Histórias de repartição

Fulano sempre gostou de espiar pela fechadura. Começou com as primas na adolescência e não parou mais. Pela sua preferência e por escolher sempre moças mais novas seu apelido na repartição era Papaiz. Aos quarenta, morando com a mãe, conhecia todos os motéis da cidade, especialmente suas portas. A fantasia sexual agora tinha método e precisão, com um script que sempre terminava com a moça nua na cama e ele atrás da porta, espiando. Mas volta e meia se deparava com algum quarto cujo buraco de fechadura não tinha vista adequada. Aí não havia Viagra que desse jeito. Até que tomou coragem e pediu para o serralheiro da firma cortar um pedaço de ferro, do tamanho de uma folha de papel, com um buraco de fechadura estilizado no meio. Pronto: agora sua fantasia era portátil. Podia ficar no quarto explorando todos os ângulos e enquadramentos possíveis. “Finalmente!” comemorava, enquanto explicava aos colegas que as moças estranhavam no começo. “Mas só no começo”, frisava.

Beltrano era um especialista em relações extra-conjugais. Na verdade seu interesse mesmo era contar a todos sobre suas relações extra-conjugais (ao contrário da sua esposa, que era bem mais discreta e eficiente nesse quesito). Explicava solene para seu público, esse sim fiel muito fiel, que o mais difícil era o depois. A arte era chegar em casa sem levantar nenhuma suspeita. Para tanto tinha inventado um método próprio, o “bafo de motor”: com a desculpa de economizar trocou seu carro do ano por um calhambeque velho. Assim, duas ou três vezes por semana, após as aventuras, ele parava o carro perto de casa, abria o capô e ficava ali se impregnando de toda sorte de odor mecânico, que apagavam qualquer rastro de perfume feminino. Entrava em casa fingindo mau humor, reclamando dos defeitos do carro e explicando que tivera que consertar o automóvel no meio da rua. “É importante economizar alguns caraminguás para o bem da família!”. Dito isto tomava um banho e ia dormir o sono dos justos, ansioso para relatar o ocorrido aos colegas.

Sicrano, evangélico e eleitor do Bolsonaro, tinha dificuldades para encontrar seu par perfeito. Tinha que ser recatada, discreta e, se possível, virgem. “A mulher tem que saber se guardar!” repetia para o espanto dos amigos. Até que um dia encontrou o que procurava: uma moça da contabilidade da firma. Toda segunda feira descrevia eufórico o respeitoso namoro no portão no fim de semana e o jantar na casa dos futuros sogros. Depois voltava aos afazeres, fazendo questão de não ouvir as histórias escabrosas de fulano e beltrano. “Bando de hereges depravados”, resmungava. Também não prestou atenção no relato do estagiário, que estava saindo com uma moça nova. “A mais maluca de todas!” contava com um brilho nos olhos, antes de dar os detalhes dos encontros sexuais vespertinos, em terrenos baldios, ruas escuras e praças públicas. Aos colegas curiosos que insistiam em perguntar quem era a mais de todas, respondia com mistério: “só posso dizer que é da contabilidade.”

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