Saudosismo

No domingo de sol estava eu a comprar revistas numa banca do Humaitá quando reparei que na padaria ao lado estava se formando uma fila. Adoro filas. Filas e senhas. Nem quero saber pra que é, vou logo entrando. Cada um se diverte como pode. Essa da padaria era para comprar frangos. Aqueles que ficam rodando no forno com vitrine, a famosa TV de cachorro. Eu nem estava com fome, mas fui fisgado mais uma vez pelo meu saudosismo, pelas memórias da infância. Lembrei daquele frango que vinha mal empacotado em papel, gordura pra todo lado, a disputa facínora com meu irmão pelas melhores partes e o engasgamento com a farofa. Um clássico. Toda aquelas felizes recordações estavam ao meu alcance por apenas vinte e sete reais. O que poderia dar errado?

Ainda chafurdando na nostalgia comecei a prestar atenção na conversa do casal atrás de mim. Eles comentavam não só o tamanho mas também características dos frangos à venda naquele dia. Percebi na hora que toda a fila era íntima da padaria e da sua TV de cachorro. Falavam dos galináceos como quem comenta a escalação do Flamengo. Uma confraria volátil. Eu, criado soltando pipa no ventilador e jogando bolinha de gude no tapete, comecei a ficar inseguro. Só tinha comido, nunca fui a pessoa que ia lá comprar. Na minha ingenuidade, achei que era so pagar, pegar e ir embora, como num supermercado. Na, na, na. Precisava escolher, e escolher muito bem, precisava saber das sutilezas das sobrecoxas e dos detalhes miúdos do drumet. Não era só o tamanho e o ponto. Nada disso, pensar de tal maneira já mostrava o meu total despreparo para tarefa. Notei que a moça que estava lá na frente analisou um espeto inteiro antes de fazer sua escolha. E ficou com o menor frango. Ela sabia de algo que não se aprendia em MBAs ou assistindo TEDs.

Logo à frente estava um senhor de bermuda, camisa social e chinelo. Cara de militar aposentado ou síndico na ativa, com aquela eterna expressão grave que não era aliviada nem num domingo de sol. Quando chegou a vez dele o atendente tremeu como chef na frente de crítico. O coroa apontou para o primeiro espeto. O cara mostrou com orgulho e ele o examinou detalhadamente. Fez um sinal de negativo. Apontou para o espeto de cima. Sem reclamar, o rapaz atendeu. Assim foram até o quinto e último. O sujeito era um sommelier de penosas. Parecia sentir o terroir de cada ave e mudava os espetos como quem troca de safras. No final escolheu o o último da fila, um trabalhão para tirar, mas o vendedor, sem cara feia, fez a vontade do cliente. Moral é tudo na vida.

A fila seguiu e o atendente gritou: próximo! Era eu. Ao perceber o trouxa inexperiente, o rapaz abriu um sorriso sarcástico e, piscando para a caixa, perguntou: vai escolher qual? Resolvi blefar: o segundo da terceira fila, disse com uma displicência mal ensaiada. Quase ouvi os risinhos nas minhas costas. O blefe não tinha dado certo. Mudei de tática. Não, o terceiro da segunda fila. Tem certeza? Não! Peraí… Liguei para minha mãe. Ninguém atendeu. Procurei no Google “terroir de frango”. Nada. Então amigo, vai levar qual? Entreguei os pontos: Qual o senhor acha melhor? Me senti um turista pegando táxi na rodoviária. O sujeito mal conseguia disfarçar o riso. O resto da fila também. Esse aqui tá ótimo, é o melhor…pode levar. Derrotado, peguei o embrulho e fui arrastando meu fracasso pela rua.

Cheguei em casa e já levei a primeira bronca: tá atrasado! Lembra que íamos almoçar com fulana e beltrano? Onde você estava? Assim não é possível! Meu filho olha aquele pacote, abre e faz cara de nojo: que porcaria é essa?

O sol continuava lá fora.

Não é à toa que sou saudosista.

3 thoughts on “Saudosismo

  1. Adriana disse:

    Você é ótimo!

  2. Senso de humor e de oportunidade, uma maravilha, muito obrigada!

  3. Leonardo Amando disse:

    Sem cerimômia vos digo :

    És um pereba nos frangos, o que não deixa de ser até elogioso, em face da galinhagem generalizada em que se transformou esse país. Por outro lado, não do frango que gira, é claro, muita verve e simplicidade, um Manoel de Barros ao ponto, sem girar muito na TV de cachorro.

    Demais !
    Abraços

Deixe uma resposta