Diversidade for rent

Como adepto do empreendedorismo na linha Bel Pesce, vou utilizar este espaço para divulgar minha nova empresa, a Escadaria.

A idéia surgiu quando comecei a reparar que nos eventos e festas que vou estão sempre as mesmas pessoas, basicamente o corpo de baile do hipsterismo zona sul carioca. Aquele mar de barbudinhos de óculos de aro grosso, como se eu estivesse numa sala de espelhos. Muito debate, muito projeto, muita teoria e, claro, muita explicação para tudo. Todas as questões do mundo se resolvem no salão dos barbudinhos.

O único problema é que nesses lugares os objetos de tanta teoria nunca estão lá. O sujeito que fez doutorado em populações marginalizadas na Sorbonne encontra o que fez pós em moradias de baixa renda em Harvard, conversam horas e descobrem que nenhum dos dois nunca conheceu um morador da Maré ou do Alemão. Isso gera certo desconforto e talvez algum constrangimento, ainda mais agora que autenticidade virou a palavra da moda. Mas onde encontrar esses moradores sem precisar atravessa o túnel? E como fazer com que eles concordem com toda essa teoria? É aí que eu encontrei minha chance: o aluguel de diversidade para festas e eventos

Assim como empresas oferecem super-heróis para animar festas infantis a Escadaria criou um cardápio de personagens que tornam sua festa ou evento memorável, e ainda melhor, fazem seu marketing pessoal chegar à estratosfera. Aqui vão alguns exemplos:

– Morador da Periferia: muito popular em época de eleições, o Morador da Periferia dá todo um verniz social/engajado no seu evento. Seu figurino é montado de acordo com o gosto do cliente. Temos fantasias de “funkeiro”, “crente”, “sambista vintage” e pobre freestyle. Na hora combinada o Morador da Periferia vai encenar uma epifania ao ouvir o contratante falar sobre sistema de transportes, hospitais públicos etc. Sucesso garantido.

– Empregada Doméstica Evangélica (EDE) – Um hit do nosso catálogo de personagens. Funciona muito bem em festas pequenas. A Empregada Doméstica Evangélica finge um ataque ao ver um casal gay ou alguém fumando um baseado. Essa será a deixa para que o nosso cliente faça o seu ensaiado discurso a favor da tolerância, que a Empregada vai ouvir atenta, com lágrimas nos olhos. No final ela dirá que acaba de ouvir palavras divinas e vai se atirar aos pés do contratante, para regozijo dos presentes. Prepare-se para a salva de palmas! Mediante um pequeno acréscimo a EDE também pode vir acompanhada da FAG, Filha Adolescente Grávida, para que o contratante possa brilhar ainda mais com as suas teorias antropológicas.

– Fã de Sertanejo – Esse é sempre um êxito em shows e eventos musicais sofisticados. Na hora determinada o Fã de Sertanejo vai pedir ao cliente, em voz alta, para tocar Bruno & Marrone ou Luan Santana. Com calculada condescendência este irá perguntar se ele não prefere João Gilberto. O Fã irá responder com a pergunta que é o nirvana do teórico musical:

– Quem é João Gilberto?

Este questionamento permitirá ao contratante exibir aos seus pares toda sua cultura musical. No final da aula o Fã de Sertanejo irá irromper em lágrimas, por ter desperdiçado a vida ouvindo musicas que não eram do gosto dos presentes.

– Colecionador de Romero Britto – indicado para vernissages e feiras de arte. Ele interrompe o cliente durante uma conversa e diz que não gosta das obras expostas porque não são bonitas e diz preferir Romero Britto, cujo trabalho decora toda sua mansão na Barra da Tijuca. A menção à Barra e a Romero Britto por si só já causaria o suficiente mas quem contrata a Escadaria não se contenta com pouco. Por um pequeno adendo temos também as “Senhora Classe Média Indignada” que exigirá a interdição da mostra por subversão e/ou atentado aos bons costumes, o que não só garantirá o êxito da mostra como matérias em todos os jornais.

O cardápio de personagens e cenas da Escadaria é extensa e certamente tem o mais adequado para que voce possa deslumbrar todo seu network, sem precisar sair da zona de comforto.

Como diz nosso lema: Escadaria, trazendo o diferente para que você possa continuar igual.

 

Texto publicado originalmente no site www.projetocolabora.com.br

O eterno status provisório

– Os bancos de couro estavam no pacote premium de acessórios, vieram juntos com o ar condicionado…

– Ar condicionado!!!???

O espanto e admiração tomavam conta da sala

– Pois é, vocês não imaginam a diferença que faz…

– E o motor?

Um suspense se formava. O proprietário administrava o seu momento de glória com habilidade. Esperava alguns segundos antes de responder

– Seis cilindros, 4100cc.

E completava para a platéia embevecida

– Passa dos cento e cinquenta!

A inveja e a admiração tomavam conta do ambiente e todos saiam numa romaria invejosa conferir o carro que acabava de ser adquirido.

Quando eu era criança, nos anos 70/80 a compra de um automóvel era um grande momento. Era o principal símbolo de status da classe média. Carro zero então, nem se fala, só faltavam fogos de artifício e tapete vermelho. E o assunto sempre estava presente em almoços ou reuniões familiares. Sempre tinha alguém esperando um modelo novo sair, ou uma rodinha comentando as vantagens de um motor sobre o outro, etc e tal.

Com relógios era a mesma coisa

Tinha o que podia mergulhar quinhentos metros, tinha o que só atrasava um segundo a cada mil anos, tinha o que valia milhões e estava na família há mais de dez gerações. As pessoas enchiam a boca para falar Rolex, Omega ou Patek Philippe. Nem os suíços tinham tanta obsessão com o registro do tempo. O dia em que o pai presenteava o filho com um relógio era o ápice da adolescência. Ali se separavam os homens de classe média dos meninos de classe média. Um rito de passagem comparável à carteira de motorista aos dezoito.

E as canetas?

Tinha que escrever algo importante, assinar uma escritura, dar o sim do casamento no registro civil? Se não fosse de Montblanc ou Parker 51 sua vida estava condenada à mediocridade eterna. Caneta Bic só era admitida, a contragosto, no dia a dia, para a lista de compras anotada no papel do pão ou recado de telefone. Cheque? Só se fosse de valor baixo. A caneta griffada no estojo de veludo era um presente clássico do avô para o neto. A cara de decepção do neto que esperava receber um autorama também era outro clássico.

Acho que, ao menos na classe média daquele tempo, um homem só ganhava respeito irrestrito com um bom relógio, carro decente e caneta cara.

Por sorte o tempo passou

Carro? Virou a coisa de tiozão cafona.

Se voce vai de carro numa festa de fotografos/designers/musicos/atores, por exemplo, tem que dizer que pegou emprestado do seu avô excêntrico ou que . Ou então, melhor ainda, estacione dois quarteirões antes, pegue um ônibus, ponha a cabeça para fora para que todos na porta o vejam e desça no primeiro ponto. É a melhor maneira de chegar causando. Carro é poluidor, carro gasta, carro atrapalha o transporte público. Tudo de ruim. Se for grande então, pior. Esportivo então, pior ainda, é caso de internação por surto de coxinhice.

Relógio? Tem hora no celular

Um acessório geriátrico, se for dos modelos normais. Tipo bengala mas sem o charme desta. Um ou outro hipster pode admitir algum que tenha história de família, desde que seja de ponteiros e tenha fundo azul turquesa. Um Casio digital vintage também tá valendo, ainda mais se vier acompanhado de bigode irônico. Se você não entendeu, saia pela rua e conte o numero de pessoas com menos de vinte e cinco usando relógio de pulso. Pois é.

Caneta? Serve pra quê mesmo?

Montblancs e Parkers são usadas atualmente apenas para assinar extrema unção fashion e atestado de óbito social. É mais fácil uma criança adivinhar a função de um gramofone do que a de uma caneta-tinteiro. Fora do circuito ABL – Antiquarius – Confeitaria Colombo pode ser confundida com uma arma de defesa pessoal. Ou um vibrador

Ainda bem que me livrei desses símbolos de status rídículos, fúteis e desnecessários. Sou moderno e antenado. Agora só quero saber de celular, televisão e tablet.

O perímetro do desleixo

Você encontra o seu vizinho aposentado num jantar. Ele está de crocs com meias, calça de elástico e casaco de moleton.

O horror! O horror!

Você pensa: como alguém vai num evento desse jeito?

Acredite, não é um rompante, um impulso tresloucado. É um longo processo.

Começa quando voce vai morar sozinho.

No início voce só fica à vontade em casa. O uniforme doméstico do mulambento, a cueca velha, a camiseta furada e os chinelos estropiados, só vale na sala, mesmo assim quando está sozinho. É o perímetro do desleixo: para além dele tem que se manter um mínimo de compostura, afinal lá fora pode estar a mulher da sua vida ou o trabalho que vai definir sua carreira. Ou, melhor ainda, a Scarlet Johansson. No início sempre há esperança.

Nessa fase o conforto é algo muito particular.

Aí vem o fatídico dia em que o porteiro interfona e você tá lá no sofazão, assistindo netflix. De má vontade, muita má vontade, voce atende e descobre que tem uma encomenda na portaria. Preguiçoso, só põe as havaianas e vai lá pegar. Se o porteiro não gostar do seu figurino que se dane.

Pronto. O perímetro mudou. Saiu de casa.

Passa o tempo, já morando com alguém, e dessa vez você descobre que acabou a cerveja. Logo agora! Em pleno jogo do Fluzão! No intervalo você põe outra vez as havaianas, o short Adidas azul-royal, a camiseta furada e vai correndo até a padaria. Se o caixa desaprovar o seu outfit, problema dele.

O perímetro chegou na esquina.

Numa quinta à noite e os seus amigos te chamam pra tomar um chope. Onde? Perto, ali no bar do Zé. Voce tá quase dormindo, Ah que se dane, pega aquela confortável calça jeans que te acompanha há quinze anos, põe a camiseta Hering branca de estimação, aquela que de tão velha já virou uma película de algodão e, claro, o All Star preto que um dia foi branco. Nem o Zé nem seus amigos vão ligar. E você já perdeu a esperança da Scarlett Johansson aparecer

Mais alguns quarteirões para dentro do perímetro

Almoço de domingo. Agora voce já é um respeitável homem de família e, no trabalho, se veste como tal. Cadê a pólo azul marinho? Lavando. Então vamos de Hering desbotada e bermuda vintage! A familia olha pro lado, constrangida, mas você, a esta altura, já não dá pelota, o que importa é o conforto. Além disso domingão é dia de ficar à vontade, está na Bíblia, se não está, deveria.

Agora o bairro é a seu perímetro

Até que chegam os netos e a aposentadoria. Você já não precisa se vestir para o chefe ou o cliente. É o senhor do seu próprio destino e , principalmente, das suas próprias roupas. Chega de sapatos e colarinhos apertados, você é um homem livre, na sua cabeça as convenções pequeno-burguesas ficaram para trás e também na sua cabeça você está à frente da moda. Nesse momento uma amigo mais velho te mostra um par de Crocs. Que coisa mais confortável! E voce gênio da vanguarda, descobre que com meias eles ficam ainda mais aconchegantes. Não é à toa que a sabedoria vem com a idade. E a calça de elástico? Como você passou tanto tempo sem? Ah, os preconceitos da juventude…nada de fecho, nada de botões, só conforto. Igual ao moleton, que já não sai do seu corpo há anos.

O quê? Temos um jantar hoje? Vou assim! Que se dane!

O perímetro comemora. Agora o mundo é todo seu.

 

(originalmente publicado no #Colabora,  www.projetocolabora.com.br)

A luz que resta

DiaDosPais2

Acabava a aula e íamos correndo para o portão de saída. A confusão que se formava era bem assustadora para uma criança pequena, que só enxergava as pernas dos adultos. As coisas só ficavam bem quando o encontrava, acenando e sorrindo, no meio da multidão. A gente se abraçava e na volta para casa ele ouvia as angústias da escola: as questões de matemática, o valentão da outra turma, não conseguir bater uma falta no ângulo. Todos os problemas ficavam pequenos quando ele segurava na minha mão.

A escola virou colégio, o colégio faculdade e o herói da minha infância foi se tornando uma pessoa normal, com vários defeitos. Um pouco ultrapassado, as ideias um pouco antiquadas, talvez acomodado. Comecei a achar que no seu lugar eu teria ido mais longe, teria ousado mais, teria feito coisas mais incríveis. Comigo seria diferente, muito melhor. Aos vinte anos voce é o seu próprio herói.

Há alguns anos, um pouco depois do meu filho nascer, ele começou a ter problemas de memória. Achei não era nada demais, coisas da idade, afinal sempre tinha sido um pouco esquecido. Eram os primeiros sinais de Alzheimer.

No próximo domingo, dia dos pais, Martín completa sete anos. O tempo de entender como a vida muda com filhos. As escolhas, as mudanças de rumo, os sacrifícios que voce faz, com toda alegria, para que aquele menino ou menina tenha tudo que for necessário para ir em frente. Foi então que consegui entender o seu caminho, o que deixou para trás, as coisas das quais ele abriu mão e, agora claro, porque ele fez isso. Como se pede desculpas para alguém que não lembra o que aconteceu?

Há algumas semanas fomos ao teatro. Apesar de ficar cada vez mais confuso com o que não reconhece, ele ainda gosta de sair. O Alzheimer vai desligando as lâmpadas da casa uma a uma e só te deixa assistir à chegada da escuridão. Agora é tentar aproveitar a luz que resta. Nesse dia do teatro ele estava muito feliz, como sempre fica quando estamos juntos. Fui pegar os convites e o deixei na entrada, esperando. Quando voltei não estava mais. Fiquei assustado, com medo de tê-lo perdido. Procurei por todos os lados, era uma estréia, começou a bater um desespero.

O encontrei acenando e sorrindo, no meio da multidão.

 

Polêmicas

 

Fritz, um gato, está dormindo no sofá. Angela, a dona, passa pela sala, acha a cena bonita e faz uma foto com o celular. Posta a foto no Facebook com a legenda “Meu filho dormindo no sofá, como sempre, kkkkkkkkkkk!”. Angela tem 2488 amigos na rede.

São dez da manhã.

Começam os comentários na foto do Fritz

10:36 – Carol Almeida (amiga da Angela): Que lindo está o Fritz! Eu também chamos meus gatos de filhos! Amor felino, amor verdadeiro!

10:45 – Eduardo Amando (hater desocupado ) : É um absurdo comparar o amor por um filho com o amor por um animal!

10:48 – Maria Reis (mãe); Como tem gente sem noção nesse Facebook!

10:53 – Carlos Maranhão (ex) : Fritz! Quantas saudades 😉

10:54 – Eduardo Amando (hater que continua desocupado): É por isso que tem tanta criança abandonada! As pessoas se preocupam mais com animais que com gente!

10:58 – Maria Clara Soares (amiga lesada): gente, é um absurdo abandonarem crianças, nada a ver!

11:01 – Antonio Bittencourt (ativista de sofá): vamos acabar com o abandono de crianças no mundo! Leiam isso ( link para textão onde ele descreve todas as injustiças que existem na Terra)

11:05 – Carol Almeida (amiga auto centrada): Voce dá whiskas ou Royal Canin?

11:09 – Maria Reis (mãe): Esse Eduardo é muito mal educado! Onde já se viu?

11:10 – Eduardo Amando (hater, desocupado como sempre): A família Reis é toda contra as crianças? São descendentes de Herodes?

11:15 – Maria Clara Soares (lesada como sempre): Quem é Herodes?

11:18 – André Mendes ( hater papagaio de pirata): Eduardo, voce tem razão, é muita carência achar que um gato é igual a um filho…kkkkkkkk…gente sem noção!

11:19 – Eduardo Amando (hater agora ocupado em soprar a fogueira da briga): É isso mesmo André, deve ser uma solteirona…

11:25 – Carlos Maranhão ( o ex que quer deixar de ser ex) posso garantir a voces que Angela só é solteira porque quer…;-)

11:26 – Maria Reis (mãe e ex sogra): melhor ser solteira que andar mal acompanhada

11:32 – Antonio Bittencourt (o ativista que saiu do sofá e foi para a poltrona): Amigos, estou marcando uma manifestação virtual, um tuitaço, às 13:00, para protestarmos contra essa campanha absurda contra as solteironas e os gatos

11:33 – Eduardo Amando ( o hater que sentiu alguém morder a isca): ô Antonio, essa conversa é de petralha. Você é petralha? Você é contra a lavajato? Você é a favor da corrupção como o seu partido?

11:35 – Antonio Bittencourt ( o ativista que achou uma causa): Coxinha! Reaça! Fora Temer!

11:36 – André Mendes ( o escada): Comunista! Bolivariano! Volta pra Cuba!

11:40 – Mario Santos ( maluco que viu a confusão e entrou): Não vai Ter Golpe! Não-vai-ter-golpe! Viva a Turquia!

11:42 – Maria Clara Soares ( a que continua sem entender nada): A criança é petralha? O gato é coxinha? Temer foi para aTurquia?

11:45 – Gelvânia Silva ( sem-noção): Viva o capitalismo! Bolsonaro neles!

11:47 – Wesley Antunes (desavisado que estava passando e resolveu dar um pitaco): Se o Engenheiro Leonel de Moura Brizola estivesse vivo nada disso estaria acontecendo

11:50 – Carlos Maranhão ( o ex mala): Angelita querida, voce esqueceu uns livros aqui em casa. Não quer vir buscar hoje… à noite?

11:52 – Carol Almeida (muy amiga): Carlinhos…quanto tempo…

11:55 – Rodrigo Correa ( gaiato): mengooooooooo!!!!

11:58 – Maria Reis ( mãe sendo mãe): minha filha, de onde voce tirou essa gente?

Meio dia

Fritz acorda, dá uma olhada na sala, lambe a pata e volta a dormir.

 

O treino do eu sozinho

Academia cheia. Deixo a mochila no armário, pego a ficha e entro na selva da aparelhagem. Vinte repetições, três séries. Passa para o outro. Mais repetições, mais séries, mais aparelhos, mais esteira, mais transport e finalmente o alongamento. Salvo o “oi” para a recepcionista, não troquei nenhuma palavra com ninguém. Mesmo para os meus padrões de misantropo patológico, é algo além da conta. Um autismo anabolizado.

Antes fazia ginástica/malhava/treinava (escolha o termo de acordo com sua idade) numa academia pequena, de clube. Perto da atual, uma festa, quase um bloco de carnaval. Tinha o rubro negro roxo, o botafoguense deprimido, o exaltado que defendia o Lula, a perua que vivia falando mal da Dilma e todo aquele elenco de apoio que só existe em academia de clube, como as simpáticas senhorinhas que faziam aula ao som de Volare, Volare e o aposentado que trotava na esteira de calça comprida e cinto.

Mas essa academia era um pouco na contramão e eu, indolente, abandonei o barco. Depois de um longo período de vadiagem, alguns kilos a mais e um esporro do médico, fui obrigado a voltar para estranho mundo da malhação. Desta vez escolhi uma que fica quase do lado de casa, pra não dar asas para a preguiça.

Nas primeiras vezes achei que o problema era comigo. Com o meu já clássico outfit esportivo, camiseta Hering furada e short Canalonga vintage, talvez os outros achassem que eu ia pedir esmolas. Mesmo assim nem se dignavam a olhar. Todo mundo de fone no ouvido e olhar para o além. Consultei minha amiga guru da boa forma, que me explicou que interação é coisa do século passado e que quanto mais gostosa(o) voce é menos papo tem que dar ao resto da humanidade. Como estou no subsolo dessa pirâmide do sex-appeal, tentei puxar papo com a mulher barbada e o esquisitão que fala sozinho mas nem estes me deram trela. Rolou um cão sarnento feelings.

No entanto reparei que na academia tanto as bonitas como as feias, os fortes, os fracos, ninguém fala com ninguém. Não tem bom dia, não tem comentário sobre o tempo e muito menos opiniões sobre a renúncia do Cunha. Nem um pio. Tipo biblioteca alemã. Fechada. Não fosse o bate estaca no som ambiente haveria mais silêncio do que em enterro de ditador.

Até pra revezar nos aparelhos o jeito zumbi surdo mudo dá as cartas. Quem quer usar fica do lado, parado feito estátua, esperando que quem está usando perceba. Como essa pessoa está com os fones enterrados nos ouvidos e só olha para a frente, a situação pode se arrastar por horas, o que não parece incomodar a ninguém. Não é para principiantes. Como sou pato novo só posso olhar para a ficha e as TVs, qualquer outra atitude pode ser encarada como assédio ou provocação. Tem que seguir a filosofia do ônibus, fale somente o indispensável. Se for possível, nem isso.

O bom desse isolamento compulsivo é que fico o tempo todo concentrado no supino e no leg press. Os kilos ganhos já estão indo embora. Em compensação tive que dobrar as sessões de psicanálise, para acomodar na cabeça toda essa rejeição em grupo. Deveria ter dado atenção ao conselho da guru da boa forma:

– Mistura um prozac no whey e deixa de frescura. Já era hora de aprender que interação engorda.

 

 

No mundo da Lua

Peguei o Uber em Ipanema. O motorista, Rodrigo, não sabia o caminho para o Jardim Botânico e também não se entendia com o Waze. Entro em modo “classe média indignada”: não é possível, virou bagunça, como admitem profissionais tão inexperientes? Ter que explicar um caminho óbvio para o chofer, onde já se viu? Agora vou ter que ficar a viagem toda mostrando o caminho, blá, blá, blá.

Não darei estrelas para o Rodrigo.

Caímos no engarrafamento da Lagoa. Rodrigo pede desculpas por não saber o trajeto. Está no Uber há quinze dias.

Tenho um lapso de empatia e pergunto como ele foi parar ali.

– Eu era gerente numa empresa que trabalhava com para a Petrobrás. Tinha um bom salário, dava para pagar o colégio das crianças e o apartamento financiado. O único problema é que trabalhava demais, chegava em casa nove, dez da noite, mal via os meus filhos, quando entrava eles já estavam dormindo. Achava que valia a pena o sacrifício para dar para os dois uma infância melhor que a minha, estudei em escola pública ruim e vendo os meus pais no sufoco do aluguel. A gente faz tudo pelos filhos, né? Mas no ano passado a crise pesou e a Petrobrás começou a cortar fornecedores. A empresa balançou. Fui um dos primeiros a ser cortado. Foi a primeira demissão da minha vida, logo agora…O senhor já foi demitido? A gente fica se sentindo um lixo, nem sabia como contar pra minha família  me sentia envergonhado. O pior é que o tempo foi passando e nada de arrumar outro emprego, tinha muito tapinha nas costas, tinha muito conselho mas nada de trabalho. Este ano tive que tirar as crianças do colégio para colocar na escola pública. Me senti um fracasso não só como profissional, mas como pai. De que adiantou perder a infância deles trabalhando feito um condenado pra no fim dar nisso?
Um conhecido me falou do Uber. Disse que dava pra tirar um dinheiro. Eu já estava no sufoco, quase vendendo o carro, resolvi arriscar. Não é ruim mas tem que fica doze, treze horas trabalhando, no mínimo. Mesmo assim não chego nem na metade do que ganhava antes, tivemos que cortar, todos os supérfluos, nada de lazer ou qualquer despesa extra, vai tudo para a prestação do apartamento. O plano de saúde também ficou para trás, rezo toda noite para que a gente não tenha nenhum problema mais sério.
Tá muito difícil.

Vou indicando o caminho até a minha casa. Me despeço desejando boa sorte. Quando chego em casa aparece o valor da corrida: dezoito reais, depois de quase uma hora no trânsito. Com os vinte por cento do Uber, o motorista fica com menos de quinze. Se levar em conta a gasolina e a manutenção, não sobra quase nada. Como o Rodrigo e a família vão viver?

A realidade derruba o modo “classe média indignada”. Me dou conta que, em resumo, O que fiz para ajudar uma pessoa em dificuldades foi dar meia duzia de dicas de trânsito e mesmo assim de má vontade.

Cinco estrelas para o Rodrigo por me tirar do mundo da lua

Do chão não passa

Grazi2

Julho de 2009. Finalmente consigo comprar o apartamento que queria. Levo minha mãe para conhecê-lo. Ela entra, dá uma olhada rápida e decreta: “dá pro gasto mas nunca vi um piso tão horrível na minha vida. Não venha morar aqui sem trocá-lo.”

Foi o único comentário. A síntese é um dom.

Por preguiça, avareza e pirraça deixei o chão como estava. Quem se importa com pisos?

Combinei com Clarice dela vir aqui em casa para umas fotos. Ela me liga da rua: “oi, tô chegando com uma amiga, daqui a pouco tô aí.”

Quando abro a porta estão Clarice e a amiga. Que é a Grazi Massafera.

Não sei como é o dress code para receber sex symbols em casa às dez da manhã mas certamente deveria ter vestido a camiseta sem furos. E feito a barba. Os pés descalços também não me pareceram adequados. Se não estivesse na minha própria casa poderia ser definido como um sem-teto. Talvez o meu figurino fosse o adequado para receber cobradores ou fiscais do Imposto de Renda.

Grazi se encanta com o pianinho do meu filho no meio da sala. “Quando era criança sonhava em ter um piano desses!” Nos filmes de 007 o agente secreto precisa de carrões, restaurantes luxuosos e missões impossíveis para impressionar a bond-girl. Como diria a Bela Gil, dá pra trocar tudo isso por um pianinho. Enquanto devaneio sobre poder e sedução a moça já está instalada na banquetinha, tocando como se não houvesse amanhã.

– Me filma?

– Claro

O que poderia dar errado?

Grazi posta o video. Pergunto quantos seguidores ela tem. Sete milhões. O número acende uma luz amarela na minha cabeça mas não dou atenção, prefiro continuar olhando o concerto na sala. Mais um erro para minha coleção.

De tarde me liga um amigo: “sua casa tá no Ego(*), aquele site de celebridades!” Se sua casa está no Ego é porque você é famoso. Se voce é famoso precisa que a sua mãe saiba disso, dizem as vozes imaturas e mal resolvidas que moram na minha cabeça. Como nada é mais efêmero que a fama, ligo imediatamente.

– Mãe, a minha casa tá no Ego!

– O que é Ego?

– Um site de celebridades. A Grazi postou um video da casa e foi parar lá.

– Quem é Grazi?

Faço uma breve descrição da indústria cultural e da era das celebridades. Dá pra perceber o tédio do outro lado. Em todo caso ela diz que vai dar uma olhada.

Desfruto da notoriedade, ainda que na condição de papagaio-de-pirata. Ninguém me conhece mas que se dane, ao menos a sala da casa é famosa.

Em menos que quinze minutos minha mãe liga de volta:

– Voce está sempre inventando novas maneiras de envergonhar nossa família. Podia usar sua criatividade para outras coisas.

– Ué, qual o problema da fama?

– Leia os comentários. Quando voce vai aceitar que mamãe sempre tem razão? Especiamente quando te critica.

Abro o site. Leio o primeiro comentário debaixo do vídeo:

Que horror, essa é a casa dela? Nem na minha casa eu uso esse piso cerâmico 30×30.”

O maldito piso. Será que foi mamãe que escreveu isso? O segundo é sarcástico:

“Não importa o piso da casa, e sim o conteúdo

O terceiro, além do sarcasmo tem numeros precisos. Uma combinação irresistível, devo admitir.

“30×30, 21,90 o metro quadrado. Só faltou a telha de amianto.”

Tem mais

“Nossa os fãs ficam ofendidos mesmo né? Esse piso é o mesmo usado na Minha Casa, Minha Vida. Fato.”

Minha Casa, Minha Vida? Sera que eles descobriram que votei na Dilma? Não vai ter golpe!

“Vem com esse papo de simplicidade não. É pão durice ou falta de bom gosto mesmo. (…)O fato de ela ter origem simples não quer dizer que possa usufruir de bens materiais que proporcionem bom gosto e mais beleza no seu cotidiano. O piso é barato mesmo e não é um primor de beleza.”

O massacre continua. O Brasil agora tem três vilões: o Cunha, o David Luiz e o piso da minha sala.

“(…)A questão central é o piso feio e barato da suposta casa de uma estrela global, que denotaria desleixo, mau gosto ou mesmo avareza.”

Avareza…esqueceram da preguiça e da pirraça. O próximo me faz sentir um dos protagonistas de “dois filhos de Francisco”

“… não venha falar da origem “humilde” dela para justificar o suposto mau gosto dela, pois até quem nasce numa tribo indígena é capaz de criar bom gosto convivendo por mais de 10 anos no RJ trabalhando na Globo.”,

A enxurrada de críticas quase me faz tomar uma atitude em relação ao piso. Penso no transtorno, na poeirada, no entra e sai de operários, na satisfação da minha mãe e dos leitores do Ego. A preguiça, a avareza e a agora renovada pirraça vencem outra vez.

As vozes da cabeça decretam: do chão não passa.

 

(*) http://ego.globo.com/famosos/noticia/2016/04/grazi-massafera-posta-video-em-que-aparece-tocando-piano-infantil.html

Maricá na promoção

Maricá era uma cidade pacata, calma e tranquila, um raro balneário fora do radar fashion.

Até que um diálogo do Farol da classe média e prefeito do Rio nas horas vagas vazou :

– O senhor é uma alma de pobre. Eu, todo mundo que fala aqui no meio, eu falo o seguinte: imagina se fosse aqui no Rio esse sítio dele, não é em Petrópolis, não é em Itaipava. É como se fosse em Maricá. É uma merda de lugar.

Era o que a cidade precisava para virar uma atração turística de primeira grandeza. Agora é só tocar pro gol.

Hipsters, por exemplo: tem alguém que tem orgasmos quando vê um pobre é hipster. Mas tem que ser o pobre certo, como o de Maricá. Não pode ser nem o miserável, que é invisível quando não está numa foto em preto e branco, nem o da classe C, que é a kriptonita do hype. Tem que ser aquele pobre idílico, da casinha colorida de subúrbio, do churrasco no domingo com Faustão passando na TV.

Esse sim!

Ser convidado para um evento autenticamente pobre é algo disputadíssimo nas rodas meio de esquerda meio intelectuais da Zona Sul. Tem designer que entregaria o MacPro para visitar uma cidade só de pobres do tipo certo. A possibilidade de entrar na casa, de ver o conjunto estofado de courvin ao vivo, de analisar pessoalmente os utensílios da cozinha, (será que tem coador de pano? Magiclick? Filtro de barro? ) faz o hipster babar na barba de lenhador. O que dirá de uma balneário pobre logo ali na região dos Lagos.

Maricá finalmente vai bombar!

Fotógrafos renomados farão ensaios mezzo kodachrome, mezzo tri-x, repórteres de comportamento caçarão tendências, extraindo ensinamentos filosóficos da Dona Maria, revistas de moda endeusarão a cadeira de plástico branca como ícone de estilo e, é claro, Regina Casé divará nas ruas, num Esquenta sem fim. A Rede Globo já nem vai precisar mais do Projac para gravar o nucleo pobre da novela. Todos pra Maricá!

O importante é que a cidade não ponha os pés pelas mãos deixando a pobreza sair do script que agrada aos novos turistas: nada de igrejas evangélicas, por exemplo. Afinal, se o balneário acabar na Record volta ao anonimato. O turismo hipster gosta de gente humilde frequentando igrejinha católica, com padre meio de esquerda e meio severo. E também nada de sertanejo, funk ou rap, tudo coisa de classe C. Só roda de samba em boteco vintage, tocando apenas Cartola e Zé Keti. Assim pode-se cobrar do turista cinquenta pratas por uma Schin e cem pelo bolinho de bacalhau da Dona Maria ( aquela que foi entrevistada pelo repórter de comportamento). É a pobreza premium, customizada para o turista diferenciado.

O novo cartão postal da cidade será um Mega Supermercado Mundial. Tipo loja-conceito, maximizando a experiência do mercado pobre: apenas um caixa funcionando (que só aceita moedas), um apresentador anabolizado gritando ofertas no volume máximo e carrinhos que mal passam pelos corredores. Isso deixará o turista-hipster extasiado, com assunto para uma noite toda no Baixo Gávea. Na saida do Mega Mundial teremos uma lojinha igual às dos melhores museus, onde poderão ser adquiridos souvenirs, como mini garrafinhas de guaraná Dolly e camisetas do Fubá Granfino. Já o city tour será feito em bicicletas Caloi barra-forte, afinal van é coisa de classe C e hipster só entra em onibus no hemisfério norte.

Maricá será transformada no primeiro parque-temático da pobreza no Brasil, transformando o limão numa limonada.

Ou melhor, num refresco Tang.

Voltando pra casa

 

Ontem cheguei em Congonhas de noite, apressado, correndo para pegar o voo de volta pro Rio. Quando estava entrando no embarque me veio o flashback.

Depois de uma certa idade o seu guru não é mais o Umberto Eco ou Paulo Coelho. É a sua própria memória.

Me vi quarenta anos atrás esperando o meu pai voltar do curso de francês. Ele ia todas as terças e quintas, de sete as nove. Ficava acordado porque sabia que ele ia trazer o chocolate que eu gostava. Às vezes, para fazer suspense, dizia que tinha esquecido, que não deu tempo, que não tinha achado. Eu pegava a capanga dele, revirava e estava lá. Ainda hoje seria capaz de descrever o barulho da chave abrindo a porta, o que tinha na bolsa, o gosto do chocolate.

Dei meia volta e fui procurar as balas preferidas do Martín pelo aeroporto. Quase perdi o avião. Quando cheguei em casa ele já estava dormindo. Deixei o pacotinho do lado da cama. Hoje de manha ele veio com as balas na mão me dar uma abraço

Daqui a quarenta anos não estarei mais por aqui. As minhas fotografias, as poucas que sobrarem, estarão mais amareladas e gastas do que uma capanga. Mas talvez eu volte na cabeça de um homem de meia idade à caminho de casa. Talvez essa imagem apareça com uma lágrima e um sorriso e o faça dar meia volta.

E um menino, quem sabe com um nariz ou olhos parecidos com o meus, vai acordar feliz.

Tin