O sem-cerimônia

“Fulano é ótimo, super sem-cerimônia!”

Você, ingênuo e inocente, logo imagina um ser libertário, desprovido das amarras pequeno-buguesas, um artista iluminado, livre de regras, que deixa todos à vontade com seu calor fraternal. Nada disso. Você está prestes a conhecer uma das bestas-feras modernas, o sem-cerimônia, aquele que consegue ser folgado, grosso e mal-educado ao mesmo tempo e ainda assim ser tratado como guia espiritual.

Eu não sei em que maldito momento a gente começou a implicar com a cerimônia, a achar que ser minimamente educado, respeitar regras básicas de convivência era coisa de tia velha, um hábito de octogenários vestindo blazer com brasão e foulard.

O sem-cerimônia só faz o que quer, desconhece por favor e obrigado, tem aversão a horário marcado e sempre fala alto, muito alto. Ultimamente tem sido valorizado como símbolo do espontâneo e do genuíno. Esquecemos que nosso default latino-americano já é a esculhambação total e se até isso já está sendo opressor demais é por que chegamos ao nível anterior à pedra lascada. Uma coisa é um japonês cansado da cerimônia do chá ou um alemão pensando em chegar cinco minutos atrasado só pra fazer pirraça. Mas nós, habituados ao vale-tudo do cada-um-por-si, celebrarmos a versão anabolizada da grossura nativa é um convite ao suicídio coletivo. E a praga está se espalhando, os sem-cerimônia estào tomando conta de tudo. É o motorista que avança o sinal porque tem preguiça de frear o carro, é o convidado que põe o pé na mesa porque está cansado, é o político que ameaça quebrar o país porque o valor da propina não está do seu agrado.

Minha solução é o centro de recuperação de sem-cerimônias, o CRESCER: o sujeito seria obrigado a andar o dia todo de fraque, só almoçaria se estivesse na porta do refeitório pontualmente às 12:32:25 e levaria choques elétricos ao interromper uma conversa dos guardas. Água só pedindo por favor três vezes e a porta do banheiro só abriria ouvindo um “com licença” a 50 decibéis, nem mais nem menos. Celular à mesa no almoço
faria o interno perder o jantar.

E, é claro, seis meses na solitária para quem sai na rua para pedir a volta da ditadura.

One thought on “O sem-cerimônia

  1. regina mas disse:

    Olá Leo, concordo em quase tudo com você. O fato de alguém ser espontâneo não implica falta de educação. Quando a espontaneidade chega às raias da falta de ética e do prejuízo ao próximo, aí sim, há que se tomar cuidado.
    Em relação à volta da ditadura, isso é mais do que ser sem cerimônia, é cegueira, é ignorância, é torcer por um retrocesso no país.

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