Voltando pra casa

 

Ontem cheguei em Congonhas de noite, apressado, correndo para pegar o voo de volta pro Rio. Quando estava entrando no embarque me veio o flashback.

Depois de uma certa idade o seu guru não é mais o Umberto Eco ou Paulo Coelho. É a sua própria memória.

Me vi quarenta anos atrás esperando o meu pai voltar do curso de francês. Ele ia todas as terças e quintas, de sete as nove. Ficava acordado porque sabia que ele ia trazer o chocolate que eu gostava. Às vezes, para fazer suspense, dizia que tinha esquecido, que não deu tempo, que não tinha achado. Eu pegava a capanga dele, revirava e estava lá. Ainda hoje seria capaz de descrever o barulho da chave abrindo a porta, o que tinha na bolsa, o gosto do chocolate.

Dei meia volta e fui procurar as balas preferidas do Martín pelo aeroporto. Quase perdi o avião. Quando cheguei em casa ele já estava dormindo. Deixei o pacotinho do lado da cama. Hoje de manha ele veio com as balas na mão me dar uma abraço

Daqui a quarenta anos não estarei mais por aqui. As minhas fotografias, as poucas que sobrarem, estarão mais amareladas e gastas do que uma capanga. Mas talvez eu volte na cabeça de um homem de meia idade à caminho de casa. Talvez essa imagem apareça com uma lágrima e um sorriso e o faça dar meia volta.

E um menino, quem sabe com um nariz ou olhos parecidos com o meus, vai acordar feliz.

Tin

6 thoughts on “Voltando pra casa

  1. lea disse:

    suave como a foto… lindo

  2. Ana Flores disse:

    Lindo texto! Adorei! Muita sensibilidade.
    Parabéns.

  3. Linda a sua crônica; leve e impregnada de sensibilidade lírica. Obrigada!

  4. regina disse:

    Que lindo e sensível seu texto… Felicidades para o Martín e nunca esqueça as balas ainda que perca o voo!

  5. Mariana Paiva disse:

    Snif.

  6. GUILHERME LEVY disse:

    Me lembrou de um tio falecido precocemente.
    E seus textos são dos melhores que já li.

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