O fim está próximo

Um dia reparei que tinha um sinal no braço. Não me lembrava dele ali. Tinha outros, mas aquele com certeza era novo. Por que será que ele surgiu? Peguei a lupa e examinei a textura. Hum. O formato. Hummm Em menos de cinco minutos, usando todo o meu conhecimento médico adquirido na leitura superficial de jornais e revistas, matei a charada: melanoma. Não poderia existir outra opção. Provavelmente dos mais malignos. Alguns meses de vida no máximo. Semanas, quiçá. Só daria tempo de fazer um balanço da minha vida, despedir dos parentes e dos amigos. Tinha acabado de completar quinze anos.

Mamãe resolveu o problema me levando pela orelha ao dermatologista, que me mandou parar de chatear as pessoas com maluquices. E não esquecer de usar protetor solar. Desde então a minha carreira de hipocondríaco alarmista seguiu como rastilho de pólvora. Um resfriado já era motivo de preocupação: provavelmente evoluiria para uma gripe, que logo se transformaria numa pneumonia, que exigiria uma internação e, dentro do hospital, enfraquecido, como resistir a uma infecção mortal? Para escapar desse sinistro roteiro melhor fazer logo mais um exame de sangue completo, o milésimo, pra ver se estava tudo ok. Quando chegava o resultado, era uma festa: dezenas de dados e números, que eram interpretados da forma mais aleatória para chegar sempre na mesma conclusão: uma doença fatal estava a caminho. E aí eram dias de lamentações até que um (ou às vezes dois) médicos conseguissem, com um pé-de-cabra, me tirar a idéia da cabeça. Ao menos temporariamente. Mas logo haveria uma dorzinha, uma tosse, uma reportagem avisando sobre um novo vírus pra dar corda na situação.

Os amigos, sempre muito solidários, me deram de presente um manual de medicina que tinha sido do avô de um deles. Era em inglês e muito antigo. Tudo o que precisava. Uma febrezinha? Vamos lá no livro, vamos ver quantas doenças começam com “fever”. Umas quinhentas. Começava a diversão: tentar traduzir e entender termos médicos dos anos trinta. Vai ao dicionário, volta do dicionário e a conclusão era sempre a mesma: seis meses de vida. Na melhor das hipóteses.

As viagens eram ainda mais tensas: precisava levar remédio pra tudo que é doença existente, tanto no destino como na origem. Viagem para o quarto mundo? Dose dupla! Dava pra montar um hospital de campanha com o conteúdo da minha mala. E tinha as novidades que eu encontrava nas farmácias no exterior. Quem já prestou atenção deve ter notado que uma Walgreens americana tem ao menos cinquenta variedades de remédios para dor de cabeça. Como voltar sem todos eles na bagagem? E os anti-alérgicos? E esse remédio para cólicas menstruais? Nunca se sabe…

O Google e a internet levaram a hipocondria ao estado de arte. Colocaram todas as enfermidades ao alcance de nós, malucos. Eu já consultava sobre a doença antes mesmo dos sintomas: se vier a sentir X é evidente que terei Y. E quando um hipocondríaco lê ou ouve sobre os sintomas de uma doença, especialmente as graves, ele passa automaticamente a ter essa doença. De imediato, quase um reflexo. E tome fórum de discussão, grupo de ajuda e muita medicação. Posso dizer que o meu gênero literário preferido é bula de remédio.

Com o tempo parentes e amigos perderam o interesse. Reagem com bocejos à minha morte iminente e procuram o controle remoto da TV quando apalpo o meu pescoço em busca de algum nódulo. Isso me causa certa tristeza, o que pode ser sinal de depressão ou Alzheimer. Vamos a mais uma tomografia. Se sorrirem muito é porque estão escondendo algo.

Quanto aos sinais no braço, foram se multiplicando e ainda surgiram as sardas, só para aumentar o stress. O melanoma ainda não chegou mas o dermatologista ainda insiste no protetor solar. Da maluquice, desistiu.

2 thoughts on “O fim está próximo

  1. regina disse:

    Olá Leo… você é mesmo muito engraçado. Até falando de hipocondria você me faz rir um bocado! E não imagina como valorizo quem me faz rir!! A internet tem sido, de fato, um prato cheio para os hipocondríacos.
    Muito obrigada!
    bjs da regin@

  2. sabrina disse:

    Muito bom o texto! Conheci o blog através de uma amiga e estou gostando muito das postagens! Inteligentes e interessantes! Parabéns!!!

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