A liberalização da maconha

Setembro de 2015. A presidente Marina Silva, numa tentativa de chegar à nova consciência de maneira mais acelerada, resolve liberar a venda da maconha. A medida gera polêmica, mas Marina é irredutível, alegando ter ouvido uma mensagem codificada do Saci-Pererê durante um sonho. “ Um ser místico me avisou que vai começar a era de Aquarius” anunciou em cadeia nacional, enquanto os ministros, em coro, entoavam “Gitá” ao fundo. Sua base aliada, de quatro deputados e meio senador, conseguiu aprovar a medida na surdina, durante um Jornal Nacional onde seria divulgada mais uma lista de corruptos.

Augusto Bustamente, o  Hightimes, merecidamente intitulado o mais antigo maconheiro em atividade no país, virou a noite comemorando. Como tinha dito seu grande amigo Raul, agora seria tudo da lei. Na manhã seguinte todas as televisões estavam na porta para entrevistá-lo, apesar dele não lembrar direito o motivo. Seu discurso sem nexo entrou para a história.

Foi criada então a Maconhabrás, a estatal que ia comandar a distribuição do beck. Cada cidadão brasileiro poderia adquirir algumas gramas por um preço tabelado nos estabelecimentos criados para esse fim, as Casas do Jererê. Bastava apresentar quinze certidões autenticadas em cartório, pagar vinte guias e entrar na fila. O vídeo de Bustamante protestando contra a burocracia ( “Nada a ver, maluco…”) viralizou nas redes sociais.

Durante alguns meses tudo funcionou como som de Bob Marley. A violência urbana caiu pela metade, ao mesmo tempo que dispararam as ações da Nestlé e da Garoto. Como símbolo dos novos tempos de paz & amor, Coisa Ruim e Praga de Mãe, ex-chefes do tráfico no Alemão que estavam presos em Bangu I, foram contratados como vendedores das Jererê. No começo eles estranharam o horário de nove às seis e a exigência de uniforme, mas a estabilidade e o plano de aposentadoria convenceram a dupla. Além do mais era uma oportunidade de botar a conversa em dia com um velho amigo e cliente, o Hightimes.

Os problemas começaram com o caos administrativo na Maconhabrás, que a essa altura já tinha mais de cem mil funcionários, quase todos indicados pelos quatro deputados da base aliada ( “Não sabia de nada, isso é coisa do Curupira.”  se justificou a presidente). Por ironia do destino os únicos que nunca faltavam eram os dois ex-traficantes. A expertise deles era muito valorizada pelos clientes.

A Maconhabrás estava à deriva. A imprensa então começou uma campanha pela privatização, desta vez do comércio de marijuana. Colunistas furiosos defendiam que só a iniciativa privada poderia garantir o direito a um baseado de qualidade na casa de cada brasileiro. Até o PSDB e o DEM entraram na onda, dizendo que a marofa pública jamais poderia ser comparada à da iniciativa privada. Foi convocada uma marcha na orla de Ipanema, num domingo de manhã. Pela primeira vez na história Bob Marley e Margaret Thatcher dividiram o mesmo cartaz.

A presidente, guiada por uma conjunção de astros que colocou Júpiter, Saturno e Urano na mesma reta, resolveu vender a Maconhabrás para um consórcio formado pelos de sempre: quatro empreiteiras, mais o BNDES pagando a conta. A empresa passou a se chamar Weedbrax e as lojas ganharam um novo nome, as Jererê’s houses. Metade dos funcionários foi demitida. Praga e Coisa continuaram na empresa, mas agora pela metade do salário, sem plano de aposentadoria e com o dobro de trabalho. Os dois, revoltados com a exploração capitalista, cogitaram desenterrar os AR-15s que tinham escondidos no Alemão e cair na luta armada, mas, visionários, sentiram que era melhor entrar no jogo. O preço da maconha disparou. A Weedbrax criou as Premium Hemps’s Houses, com maconhas especiais, a dez vezes o preço original. Também vieram os sommeliers do bagulho. E as ervas diferenciadas, as gourmets, as adegas de cannabis, as com terroir exclusivo, a com 0% de THC, etc etc.  Bustamante quis protestar contra o fim da maconha tabelada mas o público já estava cansado de ouvir o bordão “Nada a ver, maluco…”. Sem dinheiro para seu cigarro da paz, ele caiu na real: o barato para ele passou a ser uma vaga lembrança. Com trocadilho.

Meses depois, Praga de Mãe e Coisa Ruim, empreendedores natos, deram o pulo do gato liberal: deixaram a Jererê’s house, venderam os fuzis enterrados e criaram um serviço delivery de maconha orgânica, o Air pot, com apps para iOS e Android. O sucesso foi imediato. Estavam ricos. O perrengue dos tempos do Alemão tinha ficado para trás. Até contrataram uma secretária só para dar um perdido no HighTimes, que ligava sempre atrás de uma bagana. Já não podiam perder tempo com doidões. Tempo é dinheiro

Como anunciou o Saci-Pererê, sempre sarcástico, tinha chegado a Era de Aquarius.

 

5 thoughts on “A liberalização da maconha

  1. Regina Racco disse:

    Aí… Nada a ver, maluco!

    heheheheheheheheheh Muito bom, como sempre!

  2. valeria brion disse:

    Muito boa !
    KKKKKKKKKKK

  3. regin@ disse:

    Como sempre você me fez rir um bocado! Adoro rir…
    Obrigada!
    abços regin@

  4. Fábio disse:

    kkkk, bom demais, como sempre!! Ia corrigir o “uma grama” mas aí fiquei em dúvida, pois é planta… rsrsrsrs

  5. norma disse:

    Adorei! Ri até não poder mais…

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