Tentações

Drogas, tô fora. Sexo? Já foi o tempo. Black Friday? Ha, ha, ha, nem aí. Quando já acho que estou levitando na minha santidade franciscana, imune a todo tipo de tentação, o capeta dá o xeque-mate: reaparecem os chocotones nos supermercados. Maldito natal.

Quando eu era criança panetone só com passas, as benditas passas que sempre detestei. Mesmo tarado por panetone o trabalho de tirar as passas era tão grande que não valia a pena o esforço. Hoje posso dizer que foram essas passas que me livraram da obesidade mórbida. Mas aí o capeta, mais uma vez ele, inventou de tirar as malditas passas e colocar chocolate no lugar. Danou-se.

Surgiu o chocotone, a minha kriptonita alimentar.

Imagino que as pessoas normais compram um na semana do natal, levam tranquilamente para casa, comem uma pequena fatia após uma refeição nutritiva e balanceada e guardam o resto para o dia seguinte.

Infelizmente não sou normal.

Já vou abrindo o pacote no caminho de casa, comendo com sofreguidão pela rua e quando enfio a chave na porta a porta metade já se foi. A outra desaparece num frenesi calórico. Em minutos só restam algumas migalhas e muito remorso. Uma cena deplorável.

É exatamente nesse momento que minha mãe liga. Ela é uma espécie de Chico Xavier, só que a mediunidade dela só sintoniza na minha culpa. Basta eu enfiar o pé na jaca, no caso no chocotone, que ela percebe até do outro lado do mundo.

– De novo? Nem uma hiena consegue digerir tanta porcaria assim. Você vai acabar numa ala do museu de história natural. E nem vai ser o de NY, vai ser aquele da Quinta da Boa vista mesmo, junto da múmia estropiada. Vai envergonhar sua família até depois de morto.

Enquanto levo bronca da minha mãe chega o Martín, que percebe os restos mortais do Chocotone. Alguém comeu alguma coisa doce e não deu nada pra ele, pelo estatuto do menor deve ser crime inafiançável e o menino sabe disso. Fico espremido entre o ódio de duas gerações, levando sabão pelas duas orelhas.

Termino solitário na cozinha, arrependido, chafurdando no remorso. Eis que surge outra vez o capeta, lembrando a única cura para a culpa.

Outro chocotone.

 

One thought on “Tentações

  1. NILTON MAIA disse:

    Prezado Leo,
    Finalmente, os bons fados te trouxeram de volta, com mais frequência, ao nosso convívio, e em grande forma ao escrever, pois física, tenho lá minhas dúvidas, devido à tua confessa compulsão panetônica, aliás plenamente justificável, dado que é pecado venial, não é mortal, penso eu.
    Tua crônica anterior sobre a educação britânica daqueles que trabalham em nossa cidade, em especial de garçons e atendentes de supermercado, é ótima e gratificante, pois fiquei sabendo que não sou o único a me achar um ET, por teimar em cumprimentar tais seres e não receber resposta, por ficar aguardando infinitamente a boa vontade da garçonete em me atender, etc.
    Não some, por favor, nos deixando carentes de teus textos.
    Um grande abraço do leitor de sempre,
    Nilton

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