No ponto

Estou parado esperando o sinal da rua Humaitá, o da banca, que demora horas. Martín tá comigo na bicicleta, vamos para a escola. Na calçada tem um homem de calça branca e camisa colorida. É a cara do Ibrahim Ferrer, o do Buena Vista Social Club.
 
O 409 vem descendo a rua e o homem dá um assovio com os dois dedos na boca, aquele profissa. O motorista ouve, acena e grita de volta em carioquês castiço:
 
– Fala mermão! Se adianta aí que o guarda tá de butuca.
 
O homem está agoniado com a demora pro sinal abrir. Num gesto deboa vontade, o motorista diminui a marcha. São quatro pistas de trânsito intenso entre o Ferrer do Humaitá e o 409.
 
O herói vai a luta.
 
A primeira faixa é fácil. Na segunda ele dá uma parada, tem carro por todo lado. Com ginga dribla dois motoboys e corre pra terceira.
 
O que se vê uma mistura de balé, capoeira e videogame, como se o Baryshnikov estivesse dançando dentro do Playstation ao som de um berimbau. Ferrer é evidentemente um artista.
 
Falta só uma.
 
As dez, quinze pessoas no sinal estão hipnotizadas pela epopéia urbana que se desenrola. “O melhor da vida é offline” está escrito na janela do 409.
 
Um caminhão da Brahma dá uma folga e o artista/herói chega ao outro lado.
 
Falta correr até o ônibus, que mesmo devagar já chegou longe. Agora Ferrer é também Bolt e Biles. Dá um pique de cinquenta metros pula pra dentro.
A galera aplaude. Mando um wooo-hooooo. Martín tá fascinado.
 
Teve a lição do dia.
 
Civilidade e obediência às regras: zero
 
Empatia e malandragem: dez
 
Média cinco passa.

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