Liberado

Eram quatro na mesa: três gigantes, tanto para cima quanto para os lados e um magrinho com cara de gaiato, que devia estar no grupo só pela diversão. Os três maiorais não, estavam concentrados numa missão: acabar com toda a comida do estabelecimento.

O Frontera é um restaurante a quilo aqui perto de casa. A vantagem do quilo é que te dá régua e compasso: qualquer excesso dói tanto no bolso quanto na balança. Mas com a crise o restaurante passou a adotar o sistema de bufê liberado e aí veio outra clientela, os profissionais da comilança. Com eles não tem nada de régua, compasso e muito menos balança. Eles querem comer até cair ou, no caso, rolar.

Os três empilharam a comida nos pratos como se estivessem jogando Tetris. Um mar de feijão na base, por cima camadas de arroz, picanha e linguiça e lá no alto pastéis variados. Se é um bufê liberado não precisa encher tanto o prato assim, dirão os pragmáticos, basta voltar e pegar mais. É exatamente a preguiça de levantar que os deixou naquele rotundo estado. Eles querem comer o máximo com o mínimo esforço. São profissionais do ramo.

O magrinho se serviu um prato normal, tinha até uns verdinhos, uma heresia no grupo. Como a cada garfada dele os outros três davam cinco, acabaram todos ao mesmo tempo.

Os maiorais partiram aflitos para a mesa de doces. Até ensaiaram resistir mas o açúcar tira as pessoas do sério. O que economizaram na comilança liberada gastaram na sobremesa, que não está incluída. O pessoal do Frontera também é profissional do ramo e sabe onde está o pulo do gato.

Para não ir à falência comeram só um pedaço de torta cada, ao invés de uma inteira como seria o seu (deles) agrado. Pela cara contrariada, não foi o suficiente. Nunca é. O magrinho pediu um café, que veio com um copinho de chantilly.

– Hummm, comi muito… quero o creme não, pode dividir entre vocês.

A disputa começou antes do fim da frase. Um tentou tomar na mão grande, o outro na marra e o terceiro partiu pra cima dos outros dois, num desespero comovente. Era pouco copinho para muita mão, acabou voando chantilly para tudo que é lado. Enquanto um tentava recolher os respingos com uma colherinha o outro lambia os restos na mesa e o terceiro apenas observava desolado, com os olhos cheios d’água. O açúcar tira as pessoas do sério.

O magrinho ficou rindo, com cara de gaiato. Ele estava naquele grupo só pela diversão

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