Caetano

Caetano

Nem lembro mais o motivo da sessão. Como alguns já perceberam, qualquer coisa é motivo para Caetano aparecer no jornal. Mas ao contrário do que se imagina, eu não ligo pro celular do Caetano e fazemos a foto. Nada é simples, muito menos Odara. Tem toda uma negociação envolvida. No dia ele daria várias entrevistas, para jornais, revistas e televisões. Tínhamos uma hora. Como Caetano fala sobre tudo, desde a atividade vulcânica da Islândia até questões literárias na semana de 22, a entrevista ia ocupar muito tempo. Eu teria no máximo quinze minutos.
Fiquei chateando a assessora até conseguir levá-lo até a praia do Leblon. Era dia de ressaca, estava vazia. Caetano não queria pisar na areia porque usava uns sapatos que não falavam português e deviam custar mais que a minha câmera, meu carro e minha casa juntos. Mas continuei chateando ( sou bom nisso) até que ele cedeu. Tudo estava no lugar. Uma luz linda de fim de tarde, cenário perfeito, era só tocar pro gol.
Nesse momento eu vivi uma epifania fotográfica. Imaginei o imenso sucesso que a imagem faria. Imaginei o Nelson Motta falando sobre ela em algum documentário, dizendo que era a imagem definitiva do astro. Imaginei todas as meninas do Baixo Gávea me paparicando para saber como tinha feito algo tão genial. Imaginei o premio Nobel de Fotografia sendo inventado só para me premiar. Me imaginei abandonando a análise por falta de assunto e excesso de sucesso.

Chuuuuuuuuuuáááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááá.

Nem sei de onde veio a onda. É óbvio que foi do mar, mas a tsunami me pegou totalmente de surpresa. Quando dei por mim a água cobria o grande ícone da música até os joelhos. A onda chegou até o calçadão e na volta quase leva a nós dois para o reino de Iemanjá. Tentei esboçar algum tipo de reação mas só conseguia ver o desespero da assessora e o horror do repórter. Eu não só chutara o pênalti pra fora como agora a torcida toda estava prestes a me linchar. Caetano, espumando de ódio, com os sapatos milionários, que agora pareciam duas águas-vivas na mão, disse que ia para casa trocar de roupa. Fiquei apavorado. Ele vai chamar a Bethânia! Vai contar o que houve e ela virá tomar satisfação comigo. Apanharei na rua. A MPB toda, em solidariedade, se voltará contra mim. Serei banido do Baixo Gávea. As baratas da Pizzaria Guanabara me terão nojo. Nunca mais sairei da análise.
Mas o Caetano voltou. Com enorme fair play ele retomou sessão. Mas tem algo no olhar dele na foto que me assusta até hoje.

 

 

7 thoughts on “Caetano

  1. Claudia Giorgi disse:

    “Ele vai chamar a Bethania!” ja ja ja !!
    Realmente está muy bien escrito.
    Ya te lo dije por FB y realmente es para disfrutar! Ja ajaja
    Saludos desde Argentina!
    Claudia

  2. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  3. Alcidéa de Oliveira disse:

    Muito boa, adorei a narrativa!!!! Deu até para temer por você até o final… Mas, felizmente Caetano é Caetano… Ou não!!!!! kkkkkkkkkkkk

  4. anamariasousamelo disse:

    Adorei, kkkkk.

  5. fao carreira disse:

    hahaha, muito bom, e esse olhar diz mesmo muito.
    super foto.

  6. ZEPEDRORUSSO disse:

    FOTAÇA , IRMAO!!

  7. Isidro disse:

    Mas, meu, só esse lugar da praia sem pegadas na areia já é uma foto rara, rara, rara.

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