O crítico gente boa

Meu nome é José Correia Saraiva. Sou crítico. Cinema, teatro, literatura, música. Se houver alguém fazendo algo eu tô dando opinião. Mas não sou um qualquer, sou o mais aclamado, o mais famoso, o mais rico. Nada acontece nesta cidade sem passar pelo meu crivo. Você já deve ter lido algo meu. Assino Joe CoSa.

Comecei trabalhando numa pequena revista de musica. Escrevia sobre tudo: jazz, rock, mpb, funk. Ninguém lia mas o emprego me pôs em contato com o showbizz e os críticos mais experientes. Naquela época eu já queria voar mais alto, não no sentido intelectual mas no sentido de primeira classe mesmo. Foi uma decepção descobrir que os veteranos da profissão viviam enfurnados em muquifos, assombrados por milhares de livros e discos. Pensei: “É isso que quero pra mim? Onde está o caviar? O terno Armani? O champagne?” Naquele momento percebi que a grande arte seria ficar rico falando do trabalho dos outros.

Minha primeira grande idéia foi indexar a cena cultural antes de emitir um comentário. O escritor tem muitos amigos importantes? Conhece as pessoas certas? É gênio! O músico tá começando, é hermético e ranzinza? É um fracassado! Esse meu pragmatismo me tirou do buraco onde trabalhava e me levou para as revistas de papel couche, aquelas que as pessoas deixam na sala. Vocês não imaginam a quantidade de portas que se abrem quando se elogia as pessoas certas.

O segredo do critico bem sucedido comercialmente é saber como a banda toca. E aí que se separam os vencedores, que frequentarão os grandes salões e as melhores festas daqueles que vão passar a vida inteira de All-Star e T-shirt, ouvindo coisas chatas, lendo autores incompeensíveis e resmungando aquilo que ninguém quer ouvir. Eu sei exatamente o que as pessoas querem, não é a toa que sou o melhor. Fiz por merecer meu sapato Prada e a camisa Dolce & Gabbana. O que eu digo soa como música de elevador no ouvido de uma analista de sistemas.

O mais importante para que o crítico continue sendo levado a sério e não encarado como um puxa-saco ordinário é bater muito. Tem que ser sarcástico, irônico, maldoso mesmo. Mas não com qualquer um. Aí está o meu maior talento, saber bater só nos sacos de pancada. Não tem uma critica literaria minha em que eu não fale mal do Paulo Coelho. Artes Plásticas? Pelo menos um parágrafo detonando o Romero Britto. Musica? Como não falar mal dos sertanejos? É essa agressividade que faz um crítico ganhar a fama de implacável. O público quer ver sangue, não importa se é do cachorro moribundo. Tolinhos.

Mas a grande sacada mesmo foi a crítica com paradinha. No futebol a paradinha serve pro jogador descobrir para onde o goleiro vai antes dele chutar o penalti. No meu caso fiz uma adaptação. Sempre que um grande medalhão da cultura lança um trabalho novo eu espero um pouco. Deixo os outros críticos saírem na frente e fico vendo a reação dos formadores de opinião. Aí quando eu escrevo já vou na boa, antenado com o óbvio, correndo pro abraço da galera. É a minha marca registrada.

E se todos estão criticando de um artista que pode me render algo, tenho um truque na manga. Faço uma crítica abusando das palavras difíceis e da dubiedade, de maneira tal que o leitor vai achar que estou falando mal e o artista vai se sentir elogiado. A vaidade e a ignorância são minhas maiores aliadas. Essas nunca decepcionam.

Com isso tudo é claro que chovem convites para escrever, comentar e participar. Joe Cosa se tornou onipresente, o oráculo do século XXI. Tanto sucesso atraiu a inveja de muitos, principalmente daquela turma do tênis sujos e camiseta. Dizem que eu sou o Kenny G da crítica. Ha ha ha, tô nem aí. Beijinho no ombro pra eles. Já percebi que ficam felizes com o meu desprezo. Para voar alto, de primeira, tenho que agradar gregos e troianos.

As pessoas só ouvem aquilo que querem ouvir. Você já deve ter lido algo meu. Assino Joe CoSa.

Deixe uma resposta