Do chão não passa

Grazi2

Julho de 2009. Finalmente consigo comprar o apartamento que queria. Levo minha mãe para conhecê-lo. Ela entra, dá uma olhada rápida e decreta: “dá pro gasto mas nunca vi um piso tão horrível na minha vida. Não venha morar aqui sem trocá-lo.”

Foi o único comentário. A síntese é um dom.

Por preguiça, avareza e pirraça deixei o chão como estava. Quem se importa com pisos?

Combinei com Clarice dela vir aqui em casa para umas fotos. Ela me liga da rua: “oi, tô chegando com uma amiga, daqui a pouco tô aí.”

Quando abro a porta estão Clarice e a amiga. Que é a Grazi Massafera.

Não sei como é o dress code para receber sex symbols em casa às dez da manhã mas certamente deveria ter vestido a camiseta sem furos. E feito a barba. Os pés descalços também não me pareceram adequados. Se não estivesse na minha própria casa poderia ser definido como um sem-teto. Talvez o meu figurino fosse o adequado para receber cobradores ou fiscais do Imposto de Renda.

Grazi se encanta com o pianinho do meu filho no meio da sala. “Quando era criança sonhava em ter um piano desses!” Nos filmes de 007 o agente secreto precisa de carrões, restaurantes luxuosos e missões impossíveis para impressionar a bond-girl. Como diria a Bela Gil, dá pra trocar tudo isso por um pianinho. Enquanto devaneio sobre poder e sedução a moça já está instalada na banquetinha, tocando como se não houvesse amanhã.

– Me filma?

– Claro

O que poderia dar errado?

Grazi posta o video. Pergunto quantos seguidores ela tem. Sete milhões. O número acende uma luz amarela na minha cabeça mas não dou atenção, prefiro continuar olhando o concerto na sala. Mais um erro para minha coleção.

De tarde me liga um amigo: “sua casa tá no Ego(*), aquele site de celebridades!” Se sua casa está no Ego é porque você é famoso. Se voce é famoso precisa que a sua mãe saiba disso, dizem as vozes imaturas e mal resolvidas que moram na minha cabeça. Como nada é mais efêmero que a fama, ligo imediatamente.

– Mãe, a minha casa tá no Ego!

– O que é Ego?

– Um site de celebridades. A Grazi postou um video da casa e foi parar lá.

– Quem é Grazi?

Faço uma breve descrição da indústria cultural e da era das celebridades. Dá pra perceber o tédio do outro lado. Em todo caso ela diz que vai dar uma olhada.

Desfruto da notoriedade, ainda que na condição de papagaio-de-pirata. Ninguém me conhece mas que se dane, ao menos a sala da casa é famosa.

Em menos que quinze minutos minha mãe liga de volta:

– Voce está sempre inventando novas maneiras de envergonhar nossa família. Podia usar sua criatividade para outras coisas.

– Ué, qual o problema da fama?

– Leia os comentários. Quando voce vai aceitar que mamãe sempre tem razão? Especiamente quando te critica.

Abro o site. Leio o primeiro comentário debaixo do vídeo:

Que horror, essa é a casa dela? Nem na minha casa eu uso esse piso cerâmico 30×30.”

O maldito piso. Será que foi mamãe que escreveu isso? O segundo é sarcástico:

“Não importa o piso da casa, e sim o conteúdo

O terceiro, além do sarcasmo tem numeros precisos. Uma combinação irresistível, devo admitir.

“30×30, 21,90 o metro quadrado. Só faltou a telha de amianto.”

Tem mais

“Nossa os fãs ficam ofendidos mesmo né? Esse piso é o mesmo usado na Minha Casa, Minha Vida. Fato.”

Minha Casa, Minha Vida? Sera que eles descobriram que votei na Dilma? Não vai ter golpe!

“Vem com esse papo de simplicidade não. É pão durice ou falta de bom gosto mesmo. (…)O fato de ela ter origem simples não quer dizer que possa usufruir de bens materiais que proporcionem bom gosto e mais beleza no seu cotidiano. O piso é barato mesmo e não é um primor de beleza.”

O massacre continua. O Brasil agora tem três vilões: o Cunha, o David Luiz e o piso da minha sala.

“(…)A questão central é o piso feio e barato da suposta casa de uma estrela global, que denotaria desleixo, mau gosto ou mesmo avareza.”

Avareza…esqueceram da preguiça e da pirraça. O próximo me faz sentir um dos protagonistas de “dois filhos de Francisco”

“… não venha falar da origem “humilde” dela para justificar o suposto mau gosto dela, pois até quem nasce numa tribo indígena é capaz de criar bom gosto convivendo por mais de 10 anos no RJ trabalhando na Globo.”,

A enxurrada de críticas quase me faz tomar uma atitude em relação ao piso. Penso no transtorno, na poeirada, no entra e sai de operários, na satisfação da minha mãe e dos leitores do Ego. A preguiça, a avareza e a agora renovada pirraça vencem outra vez.

As vozes da cabeça decretam: do chão não passa.

 

(*) http://ego.globo.com/famosos/noticia/2016/04/grazi-massafera-posta-video-em-que-aparece-tocando-piano-infantil.html

6 thoughts on “Do chão não passa

  1. Juliana Reis disse:

    Obrigada pro me fazer rir no dia de hoje.
    Provavelmente, vc o terá salvado.
    O dia.
    O meu dia.
    :-/

  2. regina disse:

    Ótimo seu texto e, como sempre, bem humorado! Gostei!
    abçs
    regin@

  3. regina disse:

    O chão não é tão feio e o pianinho é uma graça… Queria ter um desses!

  4. Mariana Paiva disse:

    Que delícia seu texto. É um vento fresco nesses tempos abafados, em vários sentidos.

  5. Mariana Paiva disse:

    Outra coisa, seu piso é ótimo. Não mude !

  6. Marcos disse:

    Leo Aversa. Vc é filho da Lea Aversa?
    Só curiosidade, conheci a Lea faz 200 anos.

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