Vinte anos

Numa esquina de Copacabana, vinte anos depois.

– …Isabel?
– …oi…
– …Isabel, sou eu, lembra..? Da faculdade…
– …Oi! Tudo bem com você?

Bel. Eu tinha vinte anos, estávamos no meio do curso. O sítio dos pais do Gê no alto da serra vazio. Vamos passar uns dias lá? De noite fomos pro jardim, deitamos olhando pra cima, você me mostrou o céu, eu inventei um nome para cada estrela e você morreu de rir e essa alegria virou a madrugada e o dia nasceu e o primeiro raio de sol te deixou tão linda que eu tirei uma foto pro resto da vida. Porque não ficamos aqui pra sempre? A gente não precisa de nada, podemos ser caseiros desse sítio e a nossa vida toda vai ser assim, dando nomes a estrelas. Topa? Você sorriu, colocou uma música da Legião e saiu dançando, achando graça dos meus planos. Bel, eu te amava tanto, eu era um garoto, eu tinha vinte anos.

– …tudo bem…você continua igual…
– ‘magina, passou tanto tempo… e o pessoal da faculdade, tem visto?

A gente voltou no domingo, a sua cabeça no meu ombro, o ônibus descendo da estrada, eu com a minha cabeça nas nuvens, você olhando as luzes do Rio que ia chegando. No dia seguinte você disse que precisava pensar e desapareceu. Cada vez que você não atendia o telefone eu chorava tanto que decidi que em vez de chorar eu ia te escrever e escrevi tanto que fiz um livro que era sobre aqueles dias mas que também era sobre a minha vida que ficou ali. Na capa escrevi do alto da serra e colei a tua foto, aquela, e isso era tudo o que eu tinha pra te dar. Fiquei dias na tua portaria até que você apareceu, pegou o livro, disse que ia guardar para sempre, me deu um beijo e disse pra me cuidar. Depois você sumiu no mundo e eu nunca mais te vi. Bel, eu quis te matar dentro de mim mas eu era um garoto, eu tinha vinte anos.

-…daquela turma encontro com um ou outro…e você, o que fez da vida?
-…tanta coisa…Conheci o Alberto na faculdade, ele era de São Paulo, terminei o curso por lá, a gente casou, comecei a dar aulas, tivemos filhos…olha aqui essa foto deles, o Pedrinho é a cara da mãe, né? Ano passado o Alberto foi transferido aqui por Rio e a gente voltou…e você?
-…comecei a escrever naquela época…é uma longa história…Bel, você ainda lembra do alto da serra?
– …ai…minha memória é péssima…alto da serra…não era aquele bar que o pessoal da faculdade ia?
– …era…
-…depois me conta…Alberto tá me esperando, temos um jantar hoje…A gente se vê por aí…

Numa esquina Copacabana eu vi ela ir embora e do alto da serra um garoto de vinte anos finalmente disse adeus.

5 thoughts on “Vinte anos

  1. Todo mundo tem que dar adeus um dia. Sua crônca refletiu tão bem o sentimento…Obrigada.

  2. regina mas disse:

    Tontomundo das lembranças que nos deixam saudosos! Lindo texto!

  3. Christinna Costa disse:

    Há vezes em que pensamos que há ciclos que estam terminados, mas despertam assim…de repente.
    E precisam…para assim terminarem definitivamente! Nossa…como sei disso!
    Amei o texto Leo e o adeus do “seu” garoto de 20 anos.

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