O eterno status provisório

– Os bancos de couro estavam no pacote premium de acessórios, vieram juntos com o ar condicionado…

– Ar condicionado!!!???

O espanto e admiração tomavam conta da sala

– Pois é, vocês não imaginam a diferença que faz…

– E o motor?

Um suspense se formava. O proprietário administrava o seu momento de glória com habilidade. Esperava alguns segundos antes de responder

– Seis cilindros, 4100cc.

E completava para a platéia embevecida

– Passa dos cento e cinquenta!

A inveja e a admiração tomavam conta do ambiente e todos saiam numa romaria invejosa conferir o carro que acabava de ser adquirido.

Quando eu era criança, nos anos 70/80 a compra de um automóvel era um grande momento. Era o principal símbolo de status da classe média. Carro zero então, nem se fala, só faltavam fogos de artifício e tapete vermelho. E o assunto sempre estava presente em almoços ou reuniões familiares. Sempre tinha alguém esperando um modelo novo sair, ou uma rodinha comentando as vantagens de um motor sobre o outro, etc e tal.

Com relógios era a mesma coisa

Tinha o que podia mergulhar quinhentos metros, tinha o que só atrasava um segundo a cada mil anos, tinha o que valia milhões e estava na família há mais de dez gerações. As pessoas enchiam a boca para falar Rolex, Omega ou Patek Philippe. Nem os suíços tinham tanta obsessão com o registro do tempo. O dia em que o pai presenteava o filho com um relógio era o ápice da adolescência. Ali se separavam os homens de classe média dos meninos de classe média. Um rito de passagem comparável à carteira de motorista aos dezoito.

E as canetas?

Tinha que escrever algo importante, assinar uma escritura, dar o sim do casamento no registro civil? Se não fosse de Montblanc ou Parker 51 sua vida estava condenada à mediocridade eterna. Caneta Bic só era admitida, a contragosto, no dia a dia, para a lista de compras anotada no papel do pão ou recado de telefone. Cheque? Só se fosse de valor baixo. A caneta griffada no estojo de veludo era um presente clássico do avô para o neto. A cara de decepção do neto que esperava receber um autorama também era outro clássico.

Acho que, ao menos na classe média daquele tempo, um homem só ganhava respeito irrestrito com um bom relógio, carro decente e caneta cara.

Por sorte o tempo passou

Carro? Virou a coisa de tiozão cafona.

Se voce vai de carro numa festa de fotografos/designers/musicos/atores, por exemplo, tem que dizer que pegou emprestado do seu avô excêntrico ou que . Ou então, melhor ainda, estacione dois quarteirões antes, pegue um ônibus, ponha a cabeça para fora para que todos na porta o vejam e desça no primeiro ponto. É a melhor maneira de chegar causando. Carro é poluidor, carro gasta, carro atrapalha o transporte público. Tudo de ruim. Se for grande então, pior. Esportivo então, pior ainda, é caso de internação por surto de coxinhice.

Relógio? Tem hora no celular

Um acessório geriátrico, se for dos modelos normais. Tipo bengala mas sem o charme desta. Um ou outro hipster pode admitir algum que tenha história de família, desde que seja de ponteiros e tenha fundo azul turquesa. Um Casio digital vintage também tá valendo, ainda mais se vier acompanhado de bigode irônico. Se você não entendeu, saia pela rua e conte o numero de pessoas com menos de vinte e cinco usando relógio de pulso. Pois é.

Caneta? Serve pra quê mesmo?

Montblancs e Parkers são usadas atualmente apenas para assinar extrema unção fashion e atestado de óbito social. É mais fácil uma criança adivinhar a função de um gramofone do que a de uma caneta-tinteiro. Fora do circuito ABL – Antiquarius – Confeitaria Colombo pode ser confundida com uma arma de defesa pessoal. Ou um vibrador

Ainda bem que me livrei desses símbolos de status rídículos, fúteis e desnecessários. Sou moderno e antenado. Agora só quero saber de celular, televisão e tablet.

2 thoughts on “O eterno status provisório

  1. Christinna Costa disse:

    Ri muito Leo!!!! Adorei o texto! Mas é por aí…carro, relógio e caneta! Seus símbolos atuais estão tão pobres….kkkk

  2. norma7 disse:

    Usando um adjetivo bem antiguinho: Adorável …hehe!

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