A luz que resta

DiaDosPais2

Acabava a aula e íamos correndo para o portão de saída. A confusão que se formava era bem assustadora para uma criança pequena, que só enxergava as pernas dos adultos. As coisas só ficavam bem quando o encontrava, acenando e sorrindo, no meio da multidão. A gente se abraçava e na volta para casa ele ouvia as angústias da escola: as questões de matemática, o valentão da outra turma, não conseguir bater uma falta no ângulo. Todos os problemas ficavam pequenos quando ele segurava na minha mão.

A escola virou colégio, o colégio faculdade e o herói da minha infância foi se tornando uma pessoa normal, com vários defeitos. Um pouco ultrapassado, as ideias um pouco antiquadas, talvez acomodado. Comecei a achar que no seu lugar eu teria ido mais longe, teria ousado mais, teria feito coisas mais incríveis. Comigo seria diferente, muito melhor. Aos vinte anos voce é o seu próprio herói.

Há alguns anos, um pouco depois do meu filho nascer, ele começou a ter problemas de memória. Achei não era nada demais, coisas da idade, afinal sempre tinha sido um pouco esquecido. Eram os primeiros sinais de Alzheimer.

No próximo domingo, dia dos pais, Martín completa sete anos. O tempo de entender como a vida muda com filhos. As escolhas, as mudanças de rumo, os sacrifícios que voce faz, com toda alegria, para que aquele menino ou menina tenha tudo que for necessário para ir em frente. Foi então que consegui entender o seu caminho, o que deixou para trás, as coisas das quais ele abriu mão e, agora claro, porque ele fez isso. Como se pede desculpas para alguém que não lembra o que aconteceu?

Há algumas semanas fomos ao teatro. Apesar de ficar cada vez mais confuso com o que não reconhece, ele ainda gosta de sair. O Alzheimer vai desligando as lâmpadas da casa uma a uma e só te deixa assistir à chegada da escuridão. Agora é tentar aproveitar a luz que resta. Nesse dia do teatro ele estava muito feliz, como sempre fica quando estamos juntos. Fui pegar os convites e o deixei na entrada, esperando. Quando voltei não estava mais. Fiquei assustado, com medo de tê-lo perdido. Procurei por todos os lados, era uma estréia, começou a bater um desespero.

O encontrei acenando e sorrindo, no meio da multidão.

 

5 thoughts on “A luz que resta

  1. Nivia Eutrópio disse:

    Perdi meu pai há 12 anos também com Essa doença que o transformou em outra pessoa em cinco anos,após a descoberta.Quando tinha um transe daquilo que foi sempre me perguntava: filha essa minha doença ainda não tem cura…. Ainda não meu pai….Pega na minha mão e dizia nunca me deixe sozinho não tenho mais domínio das palavras, lugares,pessoas e nomes….Ficamos juntos, todos os seus filhos e minha mãe até o momento da partida.

  2. regina mas disse:

    Que lindo texto Leo!! Lindo, emocionante e verdadeiro! Hoje não ri, fiquei engasgadíssima com lágrimas nos olhos. Parabéns pela beleza do texto!

  3. Norma Cardoso disse:

    Que beleza de texto! Parabéns pelo dia de hoje.

  4. BIA MANSUR disse:

    Que texto incrível! Como adoro esse blog.

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