Roubada comunitária

Entro no café e lá está ela. Uma tristeza enorme me invade. E o pior é que o lugar está cheio, não tenho como evitar. Anos e anos de experiências traumáticas e a decepção não me abandona. Resignado me encaminho para minha nêmesis: a mesa comunitária.

É claro que o corpo de baile está presente: o hipster de bermuda com o seu Macbook aberto, o casal descolado, e, terror do terror, os solitários variados. Acho que o hipster do Mac já vem com a mesa, deve ser um acessório. Em todas as mesas comunitárias do mundo lá está ele, com a mesma cara concentrada e intensa, como se estivesse escrevendo o grande romance da sua época ou então criando o novo Angry Birds. O casal descolado também é o mesmo aqui, em São Francisco ou em Londres: muito celular, muita foto do prato, muita trocação de referências.

O que mudam são os solitários. Tem lugares em que são solitários genuínos. Estão ali sozinhos e querem ficar sozinhos. Foram parar na comunitária porque não tinha outro lugar ou porque confiam que o hipster do Mac não vai abrir a boca nas próximas cinco horas e que o casal não vai abandonar a masturbação das fotos nos próximos cinco anos. Mas tem os falsos sozinhos, criaturas perversas e sorrateiras, que estão só esperando algum incauto cair na sua rede ou melhor, mesa.

No que você senta já percebe que a mala está tentando o contato visual. Como acontece com os bandidos ou os loucos, o contato visual é a porta de entrada do inferno. Olhou, ferrou. Só resta então assumir o controle dessa carroça descontrolada descendo a ladeira.

A primeira atitude é tentar levar a conversa para um assunto complexo, que não precise de interação. Você tem alguns segundos para adivinhar o tipo de chato que está na sua frente: se for uma mala política, por exemplo, você pode dizer “e o Temer , hein…” tanto faz se o pentelho é de direita ou esquerda, ele vai discursar horas e horas sem parar e, melhor de tudo, alheio à sua opinião. O que você precisa é apenas emitir um “arrã” a cada dez minutos. De resto pode ficar no celular, ler algo, olhar a paisagem que para o chato político tanto faz

Tem tambem a mala com causa. Pode ser qualquer causa, desde a preservação das cabines telefônicas a coisas mais cascudas, que não vou citar aqui porque tenho muito amor à minha caixa postal. A mala com causa parece delicada e simpática, desde que você concorde com tudo o que ela diz. Pode usar a mesma tática: um “arrã” a cada dez minutos. E nem precisa dar o start falando sobre a causa. Ela já começa sozinha.

Só existe uma coisa que você nunca, jamais, em momento algum pode falar com a mala com causa. A palavra “mas”. É um erro fatal. “mas você não acha que as cabines telefônicas…” aí ferrou. A mala fica em pé na cadeira, faz escândalo tipo programa vespertino do SBT. E ainda joga um vídeo sobre o seu “mas” nas redes sociais, que é pras outras malas com causa, qualquer causa, virem atrás de você como marimbondos. As malas e os haters, aprenda de uma vez por todas, são como as formigas e as abelhas, criaturas de uma organização assombrosa.

Na mesa comunitária tem mais variedade de chatos do que tipos de nespresso. E todo dia surgem novos então quando você consegue antídoto para um logo aparecem mais dois. É uma batalha perdida

Por sorte o gerente do café é meu amigo e tive a oportunidade de lhe dizer pessoalmente todo horror que tenho pela mesa comunitária, que eles tinham acabado de adquirir. Contei todas as experiências traumáticas, falei sobre a variedade de malas, tudo tim tim por tim tim. Ele prestou muita atenção e acatou tudo. Mais um ser esclarecido que concorda comigo.

Só fiquei desconfiado dele mandar um arrã a cada dez minutos.

 

(originalmente publicado no Projeto Colabora)

Futebol

Na escolinha de futebol a algazarra de sempre, imaginem vinte garotos de seis e sete anos juntos tentando ser Messi e Neymar. Os craques e os fanfarrões, Martín entre eles, fissurados para marcar gols. Os tímidos e os mais novos à deriva.

Na platéia o habitual grupo de babás conversando e alguns pais. Hoje no canto da quadra tem um cara que nunca vi no clube, parece um daqueles que assistem o jogo das crianças para lembrar da própria infância. Tem também uma mulher do outro lado, com cara tensa, que deve ser mãe de um dos jogadores.

A partida segue na correria habitual, chutões para todo lado, um sofrido zero a zero. Quase no final o professor-juiz marca um pênalti. Todos querem bater, vira uma confusão, Martín e sua turma aos berros pedindo a bola. Para minha surpresa um dos meninos mais tímidos também está lá gritando desesperado que quer chutar. O professor não vê e dá a bola para um dos craques. O tímido vai chorando para a beira do campo. Está desolado. O professor percebe e o consola, diz que futebol é assim mesmo, o próximo pênalti ele é que bate. Mas o jogo vai acabar, diz soluçando o garoto, enquanto olha para a platéia. O jogo segue, o craque chuta e é gol. Os vencedores comemoram. Não valeu diz o juiz e professor, eu não tinha apitado. Chama o menino que estava chorando.

Vai lá, agora é a sua vez.

O menino chuta fraco mas faz o gol.

Acaba o jogo.

Ele sai do campo. A mulher do outro lado vai na sua direção. O homem que estava no canto também. Os dois se cumprimentam meio sem jeito, com um aperto de mãos. O menino entre eles continua sorrindo e comemorando.

Na saída passa por mim de mãos dadas com os dois. Dou os parabéns pelo pênalti convertido

– Esses são meu pai e minha mãe, me apresenta o menino sem largar as mãos. Falei pra eles que se os dois viessem juntos eu ia fazer um gol.

Martín me pergunta se o certo não seria quem bateu primeiro repetir a cobrança. Jogo adulto não é igual ao de criança, respondo sem muita convicção enquanto vejo os três indo embora, ainda de mãos dadas.

No ponto

Estou parado esperando o sinal da rua Humaitá, o da banca, que demora horas. Martín tá comigo na bicicleta, vamos para a escola. Na calçada tem um homem de calça branca e camisa colorida. É a cara do Ibrahim Ferrer, o do Buena Vista Social Club.
 
O 409 vem descendo a rua e o homem dá um assovio com os dois dedos na boca, aquele profissa. O motorista ouve, acena e grita de volta em carioquês castiço:
 
– Fala mermão! Se adianta aí que o guarda tá de butuca.
 
O homem está agoniado com a demora pro sinal abrir. Num gesto deboa vontade, o motorista diminui a marcha. São quatro pistas de trânsito intenso entre o Ferrer do Humaitá e o 409.
 
O herói vai a luta.
 
A primeira faixa é fácil. Na segunda ele dá uma parada, tem carro por todo lado. Com ginga dribla dois motoboys e corre pra terceira.
 
O que se vê uma mistura de balé, capoeira e videogame, como se o Baryshnikov estivesse dançando dentro do Playstation ao som de um berimbau. Ferrer é evidentemente um artista.
 
Falta só uma.
 
As dez, quinze pessoas no sinal estão hipnotizadas pela epopéia urbana que se desenrola. “O melhor da vida é offline” está escrito na janela do 409.
 
Um caminhão da Brahma dá uma folga e o artista/herói chega ao outro lado.
 
Falta correr até o ônibus, que mesmo devagar já chegou longe. Agora Ferrer é também Bolt e Biles. Dá um pique de cinquenta metros pula pra dentro.
A galera aplaude. Mando um wooo-hooooo. Martín tá fascinado.
 
Teve a lição do dia.
 
Civilidade e obediência às regras: zero
 
Empatia e malandragem: dez
 
Média cinco passa.

Tubiacanga

Uma revista me pediu para fotografar um bar em Tubiacanga, na Ilha do Governador. A maioria de vocês já passou por lá, só que por cima. Tubiacanga fica numa das cabeceiras do Galeão.
 
Para conseguir pegar o clima de um lugar o ideal é ficar invisível, diz o manual do fotojornalismo. A questão é como conseguir isso. Não é só o visual, é o que você faz, o que diz. Tem que parecer local.
 
Senão você fica tão natural como o João Dória comendo pastel na periferia paulista.
 
Cheguei e sentei numa mesa, enquanto os músicos que iam tocar preparavam os instrumentos. Um casal sentou e puxou conversa. Perguntaram se eu já conhecia Tubicanga:
 
“A primeira vez que vim aqui era tudo mato…”
Pra forçar o sotaque botei tanto S e X que parecia um rádio mal sintonizado.
 
Já comecei mitando, ao menos na minha cabeça.
 
Continuei com o meu número do carioca ixpérto: contei que já tinha assistido jogo do Flexeiras, o time local, no estádio da Portuguesa, ali do lado, detonei o projeto do Galeão de construir mais uma pista, “Uma sacanagem com Tubiacanga!” Falei da saudade que sentia do pastel da Dona Cleusa que vendia ali do lado da Igreja. Tudo trabalhado no Google e na cascata.
 
Chegou mais um cliente e sentou na mesa. Mais público. Aí eu, que estava encantado com a minha própria criatividade, continuei o show. Descrevi com detalhes as vezes que desfilei na União da Ilha, a casa do tio que morava no Moneró e o sabor de um sacolé que só vendia ali na praia da Guanabara.
 
Já estava me sentindo o rei da carioquice, um Bezerra da Silva com pitadas de Romário e Evandro Mesquita.
 
Mais local que os próprios frequentadores do bar.
 
Aí um dos caras que estava na mesa vira pra mim e pergunta, numa comovente mistura de candidez e curiosidade:
 
– Como é morar em São Paulo?

Sorvete

Entrei na sorveteria da Dias Ferreira atrás de um sorvete. Nada muito complicado. Um sorvete de limão. Na China tem sorvete de limão, na Rússia tem sorvete de limão, até no Catete tem sorvete de limão.
 
Mas eu estava no Leblon.
 
“Nosso limão é com azeite extra virgem e basilico” (manjericão, no resto da cidade) disse a simpática atendente.
 
Desde criança estabeleci uma política: cada aporrinhação será compensada por um sorvete. Freud e Lacan ficariam orgulhosos da minha esperteza psicanalítica. Funciona bem ainda que, por razões misteriosas, aos quarenta tenha resultado numa certa barriga.
 
Já na colher o azeite começou a brigar com o limão. Entraram na boca aos tapas e pescoções. Na língua o manjericão metido a besta entrou na luta. Uma batalha horrenda. Não fosse a fortuna que eu tinha pago naquele minúsculo copinho teria jogado tudo no lixo. Teimoso e mesquinho, fui até a última colherada.
 
Pronto, o perfeito sistema de compensação, que me acompanhava a décadas, tinha desabado. A recompensa tinha virado a aporrinhação.
 
Eu precisava me reinventar, como manda a TV
 
Quem poderia substituir o fracassado sorvete no meu perfeito esquema psicológico?
 
Chocolate, esse sim nunca decepciona. Lembrei do Galak, do Chokito, do KitKat até do Sonho de Valsa. O esquema estava pronto pra voltar. Atravessei a rua atrás do que parecia ser um paraíso do cacau. Era ainda mais caro que a sorveteria.
 
“O senhor não quer experimentar este chocolate com pimenta?”
 
Não tem Freud ou Lacan que resista ao Leblon.

Sarcasmo do século XXl

Falar o que vem à cabeça. Do meu enorme cardápio de defeitos esse é dos que me trouxe mais problemas. Uma coisa é uma pessoa inteligente e esperta falar sem pensar, outra sou eu. O comentário infeliz aparece na minha cabeça já todo errado, além de sujo e torto. Mal olha em volta e sai abrindo caminho para a língua, correndo como alguém de piriri em direção ao banheiro. E assim perco mais um amigo, uma namorada, um parente. Sou um artista do deslize verbal. De tanto receber o conselho, da minha mãe, da minha mulher, até do meu filho de sete anos decidi atender. Como se fosse uma lobotomia, adotei o “Não fala nada para não estragar tudo”.

Eles venceram.

Vou na festinha infantil, o pai de um amiguinho começa a fazer discurso a favor do Bolsonaro. Fala alto, gesticula com veemência, diz que a esquerda acabou com o país e diz que só os militares podem consertar a pátria. Em outros tempos eu levantaria o meu braço direito e gritaria Heil Hitler!, dando início a mais uma treta. Voariam cadeiras de plástico e brigadeiros para todo lado, o palhaço tucano iria dar uma voadora na princesa petralha, só sobrariam de pé os traumas nas crianças. Não mais. Agora escuto, esboço um sorriso e não respondo nada. Nadinha. Cara de paisagem. Apenas me encaminho tranquilamente para a mesa de doces. A família olha com satisfação e orgulho.

Estou conversando com um amigo. Chega uma atriz/celebridade/sexsymbol e fala com ele, que nos apresenta: “essa é fulana”. Nada de comentários “inteligentes”, nada de perguntar se a gente não se conhece de algum lugar, nada de piadas sobre a indústria das celebridades. Apenas esboço o sorriso e ainda pergunto: fulana? E ela, que está em todas as telas e capas, responde: “fulana de tal”. Abdicar das bobagens ainda me dá um ar blasé e cool. Minha vida social está melhorando.

Na reunião de condomínio surge pela milésima vez a discussão sobre o entregador de pizza. Devemos deixar subir ou o morador deve descer? Dando início aquele debate chato e requentado que vai durar horas. Assisto a tudo com um leve sorriso. A época de achar tudo aquilo desesperador e falar isso de maneira irônica e sarcástica -aos meus olhos- ou grosseira e rude -aos olhos de todos os outros- terminaram.

Aparece um post no Facebook de um ativista, reclamando furiosamente dos que são contra a sua causa. Na minha vida anterior eu explicaria, lenta e pausadamente, que se alguém fosse contra a causa dele não o teria entre os contatos. Também lenta e pausadamente tentaria fazê-lo compreender o significado da expressão “pregar para os convertidos”. Agora eu apenas dou like e ponho carinha feliz.

Na reunião de família a prima surge com o sapato da hora, masculino e prateado, e desfila pela sala como se fosse a Gisele Bundchen. Seria a ocasião em que eu perguntaria se ela estava trabalhando na NASA ou em outra agência espacial. Comentário este que iria iniciar mais uma confusão familiar, com brigas eternas e juras de ódio mas apenas sorrio e pergunto: “que lindo! Comprou lá fora?” reação que provoca júbilo e regozijo em todos os presentes. Finalmente sou convidado para os batizados e casamentos.

A vida de bonecão de posto, sem piadinhas, observações metidas a engraçadas, comentários com referências obscuras e críticas aleatórias é de uma felicidade só. Tá faltando agenda para tanto evento social que sou chamado. Bastou calar a boca para o tapete vermelho se desenrolar.

Estou tão bem que já estabeleci uma nova meta: não só deixar a ironia e o sarcasmo de lado como passar a fazer comentários positivos e encorajadores. Apoiar tudo o que as pessoas disserem.

A autoajuda é o sarcasmo do século XXl

 

(originalmente publicado no www.colabora.com.br)

Diversidade for rent

Como adepto do empreendedorismo na linha Bel Pesce, vou utilizar este espaço para divulgar minha nova empresa, a Escadaria.

A idéia surgiu quando comecei a reparar que nos eventos e festas que vou estão sempre as mesmas pessoas, basicamente o corpo de baile do hipsterismo zona sul carioca. Aquele mar de barbudinhos de óculos de aro grosso, como se eu estivesse numa sala de espelhos. Muito debate, muito projeto, muita teoria e, claro, muita explicação para tudo. Todas as questões do mundo se resolvem no salão dos barbudinhos.

O único problema é que nesses lugares os objetos de tanta teoria nunca estão lá. O sujeito que fez doutorado em populações marginalizadas na Sorbonne encontra o que fez pós em moradias de baixa renda em Harvard, conversam horas e descobrem que nenhum dos dois nunca conheceu um morador da Maré ou do Alemão. Isso gera certo desconforto e talvez algum constrangimento, ainda mais agora que autenticidade virou a palavra da moda. Mas onde encontrar esses moradores sem precisar atravessa o túnel? E como fazer com que eles concordem com toda essa teoria? É aí que eu encontrei minha chance: o aluguel de diversidade para festas e eventos

Assim como empresas oferecem super-heróis para animar festas infantis a Escadaria criou um cardápio de personagens que tornam sua festa ou evento memorável, e ainda melhor, fazem seu marketing pessoal chegar à estratosfera. Aqui vão alguns exemplos:

– Morador da Periferia: muito popular em época de eleições, o Morador da Periferia dá todo um verniz social/engajado no seu evento. Seu figurino é montado de acordo com o gosto do cliente. Temos fantasias de “funkeiro”, “crente”, “sambista vintage” e pobre freestyle. Na hora combinada o Morador da Periferia vai encenar uma epifania ao ouvir o contratante falar sobre sistema de transportes, hospitais públicos etc. Sucesso garantido.

– Empregada Doméstica Evangélica (EDE) – Um hit do nosso catálogo de personagens. Funciona muito bem em festas pequenas. A Empregada Doméstica Evangélica finge um ataque ao ver um casal gay ou alguém fumando um baseado. Essa será a deixa para que o nosso cliente faça o seu ensaiado discurso a favor da tolerância, que a Empregada vai ouvir atenta, com lágrimas nos olhos. No final ela dirá que acaba de ouvir palavras divinas e vai se atirar aos pés do contratante, para regozijo dos presentes. Prepare-se para a salva de palmas! Mediante um pequeno acréscimo a EDE também pode vir acompanhada da FAG, Filha Adolescente Grávida, para que o contratante possa brilhar ainda mais com as suas teorias antropológicas.

– Fã de Sertanejo – Esse é sempre um êxito em shows e eventos musicais sofisticados. Na hora determinada o Fã de Sertanejo vai pedir ao cliente, em voz alta, para tocar Bruno & Marrone ou Luan Santana. Com calculada condescendência este irá perguntar se ele não prefere João Gilberto. O Fã irá responder com a pergunta que é o nirvana do teórico musical:

– Quem é João Gilberto?

Este questionamento permitirá ao contratante exibir aos seus pares toda sua cultura musical. No final da aula o Fã de Sertanejo irá irromper em lágrimas, por ter desperdiçado a vida ouvindo musicas que não eram do gosto dos presentes.

– Colecionador de Romero Britto – indicado para vernissages e feiras de arte. Ele interrompe o cliente durante uma conversa e diz que não gosta das obras expostas porque não são bonitas e diz preferir Romero Britto, cujo trabalho decora toda sua mansão na Barra da Tijuca. A menção à Barra e a Romero Britto por si só já causaria o suficiente mas quem contrata a Escadaria não se contenta com pouco. Por um pequeno adendo temos também as “Senhora Classe Média Indignada” que exigirá a interdição da mostra por subversão e/ou atentado aos bons costumes, o que não só garantirá o êxito da mostra como matérias em todos os jornais.

O cardápio de personagens e cenas da Escadaria é extensa e certamente tem o mais adequado para que voce possa deslumbrar todo seu network, sem precisar sair da zona de comforto.

Como diz nosso lema: Escadaria, trazendo o diferente para que você possa continuar igual.

 

Texto publicado originalmente no site www.projetocolabora.com.br

O eterno status provisório

– Os bancos de couro estavam no pacote premium de acessórios, vieram juntos com o ar condicionado…

– Ar condicionado!!!???

O espanto e admiração tomavam conta da sala

– Pois é, vocês não imaginam a diferença que faz…

– E o motor?

Um suspense se formava. O proprietário administrava o seu momento de glória com habilidade. Esperava alguns segundos antes de responder

– Seis cilindros, 4100cc.

E completava para a platéia embevecida

– Passa dos cento e cinquenta!

A inveja e a admiração tomavam conta do ambiente e todos saiam numa romaria invejosa conferir o carro que acabava de ser adquirido.

Quando eu era criança, nos anos 70/80 a compra de um automóvel era um grande momento. Era o principal símbolo de status da classe média. Carro zero então, nem se fala, só faltavam fogos de artifício e tapete vermelho. E o assunto sempre estava presente em almoços ou reuniões familiares. Sempre tinha alguém esperando um modelo novo sair, ou uma rodinha comentando as vantagens de um motor sobre o outro, etc e tal.

Com relógios era a mesma coisa

Tinha o que podia mergulhar quinhentos metros, tinha o que só atrasava um segundo a cada mil anos, tinha o que valia milhões e estava na família há mais de dez gerações. As pessoas enchiam a boca para falar Rolex, Omega ou Patek Philippe. Nem os suíços tinham tanta obsessão com o registro do tempo. O dia em que o pai presenteava o filho com um relógio era o ápice da adolescência. Ali se separavam os homens de classe média dos meninos de classe média. Um rito de passagem comparável à carteira de motorista aos dezoito.

E as canetas?

Tinha que escrever algo importante, assinar uma escritura, dar o sim do casamento no registro civil? Se não fosse de Montblanc ou Parker 51 sua vida estava condenada à mediocridade eterna. Caneta Bic só era admitida, a contragosto, no dia a dia, para a lista de compras anotada no papel do pão ou recado de telefone. Cheque? Só se fosse de valor baixo. A caneta griffada no estojo de veludo era um presente clássico do avô para o neto. A cara de decepção do neto que esperava receber um autorama também era outro clássico.

Acho que, ao menos na classe média daquele tempo, um homem só ganhava respeito irrestrito com um bom relógio, carro decente e caneta cara.

Por sorte o tempo passou

Carro? Virou a coisa de tiozão cafona.

Se voce vai de carro numa festa de fotografos/designers/musicos/atores, por exemplo, tem que dizer que pegou emprestado do seu avô excêntrico ou que . Ou então, melhor ainda, estacione dois quarteirões antes, pegue um ônibus, ponha a cabeça para fora para que todos na porta o vejam e desça no primeiro ponto. É a melhor maneira de chegar causando. Carro é poluidor, carro gasta, carro atrapalha o transporte público. Tudo de ruim. Se for grande então, pior. Esportivo então, pior ainda, é caso de internação por surto de coxinhice.

Relógio? Tem hora no celular

Um acessório geriátrico, se for dos modelos normais. Tipo bengala mas sem o charme desta. Um ou outro hipster pode admitir algum que tenha história de família, desde que seja de ponteiros e tenha fundo azul turquesa. Um Casio digital vintage também tá valendo, ainda mais se vier acompanhado de bigode irônico. Se você não entendeu, saia pela rua e conte o numero de pessoas com menos de vinte e cinco usando relógio de pulso. Pois é.

Caneta? Serve pra quê mesmo?

Montblancs e Parkers são usadas atualmente apenas para assinar extrema unção fashion e atestado de óbito social. É mais fácil uma criança adivinhar a função de um gramofone do que a de uma caneta-tinteiro. Fora do circuito ABL – Antiquarius – Confeitaria Colombo pode ser confundida com uma arma de defesa pessoal. Ou um vibrador

Ainda bem que me livrei desses símbolos de status rídículos, fúteis e desnecessários. Sou moderno e antenado. Agora só quero saber de celular, televisão e tablet.

O perímetro do desleixo

Você encontra o seu vizinho aposentado num jantar. Ele está de crocs com meias, calça de elástico e casaco de moleton.

O horror! O horror!

Você pensa: como alguém vai num evento desse jeito?

Acredite, não é um rompante, um impulso tresloucado. É um longo processo.

Começa quando voce vai morar sozinho.

No início voce só fica à vontade em casa. O uniforme doméstico do mulambento, a cueca velha, a camiseta furada e os chinelos estropiados, só vale na sala, mesmo assim quando está sozinho. É o perímetro do desleixo: para além dele tem que se manter um mínimo de compostura, afinal lá fora pode estar a mulher da sua vida ou o trabalho que vai definir sua carreira. Ou, melhor ainda, a Scarlet Johansson. No início sempre há esperança.

Nessa fase o conforto é algo muito particular.

Aí vem o fatídico dia em que o porteiro interfona e você tá lá no sofazão, assistindo netflix. De má vontade, muita má vontade, voce atende e descobre que tem uma encomenda na portaria. Preguiçoso, só põe as havaianas e vai lá pegar. Se o porteiro não gostar do seu figurino que se dane.

Pronto. O perímetro mudou. Saiu de casa.

Passa o tempo, já morando com alguém, e dessa vez você descobre que acabou a cerveja. Logo agora! Em pleno jogo do Fluzão! No intervalo você põe outra vez as havaianas, o short Adidas azul-royal, a camiseta furada e vai correndo até a padaria. Se o caixa desaprovar o seu outfit, problema dele.

O perímetro chegou na esquina.

Numa quinta à noite e os seus amigos te chamam pra tomar um chope. Onde? Perto, ali no bar do Zé. Voce tá quase dormindo, Ah que se dane, pega aquela confortável calça jeans que te acompanha há quinze anos, põe a camiseta Hering branca de estimação, aquela que de tão velha já virou uma película de algodão e, claro, o All Star preto que um dia foi branco. Nem o Zé nem seus amigos vão ligar. E você já perdeu a esperança da Scarlett Johansson aparecer

Mais alguns quarteirões para dentro do perímetro

Almoço de domingo. Agora voce já é um respeitável homem de família e, no trabalho, se veste como tal. Cadê a pólo azul marinho? Lavando. Então vamos de Hering desbotada e bermuda vintage! A familia olha pro lado, constrangida, mas você, a esta altura, já não dá pelota, o que importa é o conforto. Além disso domingão é dia de ficar à vontade, está na Bíblia, se não está, deveria.

Agora o bairro é a seu perímetro

Até que chegam os netos e a aposentadoria. Você já não precisa se vestir para o chefe ou o cliente. É o senhor do seu próprio destino e , principalmente, das suas próprias roupas. Chega de sapatos e colarinhos apertados, você é um homem livre, na sua cabeça as convenções pequeno-burguesas ficaram para trás e também na sua cabeça você está à frente da moda. Nesse momento uma amigo mais velho te mostra um par de Crocs. Que coisa mais confortável! E voce gênio da vanguarda, descobre que com meias eles ficam ainda mais aconchegantes. Não é à toa que a sabedoria vem com a idade. E a calça de elástico? Como você passou tanto tempo sem? Ah, os preconceitos da juventude…nada de fecho, nada de botões, só conforto. Igual ao moleton, que já não sai do seu corpo há anos.

O quê? Temos um jantar hoje? Vou assim! Que se dane!

O perímetro comemora. Agora o mundo é todo seu.

 

(originalmente publicado no #Colabora,  www.projetocolabora.com.br)

A luz que resta

DiaDosPais2

Acabava a aula e íamos correndo para o portão de saída. A confusão que se formava era bem assustadora para uma criança pequena, que só enxergava as pernas dos adultos. As coisas só ficavam bem quando o encontrava, acenando e sorrindo, no meio da multidão. A gente se abraçava e na volta para casa ele ouvia as angústias da escola: as questões de matemática, o valentão da outra turma, não conseguir bater uma falta no ângulo. Todos os problemas ficavam pequenos quando ele segurava na minha mão.

A escola virou colégio, o colégio faculdade e o herói da minha infância foi se tornando uma pessoa normal, com vários defeitos. Um pouco ultrapassado, as ideias um pouco antiquadas, talvez acomodado. Comecei a achar que no seu lugar eu teria ido mais longe, teria ousado mais, teria feito coisas mais incríveis. Comigo seria diferente, muito melhor. Aos vinte anos voce é o seu próprio herói.

Há alguns anos, um pouco depois do meu filho nascer, ele começou a ter problemas de memória. Achei não era nada demais, coisas da idade, afinal sempre tinha sido um pouco esquecido. Eram os primeiros sinais de Alzheimer.

No próximo domingo, dia dos pais, Martín completa sete anos. O tempo de entender como a vida muda com filhos. As escolhas, as mudanças de rumo, os sacrifícios que voce faz, com toda alegria, para que aquele menino ou menina tenha tudo que for necessário para ir em frente. Foi então que consegui entender o seu caminho, o que deixou para trás, as coisas das quais ele abriu mão e, agora claro, porque ele fez isso. Como se pede desculpas para alguém que não lembra o que aconteceu?

Há algumas semanas fomos ao teatro. Apesar de ficar cada vez mais confuso com o que não reconhece, ele ainda gosta de sair. O Alzheimer vai desligando as lâmpadas da casa uma a uma e só te deixa assistir à chegada da escuridão. Agora é tentar aproveitar a luz que resta. Nesse dia do teatro ele estava muito feliz, como sempre fica quando estamos juntos. Fui pegar os convites e o deixei na entrada, esperando. Quando voltei não estava mais. Fiquei assustado, com medo de tê-lo perdido. Procurei por todos os lados, era uma estréia, começou a bater um desespero.

O encontrei acenando e sorrindo, no meio da multidão.