O articulista adiposo

O rotundo colunista da revista semanal acorda e percebe que não tem água na torneira. Insulta a Dilma, amaldiçoa os petralhas, xinga a Venezuela. A empregada, sempre paciente, explica que água é com o governo estadual. O reacionário não se dá por vencido e passa a reclamar da falta de chuva. Então a serviçal, com a eterna paciência de quem precisa do salário, explica mais uma vez que a seca é consequência da mudança do clima, algo que o gordinho furioso sempre disse que não existia, que era coisa de eco-chatos comunistas.
Contrariado, o balofo autoritário diz que ele mesmo vai comprar água mineral no armazém da esquina. “Um gênio intelectual fazendo tarefas proletárias”, pensa. Chegando lá descobre que a água que custava dois reais agora vale duzentos. “É um absurdo! Isso é armação da esquerda caviar!” reclama o adiposo reacionário, usando o seu famigerado bordão. O vendedor, malufista, explica, às gargalhadas, que é assim que funciona a lei do mercado: oferta & demanda. “Foi você mesmo que me ensinou e é melhor comprar logo que essa é a última”
O avantajado retrógrado procura a carteira. Enquanto isso um lépido cliente joga os duzentos reais na mão do vendedor e sai correndo com a água. O adiposo tradicionalista fica indignado: corre atrás mas seu peso extra não o leva longe. O vendedor ainda tripudia: explica que é assim que funciona a meritocracia neo-liberal, vence o mais ágil e mais esperto, então não adianta reclamar “É o estado mínimo, cada um por si”
Revoltado e morto de sede, o rechonchudo neocon tem um insight para acabar com a sua desgraça: liga para um amigo rico, investidor da bolsa, com piscina olímpica na mansão. Este explica que não pode lhe dar um copo de água, por que não se deve dar o peixe, tem que ensinar a pescar. Então, ao invés de algum líquido, o sábio amigo manda pelo motorista uma vara e um anzol. Mesmo assim o articulista não pesca nada.
Voltando para casa nosso rolha de poço cruza na rua com o sujeito que lhe tomara a garrafa no armazém. O colunista resolve usar todo seu conhecimento de macro economia para tentar conseguir um simples gole d ‘agua
– O senhor pode me vender o que sobrou na garrafa? Dou duzentos reais mais essa vara de pescar.
– Hummm… não, agua é um commodity em alta.
– Quanto o senhor quer? Tenho muita sede! Por favor!
Como o sujeito além de rápido também é marxista (da linha Groucho), a situação piora.
– Quatrocentos reais, a vara, a sua camisa, a sua calça e quero que o senhor dê um beijo na boca daquele vira-lata sarnento.

O colunista gorducho volta para casa sem sede e sem dignidade.

Assim que chega tem que explicar para a empregada o motivo da patética nudez. Com uma ponta de orgulho alega que ao menos matou a sede.
– Mas doutor, a Cruz Vermelha está distribuindo água de graça na outra esquina.

Após uma demorada reflexão sobre os acontecimentos do dia, o articulista toma uma decisão: demite a criada por comportamento esquerdista-subversivo e escreve um post no seu blog chamando a Cruz Vermelha de bolivariana e populista e exigindo o fim da distribuição grátis de qualquer líquido.

E, é claro, a volta da carrocinha.

11 thoughts on “O articulista adiposo

  1. Denise disse:

    Ridículo. Você é bom pra contar histórias do cotidiano, mas não se meta em política.

    • Beatriz Medina disse:

      Pois discordo. Achei ótima a crônica do Leo, muitíssimo melhor que as dos barrigudos neocons que andam pipocando por aí – e que a preclara colega leitora do TontoMundo deve achar excelentes por reforçarem suas crenças políticas reacionárias.

      • Vitor disse:

        O cara faz críticas sociais e políticas relevantes há séculos e só agora ela conseguiu entender….acho que não vai mais voltar…hehehe

    • Gerson disse:

      É Denise. Parabéns. Você é uma apoiadora da direita, da ditadura, da tortura, da opressão, da roubalheira gigantesca de FHC e do PSDB, do capitalismo selvagem, do arrocho, do preconceito contra nordestinos, do preconceito contra os negros, do preconceito contra os pobres, do preconceito contra os intelectuais, do propinoduto, da venda da Vale e da alma corrompida.

      Tente aprender alguma coisa que traga um pouco de luz à sua vida. Imagino o quanto seja triste para você olhar para trás e não ver nada de bom.

      Uma sugestão: comece a se tornar uma pessoa melhor já nesta eleição. Vote Dilma 13.

    • Fábio disse:

      Ué, só agora vc não gostou?
      Mas, por curiosidade: não gostou da crônica como crônica ou não gostou porque seu caráter não permite gostar de crônicas cujo conteúdo contradiga suas crenças, ainda que o texto possua ótimas qualidades?

  2. Vitor disse:

    Sensacional! No mar de chorume cibernético esse blog é um achado!!

  3. regin@ disse:

    Seu artigo está excelente! Aliás, atualmente, nada mais “cotidiano” do que um assunto político. Ademais, parece-me que nada está sendo mais ridículo do que essa triste campanha eleitoral ou eleitoreira. Difícil é encontrar um adjetivo adequado.

  4. Cristina disse:

    ÓTIMA HISTORINHA DA VIDA REAL.

  5. Maurício Carvalho disse:

    Além da falta de água , algo imprescindível será a definitiva falta de bom humor.A coisa tá brava…

  6. Mohretson disse:

    O texto ficou caricato. Não mais do que o protagonista. Parabéns.

  7. Bruna disse:

    Apesar de não apoiar todas as suas idéias. . Adoro seus textos .. entretanto achei esse um tanto qnt preconceituoso… adicionando a gordura do camarada como defeito …
    Entendi a graça do texto e a moral … Mas gordofobicos tá na moda, não os incentive mais ainda

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