Metal

O primeiro show de rock está para um fotógrafo como a primeira negociata para um político do PMDB. É o momento decisivo, a hora em sua história vai pra frente ou não. É ali que se separam os homens dos meninos. Os homens vão fazer engenharia ou medicina e os meninos continuam a clicar.

No meu caso, quando comecei a fotografar era um sujeito muito estranho
(“não mudou nada”, dirão meus inimigos. E os meus amigos concordarão consternados) . Meu passatempo era jogar xadrez sozinho e ir a concertos no Municipal . A coisa mais louca e transgressora que fazia era assistir a uma maratona de filmes iranianos no sábado à noite. Não era um nerd. Nerd seria um grande upgrade no que eu era. Tinha uma timidez tão grande que via os nerds como reis da popularidade, clones do Mick Jagger. Na época meu psicanalista me disse que fotógrafo era uma boa profissão para um cara estranho como eu. Entrei no Globo.

Estava há pouco trabalhando no jornal, ainda era trainee. O editor me avisou: “sábado você vai fotografar um tal de Motörhead. Ninguém quer ir nessa roubada.” Motörhead é uma banda que faz com que todas as outras pareçam uma mistura de Lady Gaga com Village People. Não é só o som que é pesado. Tudo ali é na filosofia do “não coma mel, mastigue abelhas”. Tem mais testosterona num show deles do que em todos os filmes do Chuck Norris.

Com a minha falta de entusiasmo juvenil fui para o Maracanãzinho. A confusão na entrada era tão grande que eu tremia ao pegar a credencial do “Motörhead World Tour”. Infelizmente não era a melhor hora nem lugar para tremer.

O que acontecia no estádio parecia um filme dirigido pelo Tarantino . O show nem tinha começado e a selvageria já estava instalada em grande estilo. Todo mundo brigava com todo mundo. Quase não consegui chegar no fosso, que é o lugar onde ficam os fotógrafos. Trata-se de um cercadinho entre o palco, onde o show efetivamente acontece e a platéia, que naquele caso era onde os malucos ficavam soltos. E o que os malucos fazem com quem fica entre eles e o show? Cospem, é claro. Tentam quebrar a maquina fotográfica, é óbvio. Colocar o filme na câmera entre cusparadas e empurrões foi a menor das dificuldades daquela noite.

(Filme, pra quem chegou agora, é tipo um cartão de memória, só que bem mais fino e muuuuuitoooo mais longo. Mas só cabem 36 fotos nele.)

Começa o show .Eu estava do lado das caixas de som. Ah… a ingenuidade dos novatos… Procuro por meus tímpanos até hoje. Era como ter uma britadeira de adamantium na cabeça. O público exultava com essa sensação. Batiam a cabeça como se realmente houvesse uma britadeira de adamantium nas idéias deles .

O que era uma pancadaria generalizada no ínicio foi ficando pior. Os skinheads batiam nos punks que batiam nos metaleiros que batiam nos skinheads. E os seguranças batiam democraticamente em todos. E todos cuspiam nos fotógrafos. Ninguém mais prestava atenção no show, apenas brigavam entre si. Em determinado momento tive que sair da frente do palco para trocar o filme. Olhei para o lado e vi três skinheads segurando um punk pelos braços. Tentavam derrubar a grade que os impedia de subir no palco usando a cabeça do coitado como aríete.

Não conseguiram, apesar das inúmeras tentativas que transformaram a cabeça do punk numa pintura do Lucian Freud. Os seguranças vieram apartar a confusão e como castigo passaram a bater a cabeça dos quatro entre si. Imagino que isso não tenha causado muito dano aos skinheads, normalmente a cabeça não lhes é de muita serventia.

Quando Lemmy, o vocalista, começou a cantar “Ace of spades” o público , excitado pelo hit da banda, passou a brigar com ainda mais entusiasmo e afinco. Era quase comovente. Pena que o Discovery Channel ainda não existia, eles teriam adorado transformar aquilo num documentário. Para mim a coisa só piorava. Para cada click que fazia tinha que dar duas cotoveladas e recebia em troca quatro cusparadas e um soco. Ainda hoje acho graça quando um artista reclama que sua platéia está fria. Quer esquentar o seu público? Chama o Motörhead.

Quando o show terminou imaginei que seria o apocalipse, na melhor das hipóteses. Surpreendentemente nesse momento houve uma confraternização, tipo missa no Harlem. As pessoas estavam radiantes por ter passado quase duas horas estourando os tímpanos, batendo e apanhando. Saíam do estádio abraçados e cantando. Eu tinha alguns hematomas e estava completamente surdo mas minha câmera estava intacta, o que ia garantir o meu emprego por mais um tempo. E, principalmente, tinha sobrevivido ao meu primeiro show.

Como querer outra coisa pro resto da vida?

 

2 thoughts on “Metal

  1. Brooks Thaty disse:

    Adoreiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!
    Puxa, que crônica legal, vou usar nas minhas aulas^^

  2. Não consigo parar de rir, lembrou muito minha primeira vêz num show desse tipo de banda e levei um tempão prá entender que aquilo não era briga e sim um ritual de “dança e confraternização metaleira” acredite se quizer.

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