Ícone fashion

No almoço de domingo o veredicto vem junto com a sobremesa:

– Voce já tá velho demais para andar o dia todo de camiseta. Faça-me o favor! Uma camisa ao menos. Seu avô dormia de terno e gravata.

Vou ao shopping para agradar meus antepassados. Se não discuto com madame, muito menos com minha mãe. Uma camisa branca vai resolver.

Na vitrine tudo é lindo. Vejo os manequins, altos, magros, bem vestidos, a camisa branca que preciso perfeitamente alinhada ao corpo. Tanta perfeição me faz entrar naquele templo da elegância moderna. Percorrendo as araras tento encontrar alguma do meu tamanho, “M”. Até tem, mas tudo “slim fit”. Slim, fit, slim fit, slim fit…Alguma normal?

– As camisas slim fit tem um corte mais atual, contemporâneo, explica o entediado vendedor, como quem mostra uma Ferrari para um Sem Terra.

Experimento no provador. Se slim fit é o contemporâneo, meu corpo é medieval. Medieval na forma, pré-histórico no conteúdo. A camisa está apertada, as mangas são enormes, pareço um bonecão de posto de gasolina balançando no meio da rua. Mamãe não vai gostar, vovô vai revirar no túmulo.

O vendedor me olha com desprezo. Conheço esse olhar, é o mesmo dos meus amigos gays quando chego numa festa. Uma mistura de horror, pena e constrangimento (desse bullying fashion dos gays contra os heteros o Jean Wyllys não fala!) Voltando à loja: tento me safar com uma tática diversionista:

– E sapatos, tem?

O que ele traz aperta dos lados e sobra um quilometro na frente. Parece coisa de circo ou congresso de ortopedia. Pergunto se tem algum com forma de pé e não de lacraia. A moda é assim, garante o vendedor, enfadado com a minha falta de cultura e informação. Sou um ianomâmi perdido em Manhattan. E o maldito percebeu isso no segundo em que entrei na loja. O Ianomâmi ao menos tem mais cultura e estilo.

Ultima tentativa:

– Quem sabe uma calça? Preciso de uns jeans novos.

Ao ouvir a expressão “uns jeans novos” o vendedor faz uma cara de pavor, pede os sais e desmaia. É acudido pelo gerente, que se comove com a sua situação. Acho que ele está encenando só pra poder fugir. O gerente manda outro para a missão impossível. Que tipo de “jeans” o senhor quer? Skinny? Bootcut? Straight?

– Ahnnn..normal, uns bolsos na frente, outros atrás, duas pernas…

O cara bufa e revira os olhos, “O ianomâmi é metido a engraçadinho”, dá pra ler no pensamento dele. Vai me enxotando para o provador, deixando claro que a minha presença na loja está espantando os outros clientes.

A calça me transforma. Deixo de ser um daqueles boneco de posto e viro um de Olinda, de carnaval. O rídiculo é igual ao diabo, se apresenta de infinitas formas. O desafio agora é sair do templo da elegância moderna com alguma dignidade. Levo um par de meias. “Nada pode dar errado com meias”….murmuro baixinho. O vendedor me olha com pena e me acompanha até a saída. Acho que é para garantir

No almoço seguinte o veredito já vem antes do prato principal

– Quando voce vai aprender a combinar as meias com o resto da roupa?

2 thoughts on “Ícone fashion

  1. Norma de Andrade Cardoso disse:

    Rindo das analogias 15 minutos após termino leitura. Lamentei … (por você) – rs

  2. Camarada, só tenho uma coisa a dizer: “tamo junto”.

    Calça skinny, camisa slim, tudo isso é estranho para mim (ih, rimou).

    Eu estou começando a pensar em adotar um jeito Demis Roussos de vestir…

    http://static1.purepeople.com/articles/7/15/41/37/@/1714042-demis-roussos-le-20-novembre-1978-sur-950×0-1.jpg

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