O treino do eu sozinho

Academia cheia. Deixo a mochila no armário, pego a ficha e entro na selva da aparelhagem. Vinte repetições, três séries. Passa para o outro. Mais repetições, mais séries, mais aparelhos, mais esteira, mais transport e finalmente o alongamento. Salvo o “oi” para a recepcionista, não troquei nenhuma palavra com ninguém. Mesmo para os meus padrões de misantropo patológico, é algo além da conta. Um autismo anabolizado.

Antes fazia ginástica/malhava/treinava (escolha o termo de acordo com sua idade) numa academia pequena, de clube. Perto da atual, uma festa, quase um bloco de carnaval. Tinha o rubro negro roxo, o botafoguense deprimido, o exaltado que defendia o Lula, a perua que vivia falando mal da Dilma e todo aquele elenco de apoio que só existe em academia de clube, como as simpáticas senhorinhas que faziam aula ao som de Volare, Volare e o aposentado que trotava na esteira de calça comprida e cinto.

Mas essa academia era um pouco na contramão e eu, indolente, abandonei o barco. Depois de um longo período de vadiagem, alguns kilos a mais e um esporro do médico, fui obrigado a voltar para estranho mundo da malhação. Desta vez escolhi uma que fica quase do lado de casa, pra não dar asas para a preguiça.

Nas primeiras vezes achei que o problema era comigo. Com o meu já clássico outfit esportivo, camiseta Hering furada e short Canalonga vintage, talvez os outros achassem que eu ia pedir esmolas. Mesmo assim nem se dignavam a olhar. Todo mundo de fone no ouvido e olhar para o além. Consultei minha amiga guru da boa forma, que me explicou que interação é coisa do século passado e que quanto mais gostosa(o) voce é menos papo tem que dar ao resto da humanidade. Como estou no subsolo dessa pirâmide do sex-appeal, tentei puxar papo com a mulher barbada e o esquisitão que fala sozinho mas nem estes me deram trela. Rolou um cão sarnento feelings.

No entanto reparei que na academia tanto as bonitas como as feias, os fortes, os fracos, ninguém fala com ninguém. Não tem bom dia, não tem comentário sobre o tempo e muito menos opiniões sobre a renúncia do Cunha. Nem um pio. Tipo biblioteca alemã. Fechada. Não fosse o bate estaca no som ambiente haveria mais silêncio do que em enterro de ditador.

Até pra revezar nos aparelhos o jeito zumbi surdo mudo dá as cartas. Quem quer usar fica do lado, parado feito estátua, esperando que quem está usando perceba. Como essa pessoa está com os fones enterrados nos ouvidos e só olha para a frente, a situação pode se arrastar por horas, o que não parece incomodar a ninguém. Não é para principiantes. Como sou pato novo só posso olhar para a ficha e as TVs, qualquer outra atitude pode ser encarada como assédio ou provocação. Tem que seguir a filosofia do ônibus, fale somente o indispensável. Se for possível, nem isso.

O bom desse isolamento compulsivo é que fico o tempo todo concentrado no supino e no leg press. Os kilos ganhos já estão indo embora. Em compensação tive que dobrar as sessões de psicanálise, para acomodar na cabeça toda essa rejeição em grupo. Deveria ter dado atenção ao conselho da guru da boa forma:

– Mistura um prozac no whey e deixa de frescura. Já era hora de aprender que interação engorda.

 

 

No mundo da Lua

Peguei o Uber em Ipanema. O motorista, Rodrigo, não sabia o caminho para o Jardim Botânico e também não se entendia com o Waze. Entro em modo “classe média indignada”: não é possível, virou bagunça, como admitem profissionais tão inexperientes? Ter que explicar um caminho óbvio para o chofer, onde já se viu? Agora vou ter que ficar a viagem toda mostrando o caminho, blá, blá, blá.

Não darei estrelas para o Rodrigo.

Caímos no engarrafamento da Lagoa. Rodrigo pede desculpas por não saber o trajeto. Está no Uber há quinze dias.

Tenho um lapso de empatia e pergunto como ele foi parar ali.

– Eu era gerente numa empresa que trabalhava com para a Petrobrás. Tinha um bom salário, dava para pagar o colégio das crianças e o apartamento financiado. O único problema é que trabalhava demais, chegava em casa nove, dez da noite, mal via os meus filhos, quando entrava eles já estavam dormindo. Achava que valia a pena o sacrifício para dar para os dois uma infância melhor que a minha, estudei em escola pública ruim e vendo os meus pais no sufoco do aluguel. A gente faz tudo pelos filhos, né? Mas no ano passado a crise pesou e a Petrobrás começou a cortar fornecedores. A empresa balançou. Fui um dos primeiros a ser cortado. Foi a primeira demissão da minha vida, logo agora…O senhor já foi demitido? A gente fica se sentindo um lixo, nem sabia como contar pra minha família  me sentia envergonhado. O pior é que o tempo foi passando e nada de arrumar outro emprego, tinha muito tapinha nas costas, tinha muito conselho mas nada de trabalho. Este ano tive que tirar as crianças do colégio para colocar na escola pública. Me senti um fracasso não só como profissional, mas como pai. De que adiantou perder a infância deles trabalhando feito um condenado pra no fim dar nisso?
Um conhecido me falou do Uber. Disse que dava pra tirar um dinheiro. Eu já estava no sufoco, quase vendendo o carro, resolvi arriscar. Não é ruim mas tem que fica doze, treze horas trabalhando, no mínimo. Mesmo assim não chego nem na metade do que ganhava antes, tivemos que cortar, todos os supérfluos, nada de lazer ou qualquer despesa extra, vai tudo para a prestação do apartamento. O plano de saúde também ficou para trás, rezo toda noite para que a gente não tenha nenhum problema mais sério.
Tá muito difícil.

Vou indicando o caminho até a minha casa. Me despeço desejando boa sorte. Quando chego em casa aparece o valor da corrida: dezoito reais, depois de quase uma hora no trânsito. Com os vinte por cento do Uber, o motorista fica com menos de quinze. Se levar em conta a gasolina e a manutenção, não sobra quase nada. Como o Rodrigo e a família vão viver?

A realidade derruba o modo “classe média indignada”. Me dou conta que, em resumo, O que fiz para ajudar uma pessoa em dificuldades foi dar meia duzia de dicas de trânsito e mesmo assim de má vontade.

Cinco estrelas para o Rodrigo por me tirar do mundo da lua

Do chão não passa

Grazi2

Julho de 2009. Finalmente consigo comprar o apartamento que queria. Levo minha mãe para conhecê-lo. Ela entra, dá uma olhada rápida e decreta: “dá pro gasto mas nunca vi um piso tão horrível na minha vida. Não venha morar aqui sem trocá-lo.”

Foi o único comentário. A síntese é um dom.

Por preguiça, avareza e pirraça deixei o chão como estava. Quem se importa com pisos?

Combinei com Clarice dela vir aqui em casa para umas fotos. Ela me liga da rua: “oi, tô chegando com uma amiga, daqui a pouco tô aí.”

Quando abro a porta estão Clarice e a amiga. Que é a Grazi Massafera.

Não sei como é o dress code para receber sex symbols em casa às dez da manhã mas certamente deveria ter vestido a camiseta sem furos. E feito a barba. Os pés descalços também não me pareceram adequados. Se não estivesse na minha própria casa poderia ser definido como um sem-teto. Talvez o meu figurino fosse o adequado para receber cobradores ou fiscais do Imposto de Renda.

Grazi se encanta com o pianinho do meu filho no meio da sala. “Quando era criança sonhava em ter um piano desses!” Nos filmes de 007 o agente secreto precisa de carrões, restaurantes luxuosos e missões impossíveis para impressionar a bond-girl. Como diria a Bela Gil, dá pra trocar tudo isso por um pianinho. Enquanto devaneio sobre poder e sedução a moça já está instalada na banquetinha, tocando como se não houvesse amanhã.

– Me filma?

– Claro

O que poderia dar errado?

Grazi posta o video. Pergunto quantos seguidores ela tem. Sete milhões. O número acende uma luz amarela na minha cabeça mas não dou atenção, prefiro continuar olhando o concerto na sala. Mais um erro para minha coleção.

De tarde me liga um amigo: “sua casa tá no Ego(*), aquele site de celebridades!” Se sua casa está no Ego é porque você é famoso. Se voce é famoso precisa que a sua mãe saiba disso, dizem as vozes imaturas e mal resolvidas que moram na minha cabeça. Como nada é mais efêmero que a fama, ligo imediatamente.

– Mãe, a minha casa tá no Ego!

– O que é Ego?

– Um site de celebridades. A Grazi postou um video da casa e foi parar lá.

– Quem é Grazi?

Faço uma breve descrição da indústria cultural e da era das celebridades. Dá pra perceber o tédio do outro lado. Em todo caso ela diz que vai dar uma olhada.

Desfruto da notoriedade, ainda que na condição de papagaio-de-pirata. Ninguém me conhece mas que se dane, ao menos a sala da casa é famosa.

Em menos que quinze minutos minha mãe liga de volta:

– Voce está sempre inventando novas maneiras de envergonhar nossa família. Podia usar sua criatividade para outras coisas.

– Ué, qual o problema da fama?

– Leia os comentários. Quando voce vai aceitar que mamãe sempre tem razão? Especiamente quando te critica.

Abro o site. Leio o primeiro comentário debaixo do vídeo:

Que horror, essa é a casa dela? Nem na minha casa eu uso esse piso cerâmico 30×30.”

O maldito piso. Será que foi mamãe que escreveu isso? O segundo é sarcástico:

“Não importa o piso da casa, e sim o conteúdo

O terceiro, além do sarcasmo tem numeros precisos. Uma combinação irresistível, devo admitir.

“30×30, 21,90 o metro quadrado. Só faltou a telha de amianto.”

Tem mais

“Nossa os fãs ficam ofendidos mesmo né? Esse piso é o mesmo usado na Minha Casa, Minha Vida. Fato.”

Minha Casa, Minha Vida? Sera que eles descobriram que votei na Dilma? Não vai ter golpe!

“Vem com esse papo de simplicidade não. É pão durice ou falta de bom gosto mesmo. (…)O fato de ela ter origem simples não quer dizer que possa usufruir de bens materiais que proporcionem bom gosto e mais beleza no seu cotidiano. O piso é barato mesmo e não é um primor de beleza.”

O massacre continua. O Brasil agora tem três vilões: o Cunha, o David Luiz e o piso da minha sala.

“(…)A questão central é o piso feio e barato da suposta casa de uma estrela global, que denotaria desleixo, mau gosto ou mesmo avareza.”

Avareza…esqueceram da preguiça e da pirraça. O próximo me faz sentir um dos protagonistas de “dois filhos de Francisco”

“… não venha falar da origem “humilde” dela para justificar o suposto mau gosto dela, pois até quem nasce numa tribo indígena é capaz de criar bom gosto convivendo por mais de 10 anos no RJ trabalhando na Globo.”,

A enxurrada de críticas quase me faz tomar uma atitude em relação ao piso. Penso no transtorno, na poeirada, no entra e sai de operários, na satisfação da minha mãe e dos leitores do Ego. A preguiça, a avareza e a agora renovada pirraça vencem outra vez.

As vozes da cabeça decretam: do chão não passa.

 

(*) http://ego.globo.com/famosos/noticia/2016/04/grazi-massafera-posta-video-em-que-aparece-tocando-piano-infantil.html

Maricá na promoção

Maricá era uma cidade pacata, calma e tranquila, um raro balneário fora do radar fashion.

Até que um diálogo do Farol da classe média e prefeito do Rio nas horas vagas vazou :

– O senhor é uma alma de pobre. Eu, todo mundo que fala aqui no meio, eu falo o seguinte: imagina se fosse aqui no Rio esse sítio dele, não é em Petrópolis, não é em Itaipava. É como se fosse em Maricá. É uma merda de lugar.

Era o que a cidade precisava para virar uma atração turística de primeira grandeza. Agora é só tocar pro gol.

Hipsters, por exemplo: tem alguém que tem orgasmos quando vê um pobre é hipster. Mas tem que ser o pobre certo, como o de Maricá. Não pode ser nem o miserável, que é invisível quando não está numa foto em preto e branco, nem o da classe C, que é a kriptonita do hype. Tem que ser aquele pobre idílico, da casinha colorida de subúrbio, do churrasco no domingo com Faustão passando na TV.

Esse sim!

Ser convidado para um evento autenticamente pobre é algo disputadíssimo nas rodas meio de esquerda meio intelectuais da Zona Sul. Tem designer que entregaria o MacPro para visitar uma cidade só de pobres do tipo certo. A possibilidade de entrar na casa, de ver o conjunto estofado de courvin ao vivo, de analisar pessoalmente os utensílios da cozinha, (será que tem coador de pano? Magiclick? Filtro de barro? ) faz o hipster babar na barba de lenhador. O que dirá de uma balneário pobre logo ali na região dos Lagos.

Maricá finalmente vai bombar!

Fotógrafos renomados farão ensaios mezzo kodachrome, mezzo tri-x, repórteres de comportamento caçarão tendências, extraindo ensinamentos filosóficos da Dona Maria, revistas de moda endeusarão a cadeira de plástico branca como ícone de estilo e, é claro, Regina Casé divará nas ruas, num Esquenta sem fim. A Rede Globo já nem vai precisar mais do Projac para gravar o nucleo pobre da novela. Todos pra Maricá!

O importante é que a cidade não ponha os pés pelas mãos deixando a pobreza sair do script que agrada aos novos turistas: nada de igrejas evangélicas, por exemplo. Afinal, se o balneário acabar na Record volta ao anonimato. O turismo hipster gosta de gente humilde frequentando igrejinha católica, com padre meio de esquerda e meio severo. E também nada de sertanejo, funk ou rap, tudo coisa de classe C. Só roda de samba em boteco vintage, tocando apenas Cartola e Zé Keti. Assim pode-se cobrar do turista cinquenta pratas por uma Schin e cem pelo bolinho de bacalhau da Dona Maria ( aquela que foi entrevistada pelo repórter de comportamento). É a pobreza premium, customizada para o turista diferenciado.

O novo cartão postal da cidade será um Mega Supermercado Mundial. Tipo loja-conceito, maximizando a experiência do mercado pobre: apenas um caixa funcionando (que só aceita moedas), um apresentador anabolizado gritando ofertas no volume máximo e carrinhos que mal passam pelos corredores. Isso deixará o turista-hipster extasiado, com assunto para uma noite toda no Baixo Gávea. Na saida do Mega Mundial teremos uma lojinha igual às dos melhores museus, onde poderão ser adquiridos souvenirs, como mini garrafinhas de guaraná Dolly e camisetas do Fubá Granfino. Já o city tour será feito em bicicletas Caloi barra-forte, afinal van é coisa de classe C e hipster só entra em onibus no hemisfério norte.

Maricá será transformada no primeiro parque-temático da pobreza no Brasil, transformando o limão numa limonada.

Ou melhor, num refresco Tang.

Voltando pra casa

 

Ontem cheguei em Congonhas de noite, apressado, correndo para pegar o voo de volta pro Rio. Quando estava entrando no embarque me veio o flashback.

Depois de uma certa idade o seu guru não é mais o Umberto Eco ou Paulo Coelho. É a sua própria memória.

Me vi quarenta anos atrás esperando o meu pai voltar do curso de francês. Ele ia todas as terças e quintas, de sete as nove. Ficava acordado porque sabia que ele ia trazer o chocolate que eu gostava. Às vezes, para fazer suspense, dizia que tinha esquecido, que não deu tempo, que não tinha achado. Eu pegava a capanga dele, revirava e estava lá. Ainda hoje seria capaz de descrever o barulho da chave abrindo a porta, o que tinha na bolsa, o gosto do chocolate.

Dei meia volta e fui procurar as balas preferidas do Martín pelo aeroporto. Quase perdi o avião. Quando cheguei em casa ele já estava dormindo. Deixei o pacotinho do lado da cama. Hoje de manha ele veio com as balas na mão me dar uma abraço

Daqui a quarenta anos não estarei mais por aqui. As minhas fotografias, as poucas que sobrarem, estarão mais amareladas e gastas do que uma capanga. Mas talvez eu volte na cabeça de um homem de meia idade à caminho de casa. Talvez essa imagem apareça com uma lágrima e um sorriso e o faça dar meia volta.

E um menino, quem sabe com um nariz ou olhos parecidos com o meus, vai acordar feliz.

Tin

O bloco (neo) liberal

O problema do Brasil é o atraso. Enquanto as grandes nações estão abraçadas ao liberalismo, à livre iniciativa, nós rodopiando pelo salão atracados com a ineficiência. Não é à toa que nada dá certo por aqui.

Semana passada a prefeitura multou um bloco no Rio porque tinha um cercadinho VIP. Que absurdo! Mais uma vez o Estado interferindo no empreendedorismo, no arrojo visionário que só floresce no capitalismo.

Esses mesmos blocos, por exemplo, são as coisas mais ineficientes e improdutivas da atualidade. Um bando de desocupados bêbados cantando coisas sem sentido e atrapalhando o transito da cidade. Quem ganha com isso? Porque não dar um choque de modernidade nessa instituição errática?

A primeira coisa é o cercadinho VIP. Um só? Não! Vários! Mas não com esse nome antiquado e preconceituoso. Camarote fica melhor. Camarote master, com direito a fantasia básica e cerveja do patrocinador. Camarote Gold, com os itens anteriores mais adereços e openbar.

E, claro, o camarote premium diferenciado rooftop, no alto do carro de som, com garçons, cardápio de cervejas artesanais, banheiro exclusivo e vista panorâmica para a patuléia ignara.

Outra evolução seria a oferta de “experiências”. O “scream of war experience”, por exemplo: por uma determinada quantia o folião poderia pegar o microfone e dar o grito de guerra no inicio do desfile: “Alô comunidade do Jardim Pernambuco! A hora é essa! Vambora!” Quem não gostaria de viver essa emoção? Basta pagar!

A bateria é outra oportunidade. Não se pode deixá-la só na mão dos músicos. Não dá lucro. Melhor vender para o público a “The tambourine experience”, dez minutos mandando ver no ritmo. O folião tocando e a caixa registradora tilintando, como deve ser em qualquer país do primeiro mundo.

E o playlist do bloco? Com a “Jukebox experience” o folião com Visa, Credicard ou Amex comanda a alegria com suas musicas favoritas. Quer ouvir sertanejo, quer ouvir pagode romântico? Não tem problema, o DJ transforma em samba e joga na caixa. Nos intervalos, jingles dos patrocinadores.

Essa é a maneira correta de transformar essa bagunça momesca num empreendimento moderno, que seja atraente para os investidores e que agregue valor ao Rio de Janeiro

Só assim o Carnaval deixará de ser coisa de loucos e delirantes.

A moça da barriga sarada

(Originalmente publicado no http://projetocolabora.com.br )

 

A moça da barriga sarada chega aos dois milhões de seguidores no Instagram.

Ao ler isso fico intrigado, preciso conferir. É importante estar por dentro dos fenômenos culturais do meu tempo, saber o que está acontecendo à minha volta. Li isso num livro do século passado.

A primeira foto é da moça na praia, de biquini, exibindo a tal barriga sarada. A imagem tem cinquenta mil likes. A seguinte é muito parecida, deve ter um coqueiro lá no fundo que é diferente, mas os dois milhões não parecem se importar. Sessenta mil likes. Na terceira ela está numa academia, mais uma vez mostrando a barriga. Outros milhares de likes. Ela posa do lado do logo da tal academia mas, desconfiada – com alguma razão – da perspicácia do seu público, repete o nome da academia na legenda. A audiência exulta. Cem mil likes.

A quarta é um texto, de auto-celebração. Talvez por ser um texto os likes diminuem, agora são só vinte mil. Faz sentido, se a pessoa gostasse de ler não estaria por lá. Na próxima, para alívio geral, tudo volta ao normal, barriga sarada na praia. Os milhões comemoram, à sua maneira: oitenta mil likes. A sequência segue em looping: praia, academia, praia, textinho (auto) celebratório, praia. A audiência se multiplica, extasiada com tanta formosura e sabedoria.

A barriga sarada faz parte dos blogueiros fitness: gente que ganha a vida exibindo o seu dia a dia – praia e academia – e dicas de boa forma – coma menos e faça mais exercícios-. O dinheiro, muito dinheiro, vem dos produtos que aparecem, sem o menor constrangimento, nos posts – malhando com o meu lindo tênis da marca X- . O público, esses dois milhões de sábios, compra tudo com sofreguidão, afinal sabem, gênios que são, que usando o tênis X você será ejetado para uma praia paradisíaca, com vinte kilos a menos. Pode parecer um raciocínio tosco e primário mas o sucesso dessas pessoas confirma que ninguém nunca perdeu dinheiro subestimando a inteligência dos internautas.

O mais curioso é que os blogueiros não fazem nada na vida além de posar para as redes sociais. Não estrelaram filmes, não gravaram discos ou escreveram livros, nada. Também não há uma única dica de dieta que não seja óbvia, não ajudam a descobrir praias desconhecidas, não tem um ângulo diferente para lugar algum. É só barriga sarada e olhe lá. Mesmo no mais rasteiro Big Brother, farol da estultice, pioneiro em tornar protozoários celebridades, tinha algo acontecendo, um resquício de drama, nem que fosse o quadrúpede apaixonado pela sequelada que por sua vez gostava do imbecil. Ao que parece para muita gente até esse fio de trama do BBB era complicado demais. Os blogueiros fitness vieram ocupar esse vácuo.

Os comentários nos posts são uma atração à parte, de certa maneira até mais interessantes que as fotos. Grunhidos, frases sem nexo, reflexões sem nenhum sentido. Já vi pessoas saídas de um derrame com mais articulação. Um mix de inveja, admiração torta, fanatismo histérico e oligofrenia patológica. A parte boa é que toda essa gente conseguiu um motivo para viver: ter um abdomen perfeitamente definido. Quem disse que as utopias morreram?

Após exasperantes quinze minutos deixo o instagram da moça de barriga sarada de lado e volto aos livros antigos. Se é isso que está acontecendo lá fora é melhor voltar para dentro.

Ícone fashion

No almoço de domingo o veredicto vem junto com a sobremesa:

– Voce já tá velho demais para andar o dia todo de camiseta. Faça-me o favor! Uma camisa ao menos. Seu avô dormia de terno e gravata.

Vou ao shopping para agradar meus antepassados. Se não discuto com madame, muito menos com minha mãe. Uma camisa branca vai resolver.

Na vitrine tudo é lindo. Vejo os manequins, altos, magros, bem vestidos, a camisa branca que preciso perfeitamente alinhada ao corpo. Tanta perfeição me faz entrar naquele templo da elegância moderna. Percorrendo as araras tento encontrar alguma do meu tamanho, “M”. Até tem, mas tudo “slim fit”. Slim, fit, slim fit, slim fit…Alguma normal?

– As camisas slim fit tem um corte mais atual, contemporâneo, explica o entediado vendedor, como quem mostra uma Ferrari para um Sem Terra.

Experimento no provador. Se slim fit é o contemporâneo, meu corpo é medieval. Medieval na forma, pré-histórico no conteúdo. A camisa está apertada, as mangas são enormes, pareço um bonecão de posto de gasolina balançando no meio da rua. Mamãe não vai gostar, vovô vai revirar no túmulo.

O vendedor me olha com desprezo. Conheço esse olhar, é o mesmo dos meus amigos gays quando chego numa festa. Uma mistura de horror, pena e constrangimento (desse bullying fashion dos gays contra os heteros o Jean Wyllys não fala!) Voltando à loja: tento me safar com uma tática diversionista:

– E sapatos, tem?

O que ele traz aperta dos lados e sobra um quilometro na frente. Parece coisa de circo ou congresso de ortopedia. Pergunto se tem algum com forma de pé e não de lacraia. A moda é assim, garante o vendedor, enfadado com a minha falta de cultura e informação. Sou um ianomâmi perdido em Manhattan. E o maldito percebeu isso no segundo em que entrei na loja. O Ianomâmi ao menos tem mais cultura e estilo.

Ultima tentativa:

– Quem sabe uma calça? Preciso de uns jeans novos.

Ao ouvir a expressão “uns jeans novos” o vendedor faz uma cara de pavor, pede os sais e desmaia. É acudido pelo gerente, que se comove com a sua situação. Acho que ele está encenando só pra poder fugir. O gerente manda outro para a missão impossível. Que tipo de “jeans” o senhor quer? Skinny? Bootcut? Straight?

– Ahnnn..normal, uns bolsos na frente, outros atrás, duas pernas…

O cara bufa e revira os olhos, “O ianomâmi é metido a engraçadinho”, dá pra ler no pensamento dele. Vai me enxotando para o provador, deixando claro que a minha presença na loja está espantando os outros clientes.

A calça me transforma. Deixo de ser um daqueles boneco de posto e viro um de Olinda, de carnaval. O rídiculo é igual ao diabo, se apresenta de infinitas formas. O desafio agora é sair do templo da elegância moderna com alguma dignidade. Levo um par de meias. “Nada pode dar errado com meias”….murmuro baixinho. O vendedor me olha com pena e me acompanha até a saída. Acho que é para garantir

No almoço seguinte o veredito já vem antes do prato principal

– Quando voce vai aprender a combinar as meias com o resto da roupa?

Exército branco

São astutos e matreiros. Primeiro aparece o líder, perto das orelhas. Depois vem outro e mais outro e, olhando no espelho, você pensa que caiu alguma coisa no cabelo. Dá uma sacudida e continua igual. Os patifes quando chegam é pra ficar. Você usa a malandragem para tentar ganhar a batalha. “Tudo bem, é sinal de sabedoria…” Enquanto isso eles só se espalhando. Você se ilude: “é o charme da maturidade, se não parecia com o Brad Pitt ao menos agora vou lembrar o George Clooney” achando, ingênuo e convencido, que meia dúzia deles e uma xícara de nespresso vão confirmar sua teoria. Na verdade está mais para Mr. Bean e mesmo assim num dos episódios sem graça.

Aí o tempo passa, os tratantes se organizam e o chefe, corajoso, pula para sobrancelha. Você não acredita, acha que é um reflexo da luz ou um pelo de gato que voou. Arranca fora, finge que nada aconteceu e pensa que está resolvido. Mas eles tem uma meta, querem vencer a guerra e não vão descansar enquanto não chegarem lá.

Vem a hora da barba. Como sempre, primeiro o comandante, sozinho, para desbravar o terreno, depois os outros. E agora? Se deixar correr solto vira Papai Noel. Por sorte os cavilosos recuam um pouco. Mas voltarão e todo mundo sabe que com reforços. Estão se organizando para o golpe final. Você tenta esquecer, pensa nos benefícios da maturidade: a vida responsável, a estabilidade, o apartamento, o fim de semana no sítio. Fica deprimido e isso só os ajuda. Melhor sair de casa, dar uma volta, se divertir, como diz o anúncio de vitaminas geriátricas.

Aí acontece uma trégua: você vai levando e se acostumando. Já nem acha tão ruim, uns aqui outros ali, afinal nada demais, o tempo passa mesmo pra todo mundo. Brad Pitt, Mr. Bean, George Clooney, todos envelhecem, assim é a vida, e a felicidade é muito mais do que isso. Pensa, outra vez ingênuo, que seu desdém vai triunfar sobre o exército branco

Então, finalmente, um dia você acorda, desavisado e alegre, e vai ao banheiro. Olha pra baixo, para aquela fortaleza que parecia inexpugnável e lá está o líder deles, sorrindo satisfeito.

Venceram a guerra.

Genialidade

Acabou o azeite, lá vou eu para o supermercado do outro lado da rua. Levo um choque de realidade: a garrafinha já está dezoito reais. Tenho um surto revolucionário. “Tá maluco, isso tem que acabar!” Munido da seletiva indignação classe média pego a moto e vou para o Mundial de Botafogo, reduto da resistência contra os zonas sul, pães de açúcar e delicatessens do Leblon. O ministro Levy, carioca, já devia ter aprendido: se existe uma batalha contra a inflação, as trincheiras estão no Mundial. Trincheiras um tanto sujas e com algumas baratas, mas guerra é guerra.

Encontro a garrafinha a quatorze reais. Arrá! Mas aí percebo que tem duas senhoras cochichando perto de mim. Todo mundo sabe que em supermercado popular duas pessoas falando baixinho só pode ser uma coisa: estão malocando oferta. Tal qual um Sherlock Holmes classe C percorro o Mundial atrás da misteriosa promoção. Não dá outra: lá no fundo, numa gôndola escondida, tem oferta-relâmpago: o mesmo azeite está sendo vendido por R$11.99. Vou enchendo o carrinho com tanta sofreguidão que o gerente pergunta: não quer levar logo uma caixa de dez?

E lá vou eu para a famosa fila quilométrica no caixa, a fase onde os coxinhas e os fracos desistem. Carrego meus azeites de 11.99 como um troféu. Só na saída me dou conta que caixas e motos não combinam. As pessoas na rua olham para a minha situação e dão risadas. Não me importo, não será a chacota pública que irá me deter, ao menos desta vez. Coloco a caixa entre as pernas e, usando toda minha cultura circense, vou saracoteando pelo trânsito até em casa. Por milagre chegamos, o azeite e eu, inteiros. Um feito e todo feito exige uma comemoração, de preferência com muito glúten. Mais uma vez atravesso a rua e vou ao Guerin, que, ironicamente, fica ao lado do Zona Sul. Carboidratos com vingança, combinação infalível.

Peço um café e um croissant. Dois pães para levar. A sensação de vitória é algo maravilhoso. E fugaz. O caixa me apresenta a conta. R$ 61,00. Faço a contabilidade: Poupei R$ 60,1 no azeite, gastei R$ 61 na comemoração pela economia.

Acho que preciso muito mais de uma professora primária do que de um psicanalista.