, achei que era so pagar, pegar e ir embora, como num supermercado. Na, na, na. Precisava escolher, e escolher muito bem, precisava saber das sutilezas das sobrecoxas e dos detalhes miúdos do drumet. Não era só o tamanho e o ponto. Nada disso, pensar de tal maneira já mostrava o meu total despreparo para tarefa. Notei que a moça que estava lá na frente analisou um espeto inteiro antes de fazer sua escolha. E ficou com o menor frango. Ela sabia de algo que não se aprendia em MBAs ou assistindo TEDs.

Logo à frente estava um senhor de bermuda, camisa social e chinelo. Cara de militar aposentado ou síndico na ativa, com aquela eterna expressão grave que não era aliviada nem num domingo de sol. Quando chegou a vez dele o atendente tremeu como chef na frente de crítico. O coroa apontou para o primeiro espeto. O cara mostrou com orgulho e ele o examinou detalhadamente. Fez um sinal de negativo. Apontou para o espeto de cima. Sem reclamar, o rapaz atendeu. Assim foram até o quinto e último. O sujeito era um sommelier de penosas. Parecia sentir o terroir de cada ave e mudava os espetos como quem troca de safras. No final escolheu o o último da fila, um trabalhão para tirar, mas o vendedor, sem cara feia, fez a vontade do cliente. Moral é tudo na vida.

A fila seguiu e o atendente gritou: próximo! Era eu. Ao perceber o trouxa inexperiente, o rapaz abriu um sorriso sarcástico e, piscando para a caixa, perguntou: vai escolher qual? Resolvi blefar: o segundo da terceira fila, disse com uma displicência mal ensaiada. Quase ouvi os risinhos nas minhas costas. O blefe não tinha dado certo. Mudei de tática. Não, o terceiro da segunda fila. Tem certeza? Não! Peraí… Liguei para minha mãe. Ninguém atendeu. Procurei no Google “terroir de frango”. Nada. Então amigo, vai levar qual? Entreguei os pontos: Qual o senhor acha melhor? Me senti um turista pegando táxi na rodoviária. O sujeito mal conseguia disfarçar o riso. O resto da fila também. Esse aqui tá ótimo, é o melhor…pode levar. Derrotado, peguei o embrulho e fui arrastando meu fracasso pela rua.

Cheguei em casa e já levei a primeira bronca: tá atrasado! Lembra que íamos almoçar com fulana e beltrano? Onde você estava? Assim não é possível! Meu filho olha aquele pacote, abre e faz cara de nojo: que porcaria é essa?

O sol continuava lá fora.

Não é à toa que sou saudosista.