Táxi no Rio

Eram as cinco da tarde e a  minha sessão de análise seria as seis. Moro no Jardim Botânico e o consultório é em Ipanema. Bem na hora do rush e ainda por cima chovendo. De ônibus não dava tempo. De carro não tinha como estacionar. Podia ir de bicicleta, mas análise de bicicleta na chuva é muito desespero. Tinha que ser de táxi.

Primeiro liguei para a cooperativa. Daquelas que dizem ter milhares de táxis. A atendente  diz que vai localizar um e liga de volta. Alguém já conseguiu desvendar a lógica desse sistema? Você pede um táxi e não sabe quando vai aparecer ou mesmo se vai aparecer.  O candidato à passageiro tem que ficar rezando. Esse é o serviço que oferecem: ao invés de rezar na rua você reza em casa. As chances são as mesmas. Imaginem um disk-pizza funcionando dessa maneira: a pessoa está esfomeada, pede uma pizza e não se sabe quando será entregue ou se ao menos será entregue. O negócio iria à falência em quinze minutos, é claro. Mas as cooperativas de táxis cariocas continuam lindas e louras.

Obviamente a atendente não  ligou de volta e depois de quinze minutos eu é que tive que ligar. “ainda não localizamos, o senhor aguarda?”. Um clássico do carioca way of life.

Tentei um aplicativo para táxis no telefone. Desses que aparecem toda hora sendo elogiados em jornais e revistas, dizendo que são a invenção mais revolucionária do mundo. Aplicativo de táxi é como sabor novo de miojo. O sabor pode ser novo mas o resto é a porcaria de sempre. Na tela do tal aplicativo os três táxis mais próximos do Jd Botânico estavam no Flamengo, no Leblon e em Botafogo. O de Botafogo estava indo em direção ao Flamengo.

Fui na rua procurar um táxi qualquer. Nada. Eis que aparece a salvação, um Corsa velho e cansado, com os vidros todos pretos. Aqui no Rio o  passageiro tem que ser um médium pra saber o que existe dentro do táxi. Pode ser que o Fernandinho Beira-mar, a Suzane Richthofen e o Maluf estejam escondidos no banco de trás mas você só vai descobrir quando for tarde demais. Tive que arriscar. O motorista tinha uns 150 anos e de um metro e meio de altura, e ouvia um programa policial bizarro no volume máximo. Parece que, além de pintar os vidros de preto, assistir tv enquanto dirige é a nova moda na praça. O passageiro fica muito relaxado vendo o taxista dividir seus muitos neurônios entre o trânsito e a tv

No primeiro cruzamento o demi-anão avança o sinal e fecha todo o trânsito. Ouve impávido a orquestra de buzinas. Não é com ele. Um guarda aparece e aplica uma multa. Começa o show: “esses guardas fdps em vez de pegar bandido ficam multando trabalhador! Por isso é que a cidade tá do jeito que tá!”. A chuva aumenta e o trânsito piora.

Mais dez minutos, passa uma moça na calçada e vem a frase fatal. “Tem muita mulher no Rio, tá faltando homem…”. Quando você  ouvir essa frase fuja correndo. É o spoiler alert do filme de terror que vai começar. Não deu outra: o motorista começou a contar uma história juntava tantos palavrões e baixarias que deveria ser estudada em faculdades de antropologia. Vou tentar traduzir em algo publicável.

O motorista, apesar da avançada idade alegava ser um mestre nas artes do amor. Um verdadeiro atleta da cama. Além disso, segundo ele mesmo,  contava com um detalhe anatômico de proporções notáveis. Por conta disso muitas, inúmeras, incontáveis mulheres o assediavam sem descanso. Uma delas,  viúva riquíssima, passou inclusive a lhe oferecer vultuosas quantias de dinheiro a cada encontro amoroso, em agradecimento pela sua excelência na área -O primeiro garoto de programa da quarta idade, pensei-  Essa situação continuou até que outra mulher, esta casada com um milionário, também se encantou pela supra citada habilidade amorosa do motorista e sua singular característica anatômica. Como ela era mais rica e mais jovem que a viúva e além disso pagava quantias ainda mais vultuosas, ele considerou que o mais certo seria trocar uma pela outra. A viúva, inconformada com a possibilidade de perder tão fenomenal amante,  foi às vias de fato com a outra, conflito que produziu imensa satisfação no vovô-casanova. Acabou largando as duas, trocadas por uma terceira, que era ainda mais rica e mais bela que as duas primeiras. O relato dele era como um filme pornô paraguaio narrado pela Dercy Gonçalves. E tudo em voz alta, com o programa policial ao fundo. E no final ainda tive que escutar as conclusões filosóficas, por assim dizer, que ele elaborou sobre o episódio.

Ainda faltavam cinco quarteirões. O motorista, inconformado com a minha indiferença em relação às suas aventuras sexuais, perguntou:

– O amigo é bicha?

A minha negativa o encorajou a despejar mais uma sessão de ensinamentos de vida, uma auto-ajuda do capeta. Era algo que misturava homofobia e misoginia com pitadas de reacionarismo político, como se colocassem Feliciano, Reinaldo Azevedo e Bolsonaro num liquidificador. E tudo naquele dialeto formado só por baixarias. Fiquei imaginando como tanta estupidez cabia em alguém tão pequeno. Finalmente chegamos. O motorista, é claro, não tinha troco. Tive que sair na chuva para conseguir.

Desisti da sessão de análise. Depois de tudo que tinha ouvido eu já não me achava tão ruim assim. Encontrar alguém absolutamente abominável tem essa única vantagem, você se sente, por comparação, um ser iluminado.

Voltei andando na chuva, feliz da vida.

 

31 thoughts on “Táxi no Rio

  1. Laura Rónai disse:

    Delícia!

  2. Maria disse:

    Espetacular. Eu já tava me acabando de rir e vc conta a parte do: o amigo é bicha?
    Quase caio da cadeira!

  3. Karina disse:

    Leo, na próxima vez chame pela 99táxis que encontrará o táxi mais próximo de você! 🙂

  4. Debora disse:

    Fantástica narrativa!

  5. noemi marinho disse:

    fiquei sua fã para sempre.

  6. Thomas disse:

    Talvez nem seja sua vontade, ou talvez seja uma vontade frustrada e sem reconhecimento. Mas um cronista preconceituoso, que relata suas experiências e visão sobre sua cidade e seus habitantes depreciando tudo e todos, como se fossem todos piores do que o autor, um cronista que troca o saudável olhar curioso por pessoas e histórias por um texto cheio de julgamentos, esse cronista está mergulhado numa egotrip tão equivocada que nem percebe o quão patético é. Todas chora.

    • leoaversa@facebook.com disse:

      Peço desculpas por parecer preconceituoso e egocêntrico. Sempre procuro
      tratar as pessoas como se elas fossem iguais a mim.
      abs

      • rosana disse:

        Acho que o inicio do texto foi preconceituoso sim, falando do homem de 150 anos e anão.

        O texto caracterizou bem o contexto das viajens de táxi, porém no início quase parei de ler.

      • Julie Alves disse:

        Preconceituoso em alto grau. Qual o problema da pessoa possuir baixa estatura? É assim que vc qualifica as pessoas?
        Ficou muito feio quando rotulou alguém pela sua aparência. Seus textos são ótimos, mas este foi um horror.

        Abs.

        • mauricio barbosa disse:

          Ô Leo, não se deixe abater, teus textos são uma delícia de genuíno humor carioca. Resista à pressão do políticamente correto, alguem tem que resistir em nome do humor. Baixinhos podem ser piadas, altões e normalóides também. Velhinhos como eu ou crianças como o Juquinha, portugas e papagaios, toda gozação cabe em um texto de qualidade como o seu. Aliás, você só falou na idade – 150 anos, meu pai tá quase lá – e no tamanho, nem fez comentarios sobre isso, imagino como a cabeça dessas pessoas deve ser políticamente incorreta…

      • Mauricio disse:

        O seu talento está na denúncia. Continue assim. Sem meias-palavras… Parabéns.

  7. joe canônico disse:

    SHOW!…ri muito…você escreve muito bem, “moço”! 😉

    e…rir de nós mesmos, independentemente dos “bairristas e seus bairrismos tocos”, é MUITO salutar, pois a humanidade é ridícula mesmo…Nós somos bizarros…Defectivos…estranhos…e ignoramos absolutamente TUDO, e achamos que “dominamos a bagaça”…Uns mais outros menos, uns assim outros assados, mas invariavelmente fazemos parte da mesma tribo e trip… 😉

    Parabéns!…continue nos brindando com essa excelente leitura…ABRAÇOS!

    (aqui em Sampa, é o mesmo…muda-se o sotaque, a entonação, mas o mote é “the same”…rsrsrs)

  8. joe canônico disse:

    errata : no lugar de “toco”, leia-se “tosco”…(mas, de certa forma todo “toco” é “tosco”…rs… e la nave va… 😀 )

  9. Cecéu disse:

    Moro no Recreio, longe de tudo e de todos, quando preciso de taxi é um tormento…Quanto a terem falado que seu texto é preconceituoso, relaxe.Não há nada mais mal humorado do que o tal do “politicamente correto”.Muito bom saber rir das situações, dos outros e de si mesmo, principalmente.Amei o texto, virei fã!!!bjs

  10. Sonia Maria Loureiro disse:

    Adorei o texto.Muito engraçado!

  11. Depois de ler esse seu inteligente e divertidísssimo texto me deparo, ainda bem que poucos mas essa turminha radical do “politicamente correto” já cansou, oh coisa chata!
    Neguinho não relaxa, ih, neguinho não pode,(viu nem uma máxima do chamado carioquês passa pelo crivo desses chatonildos), rsrsrs, “algumas pessoas” deveriam tentar relaxar a guarda. Um pouco de licensa e transgressão poética não matam ninguém. Continue assim, virei seu fan , muito bom.

  12. “O amigo é bicha?” hhahahahahahhahaha….muito bom.

  13. Daniela disse:

    Muito bom. Morri de rir. Adorei o final. Aliás, li também outros textos, todos muito bons, boa prosa!
    Obrigada!

  14. Antes que um politicamente correto aí de cima venha me sacanear , gostaria de corrigir a errata na palavra fã e não fan, sorry.

  15. Janes disse:

    Será que os taxistas do Rio combinaram esse discurso? Ontem peguei um taxi na Rodoviária, e o cara veio com a mesmíssima conversa. Disse que não “ataca” porque “é proibido”, mas é constantemente “atacado” pela mulherada, já “pegou” muitas e um dos discursos preferidos delas é “Esse Rio de Janeiro só tem viado! Tá faltando homem!” Segundo ele, esse é o sinal de que a mulher tá querendo dar pra ele…

  16. George Almeida Faturine disse:

    Interressante o texto, para onde o autor estava indo, sua desistência ao chegar, a possibilidade de ir de Bike mesmo na chuva, as críticas positivas,negativas… E porque não, à hipocrisia!!! Estando eu neste TAXI, seria com certeza assertivo. 1º: Pediria para o motorista diminuir ou desligar o rádio. 2º Não daria a ele a oportunidade de fazer comigo uma sessão terapeutica. 3ºJamais estaria indo a uma sessão de analise( pura embromação) vou a terapia… Afinal de contas são “PSICOLOGIAS”….. PSICANALISE é coisa do passado embora todas as faculdades insistam em ser totalmente psicanalistas… UFA !!!! Qualquer pessoa com nível superior pode ser psicanalista,é só fazer uma especialização de 2 anos e abrir um consultório… para atender “PACIENTES” Engenheiro, Matemático, Químico,Veterinário… Terapeuta faz 5 anos de uma faculdade de PSICOLOGIA para ter Bacharelado, e Formação de Psicólogo e mais 2 anos para Licenciatura e tantos outros 18 meses para qq especialização… A Psicanalise nos ensina SIM a dizer” Não ” e pelo que li não foi o que aconteceu com o autor… Sugiro que conheça os 12 PASSOS, como relatou o saudosoi PAPA JOÃO PAULO se a humanidade praticasse este programa dos AAs , o amor dos “HOMENS ” alcançaria os ensinamentos que o mestre aqui veio nos ensinar!!! Abçs

    • vagner medeiros disse:

      Bom dia, George, achei um cartão RIOCARD com teu nome e quero entregá-lo ao dono, tem um valor alto nele e espero q seja seu. qqr coisa passo meu zap. Abraço, Vagner

  17. George Almeida Faturine disse:

    Ser HoMO -HETERO – TRI- TETRA -PAN ????? Bicha- Viadinho- Boiola- etc…… Seria como contrair o vírus HIV e dizer que se contaminou com canudo de cocaína, ou uma prostituta…. Jamais num penetraçaõ anal com um pessoa do mesmo sexo…. Dizer ser Bi-sexual , sabendo que gosta mais de um que de outro !!!! NADA VALE Á PENA QUANDO A ALMA É PEQUENA !!!!!!

  18. George Almeida Faturine disse:

    De qq forma Parabéns , não conhecia seus textos, e o bom é que podemos nos colocar com respeito … Forte Abraço !!!!

  19. Xong Lee disse:

    Schadenfreude.
    Este é um típico brasileiro.
    Nação do futuro… do pretérito imperfeito.

  20. CP disse:

    Talvez só eu que não achei..mas me parece que facilitaria a leitura se houvessem links de acesso aos outros posts. Li alguns posts, uns gostei, de outros não,… é a vida. Sobre taxistas no Rio só tenho uma coisa a dizer: Quando vc precisa de um cooperativado ou que pareca seguro (em especial se estiver sozinha – ou mesmo sozinho…hoje em dia..), não encontra e quando não precisa eles jorram aos borbotões e as histórias e desculpas são de descabelar careca. Um dia peguei um que disse que após ter instalado o GPS esqueceu os nomes e caminhos das ruas.

  21. Xong Lee disse:

    Eu peguei um taxi uma vez, por volta das 8:30, que tinha televisão. Disse que queria ir pra botafogo, e ele pediu que eu pegasse um próximo taxi, pq ele queria ver a novela, e em botafogo a tv digital dele nao pegava direito. Achei justo.

  22. Orlando disse:

    Morei em Nova York e quando chove tb é quase impossível pegar um taxi, aqui no RJ os táxis conhecem a cidade de norte a sul e tem em grande quantidade, o mal do carioca é chorar de barriga cheia, aposto que vc só usa taxi na chuva, geralmente aumenta a procura em 200%, óbvio que vai faltar táxis….o negócio é ter paciência.

  23. Eliane Dutra disse:

    Estou descobrindo seus textos agora. Um melhor que o outro. Não vi preconceito, apenas uma descrição detalhada e divertida sobre o que quer falar.
    Virei fã!!!!

  24. regina mas disse:

    Seus textos são bem divertidos. Como não ligo muito para o tal politicamente correto, não vi nada de mau nem de incorreto em termos do “politicamente”.
    Às vezes, tão divertidos quanto o texto, são os comentários… sem ironia… risos…
    Acho que sou uma mulher de muita sorte. Ando bastante de táxi e raras vezes encontrei gente grosseira pilotando o veículo, aliás, muito ao contrário, divirto-me a valer conversando com eles ou elas.
    Espero que vc tenha mais sorte… ou não e possa nos contar mais uma dessas em outra crônica divertida.
    Abçs regin@

  25. Jarbas disse:

    Com todo respeito, se é que você merece! Você não passa de um babaca e mentiroso! Provavelmente um pau mandado da UBER! Vai se fuder seu idiota contador de histórias.
    Vai pra globo, lá vão te aceitar de braços abertos. Vtnc.

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