Tubiacanga

Uma revista me pediu para fotografar um bar em Tubiacanga, na Ilha do Governador. A maioria de vocês já passou por lá, só que por cima. Tubiacanga fica numa das cabeceiras do Galeão.
 
Para conseguir pegar o clima de um lugar o ideal é ficar invisível, diz o manual do fotojornalismo. A questão é como conseguir isso. Não é só o visual, é o que você faz, o que diz. Tem que parecer local.
 
Senão você fica tão natural como o João Dória comendo pastel na periferia paulista.
 
Cheguei e sentei numa mesa, enquanto os músicos que iam tocar preparavam os instrumentos. Um casal sentou e puxou conversa. Perguntaram se eu já conhecia Tubicanga:
 
“A primeira vez que vim aqui era tudo mato…”
Pra forçar o sotaque botei tanto S e X que parecia um rádio mal sintonizado.
 
Já comecei mitando, ao menos na minha cabeça.
 
Continuei com o meu número do carioca ixpérto: contei que já tinha assistido jogo do Flexeiras, o time local, no estádio da Portuguesa, ali do lado, detonei o projeto do Galeão de construir mais uma pista, “Uma sacanagem com Tubiacanga!” Falei da saudade que sentia do pastel da Dona Cleusa que vendia ali do lado da Igreja. Tudo trabalhado no Google e na cascata.
 
Chegou mais um cliente e sentou na mesa. Mais público. Aí eu, que estava encantado com a minha própria criatividade, continuei o show. Descrevi com detalhes as vezes que desfilei na União da Ilha, a casa do tio que morava no Moneró e o sabor de um sacolé que só vendia ali na praia da Guanabara.
 
Já estava me sentindo o rei da carioquice, um Bezerra da Silva com pitadas de Romário e Evandro Mesquita.
 
Mais local que os próprios frequentadores do bar.
 
Aí um dos caras que estava na mesa vira pra mim e pergunta, numa comovente mistura de candidez e curiosidade:
 
– Como é morar em São Paulo?

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