Eike 2.0

Rio de Janeiro, julho de 2016, véspera das Olimpíadas. A cidade inteira é um canteiro de obras. Tapumes para todo lado. Mas dentro desses canteiros nada acontece. Foram tantos desvios, negociatas e fraudes que o dinheiro simplesmente acabou. Se acabó. Finish. Finito. O Rio está parado.

Eike Batista volta para casa preocupado. Ele agora mora no Catete, num sala-dois-quartos alugado. O condomínio está atrasado. Moram com ele Thor e Olin, que dividem um quarto e Keite Daiana, uma ex-BBB que agora é ex-Sra.Thor. Seu quarto foi a indenização no divórcio. Eike dorme no sofá da sala

Depois de perder o direito de usar a letra X para um antigo funcionário, por conta de uma dívida trabalhista, Eike tinha começado caracterizar suas empresas com a letra Y, desta vez no meio. Conselho de Keite Daiana.  A primeira foi a saYes, um curso de inglês online, que não durou muito, afinal nem nos Estados Unidos se fala mais inglês, só espanhol. A saYes acabou vendida para o Sí, Señor! um curso expresso dentro dos supermercados Mundial

Eike conseguiu mais um empréstimo e apostou que considerava sua salvação: óculos de visão noturna. Depois que o dinheiro acabou de vez o governador do Rio decidiu usar os túneis do Metrô do Rio como ciclovias. Não havia mais verbas para a manutenção dos trens e a concessionária tinha falido. O Metrô estava parado. O governo cobriu os trilhos com tapumes, os últimos que restavam, e os  túneis foram entregues às bicicletas. Uma solução perversamente genial e ao menos muito ecológica, não fosse a escuridão. Foi aí que surgiu a idéia do sempre empreendedor Eike: vender óculos de visão noturna aos ciclistas.

O problema é que depois de encomendar cem mil pares desses óculos na China, ele foi surpreendido por uma notícia: um garoto de dez anos, conversando com o bisavô, descobrira que em tempos muito remotos as bicicletas tinham faróis. E que eles eram alimentados por dínamos, aparelhos muito primitivos que não tinham sequer wi-fi ou bluetooth mas que misteriosamente geravam energia apenas com o movimento dos pedais.

O fato é que os faróis de bicicleta, que custavam um décimo dos seus óculos, iam acabar com o seu negócio. E o garoto ia ficar milionário.

Eike resolveu, mais uma vez, pedir ajuda ao governador.

Natan Donadon tinha sido eleito há um ano. No fim do mandato de Sérgio Cabral as opções políticas eram bem limitadas, em todos os sentidos. Ninguém queria ser governador do Rio. Os políticos, mesmo de outros estados, fugiam dessa roubada.  O único que não podia fazer isso era Donadon, que estava preso. Foi então lançado como candidato ao governo por uma inédita coligação PT/PSDB/PMDB/DEM/PSD. Conseguiu o prodígio de chegar em segundo mesmo sendo o único concorrente. O primeiro foi Leonel Brizola, graças a um hacker do Anonymous que conseguiu inserir o nome do ex-governador do nas urnas eletrônicas. Entre o preso e o morto, ganhou o preso.

Como Natan vivia na penitenciária da Papuda e a de Bangu estava lotada,  a solução jurídica encontrada foi conseguir uma prisão móvel. Acharam um caminhão-jaula aposentado no circo Orlando Orfei. Esse seria o novo gabinete do Donadon. No início a população estranhou a idéia de ver o seu governador circulando pela cidade enjaulado, mas ao menos isso seria mais barato e honesto que os helicópteros do antecessor.

Os olhos de Donadon brilharam quando Eike explicou o problema dos óculos encalhados. As Olimpiadas já iam começar e o governo tinha dinheiro sequer  para pagar a conta de luz dos estádios. As provas noturnas teriam que ser realizadas no escuro, coisa que o COI não via com bons olhos. Aqueles cem mil  óculos de visão noturna seriam a solução. Bastava entregar junto com o ingresso, como se fosse um cinema 3D.  Seria o Don-o-Vision, já planejavam os minions do marketing que sempre acompanhavam o governador. O Estado ia comprar os óculos do Eike. Problema resolvido. Perguntaram quanto ia custar. Nosso empreendedor disse que seriam dez milhões. Natan ofereceu a metade e levou.

Eike ficou aliviado. O governador ia tirar o prejuízo das costas dele. Cada par de óculos tinha custado cinquenta reais. Ou seja, foram cinco milhões na compra dos cem mil gadgets. Se não tivera lucro ao menos não teria prejuízo e o aluguel do dois quartos no Catete estava garantido. O condomínio atrasado ficava para outra oportunidade.

Na semana seguinte a notícia era “Donadon resolve problema da falta de luz com o Don-O-Vision” e as fotos mostravam as enormes filas para poder comprar ingressos com direito aos os tais óculos.  Sucesso total. A reeleição de Natan estava garantida, com ou sem jaula. O governador afirmou que o  investimento no óculos tinha sido mínimo, apenas cinquenta milhões de reais, muito menos do que a conta de luz do Engenhão. A maioria acreditou. A maioria sempre acredita. Donadon virou herói e e ainda embolsou 45 milhões. Você pode prender um homem mas a criatividade dele sempre será livre.

Triste com o golpe que tinha levado Eike voltou para casa à pé. No caminho reparou que os motoboys tinham ocupado as antigas ciclovias.  Com isso os transeuntes estavam sendo atropelados a todo momento. Por que não vender armaduras aos pedestres?

Nascia a ArmYdura e o condomínio atrasado ganhava mais uma chance.

 

5 thoughts on “Eike 2.0

  1. VLU disse:

    Rindo muiiito!

  2. Christinna Costa disse:

    kkkkkkkkkkkkkk…depois de rir muito, so’ cortando os pulsos!

  3. denise miranda disse:

    Excelente!

  4. susana disse:

    Post genial! Analogia perfeita!

  5. regina mas disse:

    Agora sim, Leo, você se superou! Não consigo parar de rir. Genial menino!! Genial!! Adorei!
    Esse final com a ArmYdura … Que ideia!!! Muito bom!
    abçs regin@

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