João e Mariano

Existia a turma dos esportistas. Também a dos geeks. A minha era daqueles cuja maior habilidade era jogar conversa fora, sempre criando debates profundos que seriam esquecidos em cinco minutos. Normalmente tão geniais como inúteis. Qualquer coisa podia dar início a mais um. Como na vez que o João Mauricio estava chateado por ter tirado nove e meio e não dez, como era de praxe. Surgiu mais uma polêmica: quem tirava nota alta era porque estudava muito ou porque era simplesmente mais inteligente?  Um grande debate, afinal estávamos discutindo a inevitabilidade do destino, ainda que de maneira torta. Até que o Mariano, um cara muito gente boa mas ao mesmo tempo um dos piores alunos de toda a história do Colégio Andrews, fez o desafio para acabar com a prosa: ninguém estudaria para a próxima prova. A nota de cada um  apontaria qual teoria estava certa.

Organizamos tudo como uma experiência científica: foram convocados o próprio Mariano, representando os relapsos, o João representando os que tiravam dez e eu como testemunha. Seria simples: ficaríamos os três na mais absoluta e irresponsável vadiagem na véspera do teste. Nada de estudar. Se a tese do Mariano fosse verdadeira ficaria comprovado que o João só tirava dez por que passava o tempo todo estudando. Não tendo chance de enfiar a cara nos livros, dependendo só da natureza, o resultado dele seria igual ao do resto da turma.

Um dia antes do teste fomos para a casa do João, ali na Urca, e, conforme o combinado, passamos a tarde jogando Atari. Nada de livros ou cadernos, só coca-cola, pringles e videogame. Foi praticamente um nirvana. A felicidade de ainda não saber se quem mandava na gente era gente mesmo ou o destino.

No dia seguinte, com a cabeça devidamente oca, encaramos a prova.  As notas: Mariano quatro, eu oito e o João, mais uma vez, dez. Ficara determinado, ao menos naquele momento,  que o João era efetivamente inteligente, que eu estava na média e que o Mariano era mesmo meio burro. Mas bullying à parte, todos sabíamos que só o tempo ia dizer se o resultado estava mesmo certo.

E o tempo passou.

Li no jornal que o João é o CEO de uma megaempresa.  Eu continuo sempre como testemunha, contando a história. Do Mariano não tenho notícias e é isso que não me deixa esquecer o episódio.

Talvez ele esteja vendendo ticket do Vaga Certa no Catete, talvez tenha decidido viver numa praia perdida como o sujeito mais feliz do mundo. Ou então também é um CEO, só que de uma empresa ainda mais importante que a do João. O fato é que não saber o paradeiro do Mariano significa não ter uma conclusão sobre aquele debate e sobre a experiência que fizemos: Afinal o destino de todos é certo ou se cada um faz o seu?

Ainda bem que não sei. Assim a felicidade daquela tarde jogando Atari na Urca para mim nunca vai terminar.

 

One thought on “João e Mariano

  1. Mauricio disse:

    Que maravilha!
    .
    .
    “Eu não sei se mamãe está certa, ou se o Tenente Dan é que está. Não sei se cada um tem um destino ou se só flutuamos sem rumo, como uma pluma na brisa… mas acho que talvez sejam ambas as coisas.

    Talvez as duas coisas aconteçam ao mesmo tempo.”

    Forrest Gump

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