Vem chegando o verão

arrastão

No primeiro arrastão da temporada saem da toca dois personagens tão típicos do verão carioca como o mate e o biscoito Globo:

– O menino psicopata do Rio – Cevado a Red Bull na classe média do balneário, o psicopata não se conforma com aquela gente diferenciada conspurcando seu playground no domingo de sol. Para ele sobram ônibus e falta exército. O que essa gente tá fazendo aqui? Quem deixou entrar? Cadê o porteiro, cadê o segurança? Onde está a PM pra mandar essa classe C de volta pro morro? Injustiça social, desigualdade, nada disso é com ele, é coisa de “comunistazinho tentando implantar a ditadura bolivariana e gayzista”. “Volta pra Cuba!” é o seu bordão e “Crédito ou débito?” o seu maior dilema existencial. Decepcionado com o Brasil, país pobre e cafona, está sempre ameaçando uma mudança para Miami, que nunca acontece. Sonha com o fechamento do Rebouças nos fins de semana e a implantação do passaporte baseado na escala Pantone. Ama o arrastão, é a grande chance de apertar ainda mais o torniquete.

– O neo-brizolista kamikaze – Veio da mesma classe média mas foi criado tomando danoninho e soltando pipa no ventilador. É um ativista online, que nunca pisou numa favela ou mesmo num conjunto residencial mas já leu 578 livros e assistiu 693 documentários sobre o assunto, além de conversar durante dez minutos por semana com sua empregada doméstica, que ele faz questão, revolucionário que é, de chamar de secretária do lar. Decepcionado com o Brasil, país reacionário e careta, está sempre ameaçando uma mudança para Berlim ou Lisboa, o que nunca acontece. Mesmo com todo seu engajamento virtual se acha responsável pelo quadro social, então dá cinco reais por mês para uma obscura creche em Bangu, seguindo a filosofia do “por eles mas longe deles”. Como sua generosidade e as sessões de psicanálise não aliviam a culpa, acha que a violência urbana é um castigo mais que merecido. “A burguesia merece punição” é o seu mantra. Tem orgasmos ao ver assaltos na TV. Ama o arrastão, seu grande sonho é ser imolado durante um, o que o levará ao Paraíso onde 72 estudantes virgens de sociologia o esperam.

Os dois personagens vão brigar pelas redes sociais até a chegada das águas de março, quando hibernarão até o primeiro e desejado arrastão anunciar a chegada da nova estação.

6 thoughts on “Vem chegando o verão

  1. Juliana disse:

    Adorei. Muito bons personagens secundarios…
    Mas os protagonistas desse lamentavel enredo continuam sendo a policia truculenta e meninos possuidos e desafortunados, né?

  2. regina mas disse:

    Você acha isso mesmo, Leo? Acho que se esqueceu de que também há famílias classe C, D, B ou seja lá que classe for, que vêm de longe para apenas tomar um banho de mar e um pouco de sol e que se sentem amedrontadas com os arrastões e agressões. Qual seria a solução, eu não sei, visto que não sou parte da segurança, da polícia, do Estado. Sou apenas uma cidadã que paga impostos e cumpre seus deveres.
    Não sei onde você quis chegar com seu artigo… Não entendi mesmo. Sei que há de tudo numa sociedade mas sempre tive receio em radicalizar e achar que toda uma classe é igual. Você é inteligente e sabe que não é bem assim. Sou a favor do túnel, do metrô e de tudo que facilite o ir e vir das pessoas, como sou a favor de que se possa ir à praia se medo.

  3. valeria brion disse:

    Desculpa, Leo, mas discordo de você.
    Adoro as suas crônicas, e não costumo me manifestar.
    Trabalho doze horas por dia, de segunda a sexta.Portanto, não posso ser considerada classe média burguesa , branca de zona sul.
    Final de semana seria para relaxar, passear na orla, mas o cenário que presenciei foi de total absurdo, pânico, insegurança, desrespeito, furtos e impunidade.
    Só quem passou por algum sufoco com os desordeiros sabe do que estou falando.
    Não se trata de classe A, B, C ou D. Em todos os nichos há pessoas honestas e trabalhadoras assim como as com deficiência de caráter.

  4. Joao disse:

    Que maniqueísmo besta! Não há nada além disso? Não há os que pensam que se mantivéssemos o ritmo das reformas institucionais dos anos 90, como a tributária, judiciária, privatizações, autonomia do BC, combate e não promoção da corrupção, nós estaríamos crescendo a 7% a a., a pobreza estaria sendo reduzida tanto pelo crescimento econômico e, consequentemente, melhores salários, quanto por um estado com mais recursos para assistir essa juventude abandonada?
    Neste país quem propõe acabar com a pobreza via estímulo ao capitalismo é acusado de nazista! Quando as consequência da pobreza do país sobrevêm como tragédia, aí ficamos nesse jogo cínico de a culpa é das elites. A culpa é de quem não enxerga que a causa básica de nossos males é essa mentalidade anti capitalista.

  5. Diogo disse:

    Eu sou o quê, então? Moro no subúrbio, trabalho e faço pós à distância por não ter tempo de fazer presencial. Aí eu vou na praia fim de semana, me revolto com esses pivetes roubando tudo na praia, me encaixo em um dos dois perfis? Cadê o perfil gente-de-bem-que-não-aguenta-mais-essa-cidade-sem-lei?

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