Diversão à francesa

Marie Antoinette

Existem várias maneiras de se divertir no Rio: cinema, teatro, shows. Mas diversão mesmo é aquela que você encontra nos lugares mais inesperados. Na semana passada, por exemplo, descobri por acaso um espetáculo sensacional. O show do sotaque poser. Ou melhor, poseur. Sem querer concorrer com a Vejinha e o Rioshow, aqui vai uma dica de lazer.

Primeiro você tem que escolher uma dessas padarias metidas à besta, pode ser gourmet, diferenciada ou premium. Qualquer uma, tanto faz. O importante é chegar no fim do dia, que é o horário em que os artistas desta atração estão chegando do trabalho e indo para a academia. Basta sentar, pedir um café e esperar um pouco. Não é um programa barato, mas eles estão dividindo o expresso em três vezes e aceitando pré-datado para o capuccino.

Em cinco ou dez minutos chega a primeira. Pelo que veste se imagina que está a caminho de uma aula de pilates em Beverly Hills. Tem uma idade indefinida, pode ser entre os trinta e os setenta, dependendo o ângulo. É uma esfinge cronológica. Chega, olha com desprezo todos à sua volta, vai ao balcão, empina ainda mais o nariz e ordena: “ Por favor, um crrroãããsããã”. Sim, crrroãããsããã, com um R tão longo e gutural que lembra o leão da Metro e um A tão anasalado quanto zurro de mula. É um sotaque que se pretende mais francês que o do Aznavour mas que na verdade é uma mistura de meia aula de francês no Colégio Sion dos anos 50 com esnobismo coxinha do Leblon. O que não impede a autora de se sentir e agir como Luis XIV em Versailles. Melhor pedir outro café que esse é só o começo. Espere mais um pouco que ainda fica melhor

Aparece outro. Este veio direto do trabalho, é um hipster de raiz, veste camisa estampada e capanga, com um bigode aparado fio a fio. Se acha um modelo da Urban Outfitters mas parece figurante de um anúncio da Ducal. Mal chega no balcão e, autoritário, manda ver um “pããã u chõõõcolááá”. Não, não é um aluno fanho do primeiro ano da Aliança Francesa, apenas um arrogante desvairado, sonhando que acabou de se formar em Paris IV e está saracoteando pelo Faubourg Saint Honoré. Mesmo habituada ao show, a atendente se esforça para não rir, não é paga para isso. Como você está lá só pelo espetáculo, pode gargalhar à vontade. Não se importe em ferir suscetibilidades, um verdadeiro esnobe nunca imagina que as risadas são com ele.

Agora é uma comitiva, são três, todas do corpo de baile de alguma Bodytech. O figurino delas é algo que na categoria originalidade no desfile do Hotel Glória seria chamado de “NASA, apogeu da Corrida Espacial”. Uma versão aeróbica do barroco. Tal indumentária já faz a platéia vibrar com antecedência, imaginando o que virá: o quanto elas conseguirão anasalar as palavras? E o R, quanto tempo vai durar?  Mas as três vão para uma mesa e conversam entre si, o que dificulta que o público, no caso eu, aprecie o sotaque com a devida atenção. Nada que não possa ser resolvido. Deixo o café de lado e peço à atendente: “Dona moça, por favor, me dá uma bomba de chocolate!” Imediatamente as três ficam petrificadas de horror, até que uma delas começa a repetir “Eclééé! Eclééé! Eclééé!” As outras também repetem em uníssono, enquanto me olham com desprezo, como o Le Pen diante de uma imigrante africano. Viram-se ao mesmo tempo para o balcão e pedem, agora em voz alta: “Macarõõõ, pãããã u chõõõcoláááá, crrroasããã, medlééé, eclééé, tár tatããã” , todo um tour de force pela pâtisserie e boulangerie francesas, com sotaque de travesti cantando La vie en rose em boite pobrinha. É o grand final. Aplaudo efusivamente, ao que elas agradecem, levemente desconfiadas. Não fico para o bis por que não posso perder o próximo programa, que é o corredor de vinhos do supermercado Zona Sul

Mas isso é assunto para outro post.

6 thoughts on “Diversão à francesa

  1. Eliana C Lima disse:

    Adorei! Ri muito e me fez lembrar experiência semelhante, também no Leblon, com uma profissional que trabalha com um famoso cirurgião plástico. Além de esnobe, a criatura (que tem uma voz esganiçada e gosta de falar muito alto) “atropelou” o meu atendimento e a moça da cafeteria teve que pedir mais de uma vez que ela aguardasse um pouco.
    Aguardando a crônica dos vinhos no Zona Sul…

  2. Nivaldo Caliman disse:

    Caro Leo

    Grato meu caro. Começar o dia com seus artigos é bom demais.
    Grande abraço
    Nivaldo Caliman
    Amparo SP

  3. Lari disse:

    Que post totalmente maravilhoso! Morri de rir e estou compartilhando com o MUNDO

  4. Elisa disse:

    Lendo pude ver a cena. Tenho que tentar também um programa desses.

  5. Christinna Costa disse:

    Ri muito Leo…deu pra sentar na tua mesa e vivenciar
    todo isso! Mas eu tambem ja’ vi cena mais ou menos
    parecida com essa ai’ no Rio.
    Peruice elevada a decima potencia!!!

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