Paris

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Foi na minha primeira viagem sozinho à Europa, o tradicional rito de passagem da juventude classe-média: passagem promocional da TAP ou Iberia para pagar em mil vezes e ir quicando de cidade em cidade, caindo nas piores roubadas e ficando nos hotéis mais ordinários. E, é claro, achando tudo lindo, como convém aos vinte anos. Foi muito metrô de mochilão, muito trem de madrugada pra economizar hospedagem, muita pensão no quinto andar do edifício sem elevador e caindo aos pedaços, muito sanduiche no meio-fio.

Tanto miserê resultou que quando cheguei à Paris, estavam até sobrando uns caraminguás, então me dei ao luxo de escolher um muquifo que tinha café da manha incluído. Estava me sentindo um sultão, tipo Eike Batista em 2012. Na primeira manhã desci ao café, que na verdade eram três mesas mal ajambradas na entrada no pardieiro e esperei o garçom. O que apareceu era uma caricatura do parisiense mal-humorado: meia idade, narigudo e com uma marra do tamanho da torre Eiffel. Me olhou de cima abaixo e, com nojo, perguntou o que eu queria. Em francês. Eu, garoto novo e ingênuo, cometi o erro mais idiota que alguém pode cometer em Paris: respondi em inglês. O sujeito me olhou com todo desprezo do mundo e desandou a reclamar. Só faltou cuspir. Quer dizer, não faltou não, que ele salivava ao mesmo tempo que rosnava, enfurecido pela insolência do latino-americano. Não tive nem coragem de reclamar do croissant mofado nem dos talheres sujos. Me senti um bugre rude e tosco, o último dos cucarachas

No dia seguinte, liçao aprendida: assim que o ogro apareceu usei humildemente todo o meu francês, estilo Joel Santana, para fazer o pedido: “Je….Je….veux…un…un…cafe et un…croissant…” ( minha pronúncia é tão ruim que certamente ainda vai virar cult)  O garçom, ao ver o meu esforço comovente para falar o idioma, finalmente sorriu, não sei se por algum tipo de comiseração ou  achando graça da humilhação. O que importa é que ele sorriu. Até ganhei um guardanapo quase limpo e um café sem cuspe. Fiquei emocionado. Tinha conseguido reverter o desprezo de um autêntico parisiense,  o que naquele momento era como ganhar na loteria. La loterie. Le gardon gagné à la loterie

No terceiro e último dia, não tinha ninguém no café da manhã. Saí procurando meu croissant quando ouvi uma conversa no corredor. Era uma camareira e mais alguém. O idioma era familiar e o papo estava intenso. Estavam falando em espanhol. Cheguei perto. A camareira discutia com o garçom narigudo sobre algum parente deles em Barranquilla.

Os dois eram colombianos.

2 thoughts on “Paris

  1. Eliana Camara disse:

    Me divirto muito com sua maneira de ver o mundo… Bjs

  2. regina disse:

    Para estar numa cidade tão linda e charmosa como Paris, acho que até vale a pena aguentar o mau humor de alguns parisienses. Alguns, sim, pois nem todos o são. Agora, colombiano travestido de parisiense é dose!
    Delícia de texto e de carrousel.
    abçs regin@

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