Dr. Roberto e eu

Comecei a fotografar no jornal O Globo, quando o Roberto Marinho ainda era o chefão. No primeiro dia o editor do departamento fotográfico me avisou o que nunca podia acontecer por ali: perder uma foto com o Dr. Roberto. Quebrar uma lente de vinte mil dólares, tropeçar no Presidente da República, tudo isso fazia parte da profissão. Mas foto ruim do dono do jornal, nunca. É claro que esse dogma me rendeu  alguma histórias e até hoje Roberto Marinho aparece nos meus pesadelos, sempre desfocado e mal enquadrado.

Quando foi eleito para a ABL, me deram a missão: “Você tem que fazer uma foto dele ao telefone, recebendo a notícia. Vai pro Cosme Velho correndo”. É claro que na hora não atinei que a foto seria uma impossibilidade lógica, já que ele já tinha recebido a notícia. A lógica ficaria para outra hora. Quando cheguei lá a casa estava tomada por ministros, ex-presidentes e quase todo o PIB brasileiro. A única pessoa que conhecia, por assim dizer, era o diretor de redação, Evandro Carlos de Andrade. Quem o conhecia bem diz que era um amor de pessoa, mas para mim era só um cara muito alto e muito carrancudo, uma variação jornalística do Darth Vader, que naquele momento parecia a minha única opção de ajuda. Poderia falar diretamente com o personagem da foto mas seria complicado explicar-lhe o contexto. Difícil decisão. Como sou fã de Star Wars, preferi o Evandro. “Fica aqui ao lado do telefone”, ele disse, e e foi lá no meio do salão buscar o eleito. “Doutor Roberto, um telefonema muito importante para o senhor. É necessário atender”. Lá veio ele apressado na minha direção. Pegou o telefone e começou: “Alô? Alô? Alô?”. Evandro/Vader fez um gesto para que eu fotografasse. “Alô? Alô?, Evandro, acho que desligaram! Alô?” “ Doutor Roberto, acho que a ligação caiu. Tentarão mais tarde”, disse com naturalidade o Evandro. Darth Vader salvou meu emprego.

Minh pauta era fazer um retrato da Lily Carvalho, a sra. Roberto Marinho. Na casa do Cosme Velho. Ela foi muito gentil, fez tudo o que pedi, até destacou um funcionário para posicionar os flamingos no fundo da  foto. Foi quando aprendi que os flamingos só ficam daquela cor que conhecemos quando comem camarões. Mas não podem ser daqueles fuleiros de restaurante por quilo. Tem que ser dos bonitões, iguais aos do Fasano. Aqueles flamingos sabiam viver bem. Quando terminei a sessão, Dona Lily me perguntou: “o seu motorista já está a postos?” expliqei que tinha vindo de táxi. “Táxi?”. Acho que ela nunca tinha entrado num táxi no hemisfério sul, provavelmente nem sabia que existiam por aqui. Lily foi categórica: “imagina, meu motorista vai levá-lo!” Imadiatamente um carro super luxuoso apareceu. O automóvel era maior que o meu apartamento. Lá fomos nós descendo a rua das Laranjeiras. Perto da general Glicério, onde morava, tive o insight: “o senhor pode dar uma volta no quarteirão?”, pedi ao motorista. Finalmente eu podia tirar uma onda de bacana no quarteirão, zoar os porteiros, impressionar as meninas. Abri o vidro e botei a cabeça para fora para aproveitar o meu efêmero momento de poder & sucesso. Foi um fracasso: nenhum conhecido, nenhum porteiro, nenhuma menina. O único que me viu foi o bêbado oficial da rua, que por dever de ofício no dia seguinte já tinha esquecido de tudo.

Estava no carro do jornal, indo fotografar uma manifestação. No rádio veio a ordem: “Vai para a TV Globo agora! Doutor Roberto vai receber o Paulo Maluf.” Joguei pela janela do carro todo o meu passado na Convergência Socialista e fui fotografar a dupla. Estavam no gabinete, além dos dois, um assessor do Roberto Marinho. Enquanto eu preparava a luz, Maluf falava animadamente sobre algum projeto mirabolante para São Paulo. O problema foi que de tão mirabolante, Roberto, já octogenário, dormiu na cadeira. Dormiu de roncar. Então a situação virou uma cena do Tarantino: o assessor me olhou com a cara de “se você clicar tá demitido.” Eu olhei o Maluf com a expressão de “não para de falar senão estamos todos ferrados.” E o Maluf fitou o assessor com a cara de ”Acorda o patrão!”. Ficamos nessa por algum tempo. Até que o Maluf, falando sem parar, foi indo em direção à porta. Saímos todos do gabinete como se nada tivesse acontecido, nenhuma pergunta, nenhum comentário. Antes de ir embora dei uma última espiada pela porta e lá estava o Dr. Roberto acordado, no telefone, conversando animadamente.

3 thoughts on “Dr. Roberto e eu

  1. regina disse:

    Com certeza você deve ter centenas de histórias tão deliciosas como esta que acabei de ler. Até eu, que não sou fotógrafa nem jornalista, tenho histórias interessantes… Então, conte mais…ficarei aguardando.
    O soninho do Roberto foi providencial… Ele era espertinho, o Roberto…
    abços
    regin@

  2. Eliana disse:

    Você sempre ótimo!!!!!

  3. NILTON MAIA disse:

    Prezado Léo,

    Mais um grande crônica. Sem dúvida alguma, para mim, uma das melhores que você já escreveu.
    Abordar a figura do Dr. Roberto (insigne “colecionador de medalhas”), por tal prisma, aquele de sua crônica, é um achado e dos melhores.

    Um grande abraço,

    Nilton

Deixe uma resposta