Zona Sul

Moro na zona sul do Rio de Janeiro e, por conta do meu ofício, faço parte da cena cultural local. Por ofício também mais observo que participo. É um micro cosmo. E como todo micro cosmo tem seus códigos, quase todos não escritos. Um deles é o provincianismo seletivo. Ou seja, é admitido o provincianismo, desde que seja em relação à lugares e países entendidos como legais. Desculpem, Cool places.
Vc está numa vernissage de um artista novo. Para se enturmar, diz, ingenuamente, que está indo para Miami comprar camisetas da Hollister num outlet. Uma bomba de efeito social. Rápidas como raios, as pessoas irão desaparecer, como se vc fosse um leproso dançando o harlem shake.
Mas se disser que está indo para Berlim comprar roupas usadas num brechó em Prenzlauer Berg, todos imediatamente entrarão num transe coletivo e começarão a te empurrar dicas de lojas e restaurantes. Alguns inclusive irão te recomendar amigos ( na maioria das vezes imaginários) para que vc procure por lá.
Agora vc está na estréia de uma peça de teatro de vanguarda. Na sala de espera comenta que acabou de visitar o Louvre numa excursão da CVC e achou lindo. Imediatamente se formará o vácuo à sua volta. Será tratado como aquele tiozão que aparece de blazer de brasão e foulard em festa de adolescente
Se o seu comentário for referente a uma exposição na Tate Modern em Londres, aí sim vc verá o júbilo entre os seus interlocutores. Todos farão em uníssono comentários inteligentes e sofisticados sobre essa mostra, mesmo que nunca tenha acontecido e o artista que vc citou sequer tenha nascido ainda.
Lançamento do livro de um jovem autor. Você comenta que está indo passar um mês de férias em Cancún. Esse nome é outra bomba de efeito social. Provavelmente será expulso aos pontapés da livraria pelos outros convidados, preocupados que sua breguice crônica contamine o ambiente.
Já se optar por um mês em Reykjavík todos terão orgasmos múltiplos e passarão a invejá-lo com sofreguidão (chamarão essa inveja de inveja branca, que é igual à outra mas mais aguda). Perguntarão se vc já está preparado para morar lá ( carioca que passa mais de uma semana em algum lugar que ele considera cool diz que “morou” nesse lugar). Mais uma vez indicarão contatos (também imaginários) que vivem no lugar.
Enfim, o importante para que vc possa transitar com desenvoltura nessa cena cultural da zona Sul carioca é saber a cotação de cada cidade nessa bolsa de valores dos provincianos. O seu conhecimento dela é que vai fazer a diferença entre o olimpo cool ou o exílio na Barra da Tijuca.

 

Viagem 2

Uma das coisas mais chatas de viajar é o do mala do bistrôzinho. Esse chato habita vernissages, lançamentos, festas e reuniões em geral. Aparece no exato momento que vc comenta que vai viajar para algum lugar, desde que seja acima da linha do equador. Pode ser Londres, Madri, Nova York ou mesmo Pyong Yang. Não importa. Ao ouvir qualquer capital do norte a maleta dá um jeito de se chegar e entrar na conversa. E lá vem ele com o inevitável comentário: “Londres? Vc teeeeeeemmmm que ir no Pierre! (ou algum outro nome francês bem genérico) . É um bistrôzinho ali perto do (alguma atração famosa) ! melhor restaurante da cidade! Mas não esquece de falar com o Jean (ou outro nome francês ainda mais genérico). Diz que é meu amigo!

Na verdade a mala só fez o comentário pra dizer que é muito , mas muito íntimo da cidade para onde vc vai. Ele quer mais é que vc se ferre, não tá nem aí se vc realmente vai lá no maldito restaurante dele ou se vai comer cachorro quente na carrocinha. Ainda mais porque na maioria das vezes o restaurante dele sequer existe, é tudo cascata, o sujeito só quer impressionar os outros. E sabe que em qualquer capital do mundo existe ao menos um bistrôzinho cujo nome é Pierre e cujo dono se chama Jean (ou o contrário). Não tem como dar errado.

É por isso que existe um irmão desse chato, o do italianinho. Vc diz que vai para Nova York e lá vem ele com a dica do italianinho. Cujo nome é Cantina Giuseppe. Cujo dono se chama Lucca. E que, obviamente, fica numa ruazinha lá nos cafundós do Brooklyn. Ele sabe que vc não vai ter saco de procurar o italianinho dele e que também vai ficar sem graça de dizer que não foi, ainda mais depois dele insistir tanto, o que vai dar procuração pra que continue com o seu pocket show impunemente.

E tem as malas mais graduadas, que ainda dizem o que vc tem que comer nesse lugar inventado. E tome-lhe “melhor Coq au vin do mundo”, “Tarte Tatin espetacular” e por aí vai. Ou , no caso do italianinho, o inevitável e fatal “ um tiramisu como vc nunca vai encontrar no Brasil!”

A única maneira de se livre deles é dizer que quando viaja vc só vai no Mac Donald’s ou no Burguer King ( essa desculpa, é claro, não cola em Pyong Yang). O pateta fará uma cara de pavor, rolará no chão enojado com a sua falta de sofisticação e provavelmente emendará com um discurso sobre o malefício do fast-food.

Mas com certeza vc se livrará dele para sempre.

 

Viagem 1

“If there’s a doctor on board, please ring your call button”

Com perdão do coitado da fila 28 que estava tendo um piripaque, nunca tinha ficado tão emocionado num vôo. Um médico sendo convocado para atender um passageiro! Depois de décadas assistindo a essa cena em filmes, seriados, curtas e anúncios de margarina, finalmente consegui ver ao vivo. Quase aplaudi e pedi bis.
Deu até vontade de ser médico. É a dez mil metros de altura é que se percebe quais as profissões que realmente importam. Médico seguramente é uma delas. As outras, imagino, devem ser lutador de MMA, pra conseguir um lugar para sua mochila no bagageiro e faquir, pra usar o banheiro do avião no fim da viagem.
O fato é que a minha profissão, fotógrafo, certamente é uma das mais inúteis num voo. Não sei em que situação eu seria convocado a ajudar numa emergência. “A foto do visto do passageiro da fila 28 desapareceu de maneira inexplicável. Há algum fotógrafo a bordo que possa ajudar?”. E lá iria eu, entre aplausos, salvar a viagem do sujeito. Ou então “O fã clube do Caetano Veloso está amotinado e ameaça desviar o avião para Santo Amaro. Há algum fotógrafo a bordo que tenha alguma história pitoresca sobre ele para distrair os malucos?”
Parece que o problema do cara da fila 28 não era nada demais. Mas todos os passageiros tiveram que esperar os paramédicos ( esses são outros que eu só conhecia do cinema. Muita emoção) terminarem o atendimento para que pudessem desembarcar.
Se fosse num voo da Gol, eu mesmo dava o diagnóstico: excesso de maxi goiabinha.

Bebida

Tenho que dividir com todos algo que me envergonha há anos. Algo que me trouxe muitas dificuldades e constrangimentos desde a minha adolescência. Perdi muitos amigos, minha vida social foi afetada e mesmo entre a minha família sou motivo de chacota. Até meus pais já me pediram para que eu procurasse ajuda profissional. É coisa muito grave.

Eu não bebo

Lembro como se fosse hoje. Tinha onze ou doze anos. Meu pai me ofereceu meia taça de vinho. Fiquei radiante, via todos felizes e alegres quando bebiam. Mas só consegui sentir um amargo horrível. Tentei todas as outras bebidas. Tudo amargo, tudo horrível. Intragável.

Meus amigos tomavam todas, aprontavam todas e eu ali, sempre, sóbrio e, obviamente, sozinho. As aventuras mais mirabolantes, os desejos mais loucos, tudo parecia obra desse líquido maravilhoso. Não era só isso. E os chatos? Quantos e quantos chatos e inconvenientes eu tive que aturar tendo a plena consciência da chatice deles. Meio copo de cerveja já seria um grande alívio. E reuniões familiares? E festas de fim de ano da firma? Alguém consegue imaginar o que é uma comemoração de empresa sóbrio? A mala da repartição te pegando pelo braço e gritando na sua cara que te considera o melhor amigo dele? Triste, muito triste.

E shows que fui obrigado a assistir prestando total atenção? Daqueles amigos que são péssimos músicos mas são gente boa. Até um bombom com licor aliviaria o peso de tantos acordes errados ecoando na minha cabeça.
Não vou nem falar da falta que o álcool fez na minha vida afetiva. Chega a ser covardia. Imaginem um nerd tímido sóbrio. Pois é. Nas bacanas eu não tinha coragem de chegar e as nem tanto, bem, das bem tanto na manhã seguinte lembrava de tudo. E quantas DRs aguentei ? E os ciúmes? E as dores-de-cotovelo? Tudo aquilo que meia garrafa de whisky bastaria para esquecer para sempre.

Minha maior alegria foi quando inventaram a lei seca: finalmente algo de bom por não encher a cara. Mas até hoje nunca consegui ser parado para soprar o maldito bafômetro. Saio da festa sóbrio as quatro da manhã , passo uma, duas, três vezes pela mesma blitz e nada. Nunca nada salva a minha noite.

Enfim, mais uma juventude destruída pelo álcool. Ou melhor, pela ausência dele.

Anos 80

Quando era adolescente, isso no final dos anos 80, a moda era tocar alguma coisa, ter uma banda. Foi a época do rock nacional, Paralamas, Legião etc. Eu estudava no Colégio Andrews e lá tinha uns saraus onde todos tocavam, ou ao menos tentavam tocar. Eu era dos que tentavam. Tinha dois hobbies. Uma era fotografar e o outro era tocar violão e guitarra. Tocar não seria o termo exato. Eu torturava a guitarra. O instrumento sofria mais do que um árabe em Guantánamo. Mesmo assim eu insistia, o que só tornava tudo mais patético e constrangedor.

O fato é que um dia eu estava maltratando o violão no pátio do colégio e se aproximou um amigo, Fernando, que tinha um saxofone. Ficamos os dois ali, criando, involuntariamente, um novo tipo de música dodecafônica, algo tão vanguarda que ninguém entendia, nem nós mesmos. “Melhor ser surdo!” gritavam os que passavam. E nós, cheios de atitude e vazios de talento, nos mantínhamos alheios às críticas. Chegaram duas amigas nossas, Fernanda e Marisa, e ficaram por ali. Fernanda estudava teatro e Marisa fazia aulas de canto. Percebendo nossa comovente dificuldade com os instrumentos, Marisa comentou, solidária, que também era difícil o canto.

Imediatamente rolamos no chão às gargalhadas com aquilo que nos pareceu um comentário inacreditavelmente ingênuo e sem noção, obviamente feito por alguém sem o menor conhecimento de música. Passamos a nos dedicar ao bullying, dizendo que cantar era fácil, muito fácil, uma moleza. Qualquer um sabia, era só abrir a boca e lá, lá, lá. Até um papagaio bem treinado podia cantarolar uma ópera de Verdi. Aulas de canto então nos parecia um desperdício de tempo tão grande como um curso para aprender a desenhar círculos. Mas tocar um instrumento sim que era difícil, exigia técnicas e habilidades imensas, uma dedicação sobre humana. Não era pra qualquer mortal, muito menos para alunos de canto. Iniciou-se então um debate que se prolongou por todo intervalo, no qual vencemos por desistência.
E continuamos ali no pátio, matando aula e nos digladiando com os instrumentos, para desespero de todo o colégio e talvez de toda vizinhança.

Fernando mais tarde se formou em engenharia naval, hoje projeta barcos. A Flávia virou uma excelente figurinista e acho que mora em Londres. Já eu, pressionado pelos meus pais, pelos meus amigos e por toda a sociedade civil, abandonei a música e fiquei só com a fotografia.

Marisa é a Marisa Monte.

Supermercado

Cansei de falar mal de políticos. Vou falar mal de outro desafeto: o Zona Sul. Aqui no Jd Botanico tinha só um mercadinho na esquina, o Crismar. A característica do Crismar foi sempre ter o critério mais claro do mundo em relação aos preços: sempre cobra o dobro dos outros lugares. Não importa o produto, não importa o preço, no Crismar é sempre o dobro. E como sobrevive o Crismar? Na preguiça dos moradores, como eu, em ir até o Mundial, em Botafogo.
Eis que chegou o Zona Sul. Todos pensaram: vai começar a guerra de preços e vamos sair ganhando. E a guerra começou, só que ao contrário: cada um tentava vender mais caro que o outro.
Mas o Zona Sul bolou o golpe de mestre. Sabendo que nada agrada mais a classe média do que artista e coisa importada, passou a importar qualquer coisa. Hoje tem papel higiênico francês (o dobro), sabão em pó turco (o triplo) e por aí vai. Só falta a tecla SAP nas prateleiras. É o paraíso dos posers e marrentos. Muita gente com cara de conteúdo na frente da seção de vinhos, na de azeites, na de queijos até na de limpeza. “Hummm…vc vai levar água sanitário Globo? Afffff… a Globô francesa é tão melhor! Um terroir mais adequado à cozinha, sabe…? Mas para o banheiro a melhor é a The Globe americana, que tem notas almiscaradas.” E eu , preguiçoso por não ir até Botafogo, sou tratado como cão sarnento dentro daquele pedaço da Barra encravado na minha esquina. Até o caixa tira onda com a minha cara: “Mas que cor cartão de crédito é esse? Nunca vi! A maquininha só aceita cartão preto e prateado! Ô Jéssica, ô Daiane! Venham aqui ver o cartão desse fudido! Hahahahaha.” Às vezes coloco até uma caixa vazia de chocolate Lindt ( R$ 80 na promoção, dá pra pagar em 3x sem juros) no meio do feijão e arroz, só pra não ter que aguentar os risinhos à minha volta. O Eike comprava lá, mas acho que foi isso que quebrou as empresas dele.
Aguardo a chegada de um supermercado normal nas redondezas. Um que não tenha um quarteto de cordas tocando ou exija traje esporte fino. Aproveitando o mote do Papa: Mundial, seja missionário!

 

Manifestação na Barra

– Quem está cobrindo a passeata da Barra ao vivo não é a Globonews, é o Amaury Jr

– Olhaí o atentado contra a liberdade de imprensa!!!!!
A passeata da Barra não permite a entrada de jornalistas!
estão fechados com Caras e a AGNews

– A Barra tá completamente engarrafada pq a manifestação de lá é drive thru.

– Pra confundir os manifestantes da Barra o Batalhão de Choque trocou tudo que estava escrito em inglês por versões em português. Tem gente perdida há horas. Uma multidão de radicais está em frente ao Centro Comercial da Barra tentando chegar ao Barrashopping

– Olha a violência na Barra da Tijuca!
O BOPE acaba de deixar no meio da manifestação um quarteto de cordas! E eles começam a tocar Bach!
A multidão foge horrorizada em direção ao Barra Music

– Tem gente na manifestação da Barra discutindo o terroir do gás lacrimogêneo

– O Caveirão tá imobilizado na Barra pq o motorista deixou a chave com o valet e tá sem troco.

– O comandante do Batalhão de Choque está com um Power Point tentanto explicar para os playboys da Barra o conceito de “Vandalismo”. Clima pesado.

– Se os shoppings da Barra fecharem mais cedo aí sim vamos ver hordas de zumbis zanzando sem rumo pelo bairro.

– Vai começar a manifestação na Barra!
Principais reinvindicações:
1 – Menos transportes públicos! Mais avenidas! Mais carros!
2 – Mais shoppings! Mais lojas! Menos calçadas!
3 – Proibição de condomínios e eventos com nomes em português!
4 – Contra qualquer tipo de interação social que não seja intermediado por uma buzina ou uma comanda.
5 – Dourado! Dourado! Dourado! ( esse será o grito de guerra)

Quebra quebra no Leblon

– Se vcs ficarem cercando a casa do Cabral aí no Leblon ele vai ser obrigado a mandar um jatinho da FAB pegar o jantar dele no Antiquarius

– Ainda bem que nenhuma bomba de gás lacrimogêneo acertou a cozinha da Pizzaria Guanabara.
Aí sim seria o caos.
Aquelas baratas de lá iam invadir a cidade inteira.

– Confusão e bombas no baixo Leblon. As baratas da Pizzaria Guanabara vão sair! Salve-se quem puder!

– Guerra química! Manifestantes jogam pizzas da Guanabara na Policia

– Toulon achou que tinha voltado à moda mas manifestantes preferem queimar as roupas do que usar.

– Baratas da pizzaria Guanabara continuam acuadas na cozinha. O clima é de terror. Acham que o gás lacrimogeneo é Baygon. Não tem certeza pq nunca viram inseticida na vida.

– Parece que alguns manifestantes tentaram saquear o Zona Sul. Descobriram que 1kg de arroz lá vale mais do que toda a Toulon

– Os caras que saquearam a Toulon ontem e deram duas ou três camisetas pros meninos de rua reproduziram o que é feito há décadas na política

Manifestações contra Cabral

Expulso do Leblon pelos vizinhos, o governador Sergio Cabral acaba de se mudar para as Ilhas Cagarras. Em entrevista exclusiva ao colunista Merval Pereira, Cabral explicou o ocorrido:
– Aqui não tem baderna! Não tem vândalos! Só as gaivotas cagam na minha cabeça. Mas o Batalhão de Choque já está a caminho para dar um jeito nelas também. E tem vista para o Leblon! Com um telescópio posso ate ver ocardápio do Antiquarius. O melhor é que a vizinhança é ótima, referindo-se ao ex-governador Garotinho e o ex-prefeito César Maia, seus ex e futuros amigos, também residentes nas ilhas à prova de manifestantes.
A mansão do Governador será construída pela EGOFFX, empresa de Eike Batista dedicada a grandes obras e futuras falências. Quanto ao seu deslocamento mensal para o Rio, o Governador negou que tenha pedido um jatinho à FAB, devido aos recentes escândalos de uso indevido das aeronaves. No entanto fontes confirmam que o governador já solicitou que a Marinha coloque à sua disposição um porta-aviões.
Testemunhas afirmam ter visto Botika, o Huno, precursor dos protestos em todo o pais, alugando um pedalinho na Lagoa e partindo para as ilhas, via Jardim de Alah. Segundo elas Botika teria dito que ia “dizer umas verdades” ao governador