Rap in Rio

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Saí para andar de bicicleta. Vou sempre até o Arpoador, ouvindo música. Mas me confundi ao sair de casa e acabei levando um iPod que só tinha Racionais MC’s. Não era a trilha sonora que eu tinha imaginado,  porém o livro de auto-ajuda diz que é pra tentar algo diferente todo dia. Ontem, por exemplo, tomei Pepsi no lugar de Coca-Cola e me senti muito mais feliz. Livro de auto-ajuda sempre sabe das coisas. Então fui assim mesmo, teria algo diferente,  duas horas de rap paulista no caminho. Era uma  manhã de sol, temperatura agradável, brisa leve e nenhuma nuvem no céu. Primavera,  o Rio de Tom & Vinicius. Comecei a pedalar com  Mano Brown cantando nos meus ouvidos:

“Eu vou dizer porque o mundo é assim.
Poderia ser melhor mas ele é tão ruim.
Tempos difíceis, está difícil viver.
Procuramos um motivo vivo, mas ninguém sabe dizer.

Passo pelo Parque dos patins. Na lagoa casais nos pedalinhos, remadores treinando. No parquinho crianças brincando no pula-pula.

“Equilibrado num barranco incômodo, mal acabado e sujo,
porém, seu único lar, seu bem e seu refúgio.
Um cheiro horrível de esgoto no quintal, por cima ou por baixo,
se chover será fatal.”

Vou pelo Jardim de Alah e chego a Ipanema. A praia está cheia. As meninas do vôlei já estão jogando na areia.

“Programado pra morre nóis é
Certo é, certo é, Dê no que der
Cochilou, mano, quando acordar é tarde
Aqui cabelo voa no mundo covarde”

Passo pelo posto 9. Tem três meninas lindas, de não mais que vinte anos,  conversam no quiosque. Elas acenam e Mano Brown declama

“Envolve qualquer um com seu ar de ingenuidade.
Na verdade, por trás mora a mais pura mediocridade.
Te domina com seu jeito promíscuo de ser,
Como se troca de roupa, ela te troca por outro.”

Chego no Arpoador. O mar está transparente, dá pra ver o fundo. Alguns surfistas na água.

“A vida aqui é dura
Dura é a lei do mais forte
Onde a miséria não tem cura
E o remédio mais provável é a morte”

Começo o caminho de volta. Antes um mergulho. A água está uma delícia. Os Racionais continuam nos meu headphone:

“Tanque cheio, coração vazio ..hienas perto
cimento quente, olhares frio, morte no deserto
putas nem sempre são mulheres, depende
que mata quando querem, se me entende?”

Paro para tomar um coco. Esqueci o dinheiro, deixo pendurado. Nunca tomei um coco mais doce e gelado.

“Tô cansado dessa porra de toda essa bobagem
Alcolismo, vingança treta malandragem
Mãe angustiada filho problemático
Famílias destruídas fins de semana trágicos”

Finalmente chego em casa. Muito boa a experiência. Tanto que semana que vem farei algo ainda mais diferente: vou dar uma volta de bicicleta pelas quebradas da Zona Sul de São Paulo com Tom Jobim tocando no iPod. Se não morrer de choque cultural vou escrever o meu próprio livro de auto-ajuda.

 

7 thoughts on “Rap in Rio

  1. Sheila Solon disse:

    Adoro o seu senso de humor e inteligência. Suas referências e estórias são ótimas! Ri à bessa! Obrigada.

  2. Passar alguns momentos lendo seus textos desopilam qualquer um, muito bom esse. Valeu .

  3. Dirceu disse:

    Pronto, virei fã da página!

  4. anamariasousamelo disse:

    amei, muito inteligente

  5. mario paulo disse:

    E eu que imaginava que havia apenas o humor do L. F. Veríssimo!
    Pronto, eu tb virei fã! (como disse Dirceu, pouco acima).
    Genial!

  6. regina mas disse:

    Quando escrever e publicar o livro de auto-ajuda, me avise que vou correndo comprar… Não vivo sem ler um desses conselhos maravilhosos!
    Sem ironia ou sarcasmo… risos…
    Em tempo: a foto está lindiíssima!
    abços

  7. Jhompas disse:

    Na real bixo. Virei fã desse site!

    Achei muito foda a preocupação que o autor teve ao colocar o trecho menos impactante de Mulheres Vulgares…

    O ultimo paragrafo foi pra fechar com chave de ouro.

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