fiu fiu

O táxi parou no sinal e o motorista mandou aquelas duas buzinadinhas, o equivalente motorizado do fiu-fiu pedestre. Até aí nenhuma novidade, o problema era eu ali, no banco de trás, testemunhando aquele assédio do tempo da capanga e da boca de sino. Enquanto tentava assimilar o ocorrido pensei que o caso nem poderia ser chamado de assédio, já que nenhuma das mulheres que atravessavam a rua notou. É como se o som da buzina dele estivesse fora da frequência do ouvido feminino. Não tinha desprezo, só indiferença. Uma confirmação da teoria de Darwin: as mulheres evoluíram ao ponto de não captar mais esse tipo de cantada vintage. O mundo mudou, todo mundo já percebeu.

Mais alguns sinais e a mesma cena. Vocês ficam incentivando a resiliência e a superação nas redes sociais, dá nisso: mesmo com o absoluto descaso feminino ele não desistia, continuava tentando. Um herói, à sua maneira. O cara devia ter uns quarenta anos, sem barriga, barba bem aparada. O problema dele nem era a aparência, é que pela idade já devia ter aprendido que esse tipo de cantada não pega mulher nenhuma. O mundo mudou, só ele não percebeu.

Mesmo assim ele continuava insistindo, o que, se não fosse algum caso de retardamento ou sequela, mostrava um otimismo à toda prova. Esse motorista devia investir na auto ajuda, no coaching, ia virar um Prem Baba de taxímetro. Um cara que passa a vida toda tentando e não conseguindo tem um grande valor nos dias de hoje, basta caprichar no storytelling. Quando cheguei preferi descer na esquina da minha rua, pra evitar o mico do sujeito buzinando para alguma vizinha. Ainda fiquei conferindo o táxi no sinal seguinte, para confirmar as minhas teorias sobre o machismo e a mulher contemporânea. Ele mandou mais uma vez as duas buzinadinhas. Dois sujeitos olharam e sorriram. Mais uma buzinadinha e um deles foi até o táxi conversar. Saíram juntos.

O mundo mudou, eu é que não percebi.

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