Super-herói

Quando criança minha idéia de futuro era virar super-herói. Tinha como certo que mais cedo ou mais tarde me tornaria o Super-Homem ou o Batman ou, na pior da hipóteses, o Homem-Aranha. Era só uma questão de tempo. Mas o tempo foi passando, passando e um outro fenômeno está acontecendo.

Notei a mudança aos poucos: primeiro as mulheres, que não olham mais. Não que eu fosse algum tipo de Brad Pitt ou George Clooney, longe disso, aliás bem longe, mas sempre havia as míopes e as que me confundiam com outra pessoa. Era o que bastava para que a minha auto estima desse uma pedalada na realidade, garantindo algumas migalhas de ilusão. Mas ao sair do radar das distraídas e das que não enxergam bem, entrei no vácuo. Nas festas, nos bares da moda, no show da banda incrível da semana, em todo lugar virei uma abstração. Não foi só isso, outros sinais também surgiram: a modelo troca de roupa na minha frente, a desconhecida conta suas peripécias sexuais sem se importar com a minha presença, entro no banheiro femenino por engano e ninguém repara. Sou um Fred numa eterna Copa do Mundo.

Os vendedores de loja são outro capítulo. Entro e ninguém se mexe. Antes era recebido com fogos de artifício, como um bilhete premiado com duas pernas e dois braços. Descobri que todo o comércio, a moda e a publicidade são dirigidos só ao grupo a que pertencia, os solteiros sem filhos. São os que tem dinheiro sobrando e nenhuma preocupação com o futuro. Aliás, bons tempos esses, eu entrava para comprar um par de meias e saia com três pares de tênis, quatro calças e um terno que jamais usaria. E nem aí para os preços. Agora entro para comprar uma camisa, faço mil contas e comparações, peço desconto e se me perguntam se quero outra coisa caio na gargalhada. Não é à toa que num shopping ninguém me vê.

E finalmente a Lei. Blitzes, barreiras policiais, alfândegas, nada disso me diz mais respeito. Passo por tudo como um fantasma. Ninguém me para. Não é que eu tenha cara de santo, é que já não tenho cara de nada, um zero à esquerda. As autoridades acham que um sujeito da minha idade, de óculos de grau e cadeirinha de criança no banco de trás não tem a coragem necessária para cometer qualquer crime, no máximo atrasa a conta de luz e ainda liga para a Light pedindo desculpas. Na blitz da Lei Seca param o cara da frente, param o cara de trás, e comigo nada, parece que fazem de propósito, um bulliyng torto. Passo fazendo caretas e gestos obscenos e eles nem aí. Chega a ser humilhante.

Acho que cheguei naquela fase em ninguém teme algum arroubo juvenil da minha parte mas ainda não ganhei o respeito dos cabelos brancos. É um tipo de limbo etário, que faz que a sociedade me trate como um ser impalpável e imaterial. Se a vida é um palco, me colocaram lá no fundo, no papel de árvore.

Há um consolo. Posso dizer agora que, sem querer, meu sonho de criança se realizou: me tornei um super-herói.

O homem invisível.

One thought on “Super-herói

  1. regina mas disse:

    Delicioso seu texto!! Acho que também virei invisível… com uma diferença: nunca sonhei em ser a Mulher Maravilha!!
    Seus textos me fazem bem!
    abços
    regin@

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