Sorvete

Entrei na sorveteria da Dias Ferreira atrás de um sorvete. Nada muito complicado. Um sorvete de limão. Na China tem sorvete de limão, na Rússia tem sorvete de limão, até no Catete tem sorvete de limão.
 
Mas eu estava no Leblon.
 
“Nosso limão é com azeite extra virgem e basilico” (manjericão, no resto da cidade) disse a simpática atendente.
 
Desde criança estabeleci uma política: cada aporrinhação será compensada por um sorvete. Freud e Lacan ficariam orgulhosos da minha esperteza psicanalítica. Funciona bem ainda que, por razões misteriosas, aos quarenta tenha resultado numa certa barriga.
 
Já na colher o azeite começou a brigar com o limão. Entraram na boca aos tapas e pescoções. Na língua o manjericão metido a besta entrou na luta. Uma batalha horrenda. Não fosse a fortuna que eu tinha pago naquele minúsculo copinho teria jogado tudo no lixo. Teimoso e mesquinho, fui até a última colherada.
 
Pronto, o perfeito sistema de compensação, que me acompanhava a décadas, tinha desabado. A recompensa tinha virado a aporrinhação.
 
Eu precisava me reinventar, como manda a TV
 
Quem poderia substituir o fracassado sorvete no meu perfeito esquema psicológico?
 
Chocolate, esse sim nunca decepciona. Lembrei do Galak, do Chokito, do KitKat até do Sonho de Valsa. O esquema estava pronto pra voltar. Atravessei a rua atrás do que parecia ser um paraíso do cacau. Era ainda mais caro que a sorveteria.
 
“O senhor não quer experimentar este chocolate com pimenta?”
 
Não tem Freud ou Lacan que resista ao Leblon.

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