O glamour da profissão

   Esse foi um pedido da editora do caderno Ela: precisamos de um retrato do fulano, ele tá fazendo um show na Lapa e só se fala nisso na cidade toda.  O fulano foi uma das primeiras drag queens do Rio. Pra quem chegou há pouco, antes dos crossdressers vieram as drags, que eram parecidas mas um pouco menos sofisticadas, se é que vocês me entendem.

   Esse fulano era bem menos sofisticado. O endereço que a editora me passou ficava nos confins de São Gonçalo. Quase uma dimensão paralela. Duas horas hora pra chegar e,  grande ingenuidade, marcaram a foto às nove da manhã. Como todos sabem não se mistura manhã com showbizz, isso sempre acaba mal.

   O fato é que consegui chegar nesse cafundó na hora marcada. Um prédio caindo aos pedaços. O cafofo da drag queen era um sala e quarto do tamanho de um armário. Tão sujo e infecto que era impossível ficar ali por mais de quinze minutos sem ter vontade de se jogar pela janela. Acho que a expressão “sair do armário” deve ter sido inventada ali.

   O fulano devia ter uns dois metros de altura. Sempre me perguntei porque travestis e drags são tão altos. Deve existir alguma relação entre a altura e a vontade de se vestir de mulher que a ciência ainda não desvendou. Eu não tinha visto o tal show na Lapa mas a maquiagem e o figurino deviam ser milagrosos para que aquele sujeito conseguisse se apresentar sem que o público chamasse a defesa civil. O cara era muito feio , muito gordo e muito peludo, e os dois metros dele só pioravam a situação. E com aquele cafofo em São Gonçalo como moldura o conjunto era mais assustador que uma obra do Romero Britto.

   Mas o ogro era educado e me ofereceu um café. Quando sentei no sofá, deu pra ver que no quarto dormia um coitado, num colchão encardido com lençóis roxos de cetim. Ele era ainda mais feio que o fulano, só que mais novo e mais peludo. Poderia perfeitamente trabalhar num circo como urso amestrado. Aproveitei para fazer umas fotos da drag queen numa situação doméstica. Algo que, pateticamente,  tentava misturar Sebastião Salgado e Nan Goldin.

   Quando chega o café eis que o cara que estava dormindo acorda, com a expressão assustada de quem não sabia muito bem como tinha ido parar ali. Tive certeza que aquilo não ia acabar bem. Estava chegando o  fatídico momento onde ele ia se dar conta que tinha ido pra cama com a estrela do show e acordado com o Shrek. O que ia acontecer a seguir não seria algo bonito de se ver.

    Não deu outra. O cara levantou e assim que viu onde estava deu um urro que deve ter acordado todo o bairro. E começou a confusão. Pelo que eu podia entender dos xingamentos, ele era um hetero que sinceramente achava que tinha ido para a cama com a Gisele Bündchen. Deve ter misturado LSD com Fanta laranja, ou algo ainda mais maligno. Mas a realidade é que não era o caso de um homossexual que foi dormir com uma drag linda e famosa e acordou com um urso feio. O buraco era bem mais embaixo. Não só era hetero como algum tipo de evangélico fundamentalista furioso. E na noite anterior tinha se tornado, por força dos acontecimentos, gay. Ele não parecia muito feliz com isso. Era o tipo de evento que o Pastor Feliciano não aprovaria.

   Os dois começaram a brigar, tipo Godzilla contra Mothra e eu continuava, por falta de opção, no sofá, assistindo. Pensei: e se um mata o outro? Morrem os dois e eu sou a única testemunha. Ou pior, o principal suspeito.  Como vou explicar minha presença ali? Vou falar pro delegado que só estava ali porque a editora do Ela me pediu? Definitivamente, isso não ia colar. Já imaginava a minha cara na capa dos jornais populares: “Fotógrafo mata travesti e crente em crime passional”. Ou pior ainda, os dois podiam se unir (mais uma vez) para se livrar da única testemunha daquele episódio lamentável. “Fotógrafo morto no cafofo do travecão.” . Nenhuma das opções ia pegar bem no Baixo Gávea. Por sorte consegui ser expulso daquela caverna, de uma maneira que recordo não ter sido muito delicada. Nas circunstâncias, foi um prêmio. A dignidade um pouco arranhada mas ao menos não estava morto.

   Só existem três maneiras dignas de morrer para um fotógrafo que se preze: de uma doença misteriosa num campo de refugiados no meio da África, de enfarte durante uma orgia envolvendo dez modelos suecas, dois anões besuntados e um alce ou  metralhado enquanto acompanha rebeldes durante uma guerra civil. Qualquer outra é motivo de desprezo dos colegas, coisa de amador.

   A editora do Ela não ficou muito feliz com as minhas fotos. Acho que queria esperava algo como um editorial da Vogue, sei lá.  Desconfio que o problema é que ela nunca tinha visto tanta pobreza e cafonice juntas. Tanto faz, o importante é que não seria o meu obituário que  iria envergonhar o sindicato dos fotógrafos.

14 thoughts on “O glamour da profissão

  1. Denise disse:

    Sensacional! To rindo de doer!!

  2. VLU disse:

    Muito, muito bom.
    Você se supera a cada texto.

  3. Luiz Carlos David disse:

    Imaginei você com uma 20mm. nesse set.Fotão!
    O texto é hilário e a ideia das Suecas me pareceu ótima!

  4. Sonia Maria Loureiro disse:

    Como peça de ficção é bem engraçado!

  5. Gislaine disse:

    Hahahahaha!
    Muito bom!

  6. norma7 disse:

    Tridimensional. Vi-me em cena, no set assistindo com vocês. Muito bom.

  7. Viviane disse:

    tomei conhecimento dos seus textos por acaso, via facebook.

    Quando li esse texto sobre “o glamour”, dei muita risada. Muito bom mesmo!

    O momento que vc fala sobre a briga, e vc sentado no sofa, imaginei como a cena de um filme muito engraçado, cheio de confusoes! Teria sido mais engraçado ainda se tivesse ido de taxi, o taxista de 150 anos e meio metro. Ja pensou em fazer videos sobre essas suas peripécias?

    Continue com seu senso de humor!

  8. .maria juraci da silva disse:

    Vc é sensacional ,parabéns !
    Li e fiquei imaginando a cena .
    Conheci os textos através do face .

  9. Caro Leo, não resiti e compartilhei no face.Hilário de Gouveia.

  10. Esse texto daria um curta de dar inveja no Almodovar.kkkkkkkk

  11. Mauricio disse:

    “Mais assustador que obra do Romero Brito”.

    Muito bom!

    Parabéns.

  12. Caio Victer disse:

    Eu não consegui parar de rir ao ler o texto. Você ter reforçado a feiura caricata, e infelizmente real, de São Gonça, onde eu moro por sinal. Conjugado com as duas figuras mais abundantes e antagonicas da cidade, guardadas as devidas proporções, fez do seu texto uma pérola!

    Merece virar vídeo, a la Porta dos Fundos!

  13. regina mas disse:

    Ri muto!!! Você tem a veia… Guarde-a a sete chaves! Sua descrição de cena é perfeita!
    abçs regin@

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