Objetos

“Você vai ganhar uma bola ”. Assim meus pais anunciaram a novidade. Eu, que só recebia presente no natal, até estranhei a generosidade súbita mas aquele era uma ano de Copa do mundo e tinha feito um bonito nas provas da escola. Fiz por merecer a surpresa. Então lá fomos para a seção de brinquedos da Casa Mattos. No meio das bolas em promoção achei uma com o escudo do Fluminense, que se estava longe de ser oficial ao menos era abençoada pelo meu time. A turma logo a apelidou de Doval, tanto pelo eterno craque do Flu como por não ser exatamente redonda. A estréia da Doval foi na praça do Bairro Peixoto, onde morava. No meu time estavam os meus vizinhos, Carlinhos, o João e o Miguel, mais os irmãos André e Luís, que moravam na rua Santa Clara. No outro a turma da Figueiredo Magalhães, de quem éramos fregueses. O jogo foi difícil, não saíamos do zero a zero, até que, quase no final, parti com decisão na direção do gol adversário. Ia correndo e ao mesmo tempo narrando, de forma espetacular, a minha própria jogada: “dribla um, dribla dois, sensacional! Que talento! Que craque! Vai driblar o terceiro!”, a narração só era interrompida pelo som da torcida, que eu mesmo fazia, “uááá, uááá, uááá”. Na minha cabeça estava no final da Copa. Foi nesse transe que chutei. A bola parecia que ia para fora mas, por conta da sua peculiar forma, começou a fazer uma curva estranha, muito estranha. Fez-se aquele silêncio que sempre antecede os grandes acontecimentos. Entrou no ângulo. Gol. Vitória. Consagração. Fizemos uma volta olímpica em volta do chafariz da praça, a Doval erguida como troféu.

Não me recordo bem como foi aquela Copa, só me lembro das comemorações da nossa conquista, horas e horas rememorando cada detalhe, cada jogada, o gol. Uma alegria sem fim. Nos tornamos heróis na praça, nos garantiram Seu Manuel, o pipoqueiro e o Bira, o guarda. O fato era confirmado por nossas mães e pelos porteiros da área. Acreditem, não existe glória completa sem a aprovação de mãe e porteiro. Infelizmente a Doval não chegou até o fim do ano, morreu na boca de um cachorro mal humorado e provavelmente rubro negro. Nunca mais houve um gol como aquele.

“O senhor tem direito a um novo aparelho”. O atendente da operadora me avisou que por conta do meu perfil de consumo receberia um celular grátis. Décadas depois da Doval, outro presente surpresa. Fui na loja e me deram o modelo mais sofisticado, que valia uma pequena fortuna. O funcionário, orgulhoso, me explicou todas as instruções, os aplicativos, as possibilidades. Nem era necessário, só se falava nesse telefone na TV, nos jornais e nas revistas. Chineses e americanos ficavam dias em filas para conseguir um igual. Como não ficar feliz possuindo essa maravilha da tecnologia e do design? Cheguei em casa com três mil reais da mais pura modernidade na palma da mão e ainda com um brinde extra, um pedestal-carregador, que permitia que o aparelho fosse admirado de todos os ângulos. Passei a tarde sentado no sofá, observando aquele objeto, símbolo do meu progresso no mundo do consumo. Esperava algo mágico, algo que me fizesse encontrar alguma alegria naquele objeto tão cobiçado. Tão concentrado estava que nem ouvi o “uááá, uááá, uááá” do Martín, que vinha à toda pelo corredor. Só o barulho do chute. Um silêncio fugaz e apareceu a bola, pelo alto, feito um foguete. Acertou em cheio o pedestal-carregador,  fez voar longe o aparelho, bateu na quina da mesa e entrou na porta da cozinha. No ângulo. Gol.

Fizemos a volta olímpica em torno da mesa de jantar, com cuidado para não pisar nos cacos do valioso celular.

2 thoughts on “Objetos

  1. regin@ disse:

    Delícia de texto!
    bjs regin@

  2. Christinna Costa disse:

    Que gostoso esse texto de ontem, dia das criancas aqui em PT!
    Tal pai …tal filho!
    O gol do Martin e’ que deu origem as memorias do
    seu gol de placa! Valeu Martin!

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