Bienal

 

– Papai! Papai! O Rezendeevil vai hoje nessa Bienal do Livro! Você me leva?

Rezendeevil é um youtuber. A Bienal é no Riocentro. A combinação dessas palavras é assustadora para qualquer pai. As outras que entram só pioram o quadro: cinco da tarde, véspera de feriado e distribuição de senhas.

Uma roubada, horas na fila, horas no trânsito. Pra quê? Ano que vem já não vai lembrar quem foi o rezendeevil, é só uma fase e além disso preciso editar uma sessão de fotos para entregar amanhã. Se for à Bienal de tarde vou ter que passar a madrugada trabalhando.

– Vamos papai? Vamos? Papai? Vamos? Papai? Vamos?

…………………………………

Como imaginei, o trânsito está horrível, um engarrafamento sem fim. Martín começa as perguntas, a curiosidade dele é igual ao engarrafamento.

– Papai, um dia o nosso mundo vai acabar?

Hummm…. A mundo…o mundo depende do sol e o sol ainda vai durar muitos bilhões de anos, o hidrogênio do núcleo…não consigo terminar a explicação, logo vem uma pergunta sobre leões e as hienas. E depois outra querendo saber quanto mede o menor homem do mundo.

– E o maior?

A Bienal está lotada. Conseguimos a senha/pulseira, que ele exibe orgulhoso. Nos corredores circulam as excursões de colégios, multidões de adolescentes, correndo e gritando. Martín fica fascinado com a agitação dos meninos grandes mas ao mesmo tempo tem medo da confusão então segura a minha mão com força para não se perder. Vamos para os livros, onde sempre tem calmaria. Tento convencê-lo a levar alguma história educativa mas ele bate o pé num caderno colorido que vem com uma caneta de tinta invisível.

– Vai ser o meu diário secreto, só eu poderei ler.

A gente senta para tomar um sorvete e ele já pega o caderno. Escreve que vai encontrar o rezendeevil, que vai ser youtubber e jogador de futebol. Astronauta também, se der tempo.

A tinta da caneta não é tão invisível assim.

Chega a hora do youtuber popstar. É um rapaz simpático, articulado, que não diz nada muito inteligente mas que o Martín ouve como se estivesse no Oráculo de Delfos. Está fascinado, frente a frente com seu ídolo. Durante uma hora ele não pisca.

Na saída paramos para um lanche e entre batatas fritas, hamburguers e milkshakes ele escreve no diário que este é o dia mais feliz da vida. Até agora, acrescenta no fim.

No caminho de volta mostro que tem lua cheia no céu. Martín olha e pergunta

– Papai, por que a Lua não cai na Terra?

Hummm…a Lua… A Lua está rodando em volta da Terra, a gravidade é a que a mantem por lá, é ela que segura o Universo no lugar…. As estrelas e as galáxias por exemplo… olho para trás e ele já está dormindo, abraçado ao diário.

Sigo pela Avenida das Américas, sob a lua cheia, rumo à longa noite de trabalho.

Daqui a pouco o cansaço pela madrugada em claro vai passar, o rezendeevil vai se tornar uma recordação e o Martín não vai me chamar mais de papai, muito menos segurar a minha mão. Tudo isso vai passar.

Mas nosso mundo, a lua e este dia, escrito com tinta invisível, esses ficarão.

5 thoughts on “Bienal

  1. Mariana disse:

    Coisa linda seu texto. Que bom que você escreve também. Um abraço desta grande admiradora.

  2. Ana Flores disse:

    Beleza! Linda crônica.

  3. regina mas disse:

    Seu texto está muito bonito…Ao falar de seu filho, me parece, você fica além de orgulhoso, muito contente e inspirado. Goste muito…Crianças são maravilhas!

  4. Fiquei emocionada. Homens como você são os pais que as crianças merecem.

Deixe uma resposta