Sarcasmo do século XXl

Falar o que vem à cabeça. Do meu enorme cardápio de defeitos esse é dos que me trouxe mais problemas. Uma coisa é uma pessoa inteligente e esperta falar sem pensar, outra sou eu. O comentário infeliz aparece na minha cabeça já todo errado, além de sujo e torto. Mal olha em volta e sai abrindo caminho para a língua, correndo como alguém de piriri em direção ao banheiro. E assim perco mais um amigo, uma namorada, um parente. Sou um artista do deslize verbal. De tanto receber o conselho, da minha mãe, da minha mulher, até do meu filho de sete anos decidi atender. Como se fosse uma lobotomia, adotei o “Não fala nada para não estragar tudo”.

Eles venceram.

Vou na festinha infantil, o pai de um amiguinho começa a fazer discurso a favor do Bolsonaro. Fala alto, gesticula com veemência, diz que a esquerda acabou com o país e diz que só os militares podem consertar a pátria. Em outros tempos eu levantaria o meu braço direito e gritaria Heil Hitler!, dando início a mais uma treta. Voariam cadeiras de plástico e brigadeiros para todo lado, o palhaço tucano iria dar uma voadora na princesa petralha, só sobrariam de pé os traumas nas crianças. Não mais. Agora escuto, esboço um sorriso e não respondo nada. Nadinha. Cara de paisagem. Apenas me encaminho tranquilamente para a mesa de doces. A família olha com satisfação e orgulho.

Estou conversando com um amigo. Chega uma atriz/celebridade/sexsymbol e fala com ele, que nos apresenta: “essa é fulana”. Nada de comentários “inteligentes”, nada de perguntar se a gente não se conhece de algum lugar, nada de piadas sobre a indústria das celebridades. Apenas esboço o sorriso e ainda pergunto: fulana? E ela, que está em todas as telas e capas, responde: “fulana de tal”. Abdicar das bobagens ainda me dá um ar blasé e cool. Minha vida social está melhorando.

Na reunião de condomínio surge pela milésima vez a discussão sobre o entregador de pizza. Devemos deixar subir ou o morador deve descer? Dando início aquele debate chato e requentado que vai durar horas. Assisto a tudo com um leve sorriso. A época de achar tudo aquilo desesperador e falar isso de maneira irônica e sarcástica -aos meus olhos- ou grosseira e rude -aos olhos de todos os outros- terminaram.

Aparece um post no Facebook de um ativista, reclamando furiosamente dos que são contra a sua causa. Na minha vida anterior eu explicaria, lenta e pausadamente, que se alguém fosse contra a causa dele não o teria entre os contatos. Também lenta e pausadamente tentaria fazê-lo compreender o significado da expressão “pregar para os convertidos”. Agora eu apenas dou like e ponho carinha feliz.

Na reunião de família a prima surge com o sapato da hora, masculino e prateado, e desfila pela sala como se fosse a Gisele Bundchen. Seria a ocasião em que eu perguntaria se ela estava trabalhando na NASA ou em outra agência espacial. Comentário este que iria iniciar mais uma confusão familiar, com brigas eternas e juras de ódio mas apenas sorrio e pergunto: “que lindo! Comprou lá fora?” reação que provoca júbilo e regozijo em todos os presentes. Finalmente sou convidado para os batizados e casamentos.

A vida de bonecão de posto, sem piadinhas, observações metidas a engraçadas, comentários com referências obscuras e críticas aleatórias é de uma felicidade só. Tá faltando agenda para tanto evento social que sou chamado. Bastou calar a boca para o tapete vermelho se desenrolar.

Estou tão bem que já estabeleci uma nova meta: não só deixar a ironia e o sarcasmo de lado como passar a fazer comentários positivos e encorajadores. Apoiar tudo o que as pessoas disserem.

A autoajuda é o sarcasmo do século XXl

 

(originalmente publicado no www.colabora.com.br)

4 thoughts on “Sarcasmo do século XXl

  1. Sigo seu blog e me identifico com muitas crônicas. Esta então é a minha cara,,, rsrsrs Só gostaria de fazer uma sugestão, por favor não se ofenda, que tal uma revisão de texto? Noto alguns erros provocados provavelmente pela pressa. Aproveito para oferecer os meus serviços… rsrsrsrs

  2. regin@ disse:

    Rindo um bocado…. Acho que eu iria preferir vc do outro jeito, mas aceito esse novo… risos…um abraço!

  3. Mariana disse:

    Maravilha. Gostaria de ter esse estômago. O máximo que eu consigo é um silêncio pétreo, para que a pessoa perceba, pelo menos, que está falando pra pessoa errada. Talvez a sua próxima fase, “encorajadora”, seja até mais divertida… Espero que conte sobre ela, vai ser ótimo acompanhar essa metamorfose indigesta.

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