Roubada comunitária

Entro no café e lá está ela. Uma tristeza enorme me invade. E o pior é que o lugar está cheio, não tenho como evitar. Anos e anos de experiências traumáticas e a decepção não me abandona. Resignado me encaminho para minha nêmesis: a mesa comunitária.

É claro que o corpo de baile está presente: o hipster de bermuda com o seu Macbook aberto, o casal descolado, e, terror do terror, os solitários variados. Acho que o hipster do Mac já vem com a mesa, deve ser um acessório. Em todas as mesas comunitárias do mundo lá está ele, com a mesma cara concentrada e intensa, como se estivesse escrevendo o grande romance da sua época ou então criando o novo Angry Birds. O casal descolado também é o mesmo aqui, em São Francisco ou em Londres: muito celular, muita foto do prato, muita trocação de referências.

O que mudam são os solitários. Tem lugares em que são solitários genuínos. Estão ali sozinhos e querem ficar sozinhos. Foram parar na comunitária porque não tinha outro lugar ou porque confiam que o hipster do Mac não vai abrir a boca nas próximas cinco horas e que o casal não vai abandonar a masturbação das fotos nos próximos cinco anos. Mas tem os falsos sozinhos, criaturas perversas e sorrateiras, que estão só esperando algum incauto cair na sua rede ou melhor, mesa.

No que você senta já percebe que a mala está tentando o contato visual. Como acontece com os bandidos ou os loucos, o contato visual é a porta de entrada do inferno. Olhou, ferrou. Só resta então assumir o controle dessa carroça descontrolada descendo a ladeira.

A primeira atitude é tentar levar a conversa para um assunto complexo, que não precise de interação. Você tem alguns segundos para adivinhar o tipo de chato que está na sua frente: se for uma mala política, por exemplo, você pode dizer “e o Temer , hein…” tanto faz se o pentelho é de direita ou esquerda, ele vai discursar horas e horas sem parar e, melhor de tudo, alheio à sua opinião. O que você precisa é apenas emitir um “arrã” a cada dez minutos. De resto pode ficar no celular, ler algo, olhar a paisagem que para o chato político tanto faz

Tem tambem a mala com causa. Pode ser qualquer causa, desde a preservação das cabines telefônicas a coisas mais cascudas, que não vou citar aqui porque tenho muito amor à minha caixa postal. A mala com causa parece delicada e simpática, desde que você concorde com tudo o que ela diz. Pode usar a mesma tática: um “arrã” a cada dez minutos. E nem precisa dar o start falando sobre a causa. Ela já começa sozinha.

Só existe uma coisa que você nunca, jamais, em momento algum pode falar com a mala com causa. A palavra “mas”. É um erro fatal. “mas você não acha que as cabines telefônicas…” aí ferrou. A mala fica em pé na cadeira, faz escândalo tipo programa vespertino do SBT. E ainda joga um vídeo sobre o seu “mas” nas redes sociais, que é pras outras malas com causa, qualquer causa, virem atrás de você como marimbondos. As malas e os haters, aprenda de uma vez por todas, são como as formigas e as abelhas, criaturas de uma organização assombrosa.

Na mesa comunitária tem mais variedade de chatos do que tipos de nespresso. E todo dia surgem novos então quando você consegue antídoto para um logo aparecem mais dois. É uma batalha perdida

Por sorte o gerente do café é meu amigo e tive a oportunidade de lhe dizer pessoalmente todo horror que tenho pela mesa comunitária, que eles tinham acabado de adquirir. Contei todas as experiências traumáticas, falei sobre a variedade de malas, tudo tim tim por tim tim. Ele prestou muita atenção e acatou tudo. Mais um ser esclarecido que concorda comigo.

Só fiquei desconfiado dele mandar um arrã a cada dez minutos.

 

(originalmente publicado no Projeto Colabora)

One thought on “Roubada comunitária

  1. Ana Flores disse:

    Genial. Como sempre. Desculpe se não mudo o comentário, mas é pelo prazer de ler as histórias do Léo. Desta vez foi a Roubada Comunitária.

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