Pai herói

hincha1

Pai zeloso que sou escolhi a dedo a estréia do meu filho de cinco anos no Maracanã: Fluminense x Vasco. O Flu, segundo na tabela, contra o penúltimo colocado. E mais: sem torcida do Vasco, já que presidente do clube tinha dado ordem a seus seguidores para boicotar o jogo. Como poderia dar
errado? Seria uma festa só, uma goleada, nem teríamos tempo de sentar na cadeira, de tanta comemoração.

Passei pelo sofisticadíssimo sistema de compras do estádio, que faz com que você adquira os ingressos pelo site, pague taxa de conveniência (seria mais adequado chamá-la de taxa de sarcasmo, como verão a seguir), vá ao clube retirar o ingresso, faça uma fila de uma hora, depois descubra que no clube só entregam meia entrada, vá o Maracanã, dê a volta toda no estádio atrás da bilheteria correta, faça outra fila e aí sim consiga os ingressos na mão. O que é perder uma dia inteiro de trabalho diante da perspectiva de uma epifania futebolística?

Chegamos ao estádio e tudo estava como previsto. A torcida tricolor ocupava quase todo estádio e a do Vasco era um pequeno grupo isolado lá longe. Mas o Maracanã não é só futebol. É toda uma filosofia de vida que mora naquelas arquibancadas. A maneira de se vestir, a maneira de se relacionar com os outros e principalmente, de externar os próprios sentimentos.

Assim que o jogo começou percebi que estava no meio de um grupo de poetas parnasianos, que só se comunicavam em versos alexandrinos. Que privilégio! O mais sábio e experiente deles, que tinha idade suficiente para ter assistido à fundação do clube, abriu os trabalhos:

PORRA, VAMOS GANHAR ESTA CARALHA!!!!! (sic)

Imediatamente meu filho se virou perguntando o que era “porra”, o que era “caralha” e de que maneira se pode “ganhar esta caralha”. Enquanto explicava que eram expressões de um idioma alienígena, outro poeta do grupo se levantou e, com o som mavioso da sua voz fanha, exclamou:

“FFFUUUTÃÃÃ QUE FARIU, GERSON! VÃÃÃ SE FUDER! MANDA EFFA FFFFORRÃÃÃ DE BOLA NA DIREFFFÃO DO GOL, FEU MERDÃÃÃÃ!

O nobre poeta que externara tão brilhante intervenção tinha uma figura toda peculiar, que combinava com sua retórica. Usava uma camisa vintage, aparentemente da época da Máquina tricolor. No entanto ele adquirira desde então algumas dezenas de quilos, que sobravam por baixo da camisa. O tamanho da pança produzia todo um efeito acústico, que fazia com que sua voz fanha fosse ouvida até fora do estádio. E cada vez eu tinha que dar mais explicações sobre as palavras novas que meu filho ia aprendendo. O desempenho do time também não ajudava muito: “Papai, por que o Fred não corre atrás da bola?” Antes que eu começasse a tentar dizer alguma coisa um dos nobres colegas do grupo de estudos de Camões me tomou a palavra:

“FRED, SEU ARROMBADO FILHO DA PUTA! CORRE ATRÁS DESSA MERDA DE BOLA, Ô VIADO ESCROTO!!!”

Tinha que fazer tantos rodeios semânticos nas explicações que não conseguia mais prestar atenção no jogo. Fui pego de surpresa pelo gol do adversário. O que não aconteceu com meus colegas de torcida, que já tinham o comentário pronto, tanto que foi feito em uníssono.

“SEUS CUZÕES!!! VAO SE FUDÊ !!! BANDO DE VIADINHOS!!!!

Após esse brado partiram para um jogral, cada um mais criativo que o outro nos xingamentos. Abandonaram o estilo parnasiano e se reinventaram no realismo mágico, como se fossem uma espécie de Guimarães Rosa do baixo calão. Não fosse a minha função de tecla SAP eu até ficaria mais tempo admirando tamanha criatividade. Resolvi abandonar a nau sem rumo.

É claro que na volta o motorista do táxi era rubro negro. E é claro que o rubro negro sorria de orelha a orelha enquanto eu tentava convencer o meu filho que com o Ronaldinho tudo vai ser diferente. O motorista também era um poeta. De uma escola mais concreta, por assim dizer

“DOTÔ, RONALDINHO SÓ VAI RESOLVÊ O PROBLEMA DAS VAGABUNDAS DAQUI! HAHAHAHAHA”

E tem gente que reclama que o filho assiste muita Peppa Pig.

 

2 thoughts on “Pai herói

  1. Marilia Barbosa disse:

    Kkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Cai da cadeira, você se superou, mas apoio às palavras do taxista da Nação!
    Por favor, não delire, o FRamenguista está certo!

  2. Ni Na C. disse:

    hahaha….pai coruja ! Eu sugiro que ele assista jogo de volley. Não tem palavrão para dar explicações. E será mais tranquilo. Boa noite Leo !

Deixe uma resposta