Malandragem

O celular tocou no meio de um trabalho. Como o número era familiar não tinha como não atender.

– Consertei o chão do vovô. Posso pedir dinheiro pra ele?

O primeiro reflexo é responder “Claro!”, desligar e continuar trabalhando. Lembro a tempo que estou falando com uma criança de cinco anos que, por acaso, é meu filho. Melhor dar atenção agora que pagar o psicanalista depois.

– Como assim? O que você fez?

– Tinha um pedaço do chão solto, eu consertei. Posso cobrar dele?

Aí é que mora o perigo. O momento em que uma palavra errada pode por toda a educação a perder. Um não como resposta pode significar tolher a iniciativa do menino. Se respondo que sim posso mostrar o valor do trabalho, algo que se aprende cedo mas por outro lado posso também incentivar a exploração de parentes, o que, a princípio, não é saudável. Me sinto como naqueles filmes onde o mocinho tem que decidir se corta o fio azul ou vermelho da bomba que está prestes a explodir. Preciso ganhar tempo.

– Quanto você quer pedir.

– Vinte reais

Até que não é muito, mas não sei o que ele quis dizer exatamente com ”um pedaço solto no chão”. Vai ver foi ele mesmo que soltou. O garoto é esperto. Criar problemas para vender soluções é uma das atividades mais valorizadas hoje em dia. Preciso pensar. Ele percebe minha hesitação. Crianças tem um sexto sentido com as inseguranças dos pais.

– Posso cobrar mais? Cinquenta?

– Não, claro que não, Vinte tá muito bom.

O pequeno pilantra está me levando na conversa.

– Então tá, tchau papai.

– Peraí, deixa eu falar com seu avô

– Não precisa não, ele já disse que vai pagar.

– Deixa eu falar com ele

– Tá muito ocupado, não pode.

Pra bom entendedor…ligo direto pro avô.

– Que bom que você ligou. Tô mandando pelo Martín os vinte reais que estava te devendo. Já tinha até esquecido, ainda bem que ele lembrou.

One thought on “Malandragem

  1. regina mas disse:

    Ih… Acho que o Martin vai ser político… Espertinho hein!!
    abçs

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