O designer do Jardim Botânico

Meu nome é Guilherme Augusto Castro Maia , mas pode me chamar de Billy Castro®, a marca que criei para ser diferenciado. Moro num predinho de três andares, sem elevador, numa ruazinha bucólica, sem saída. À primeira vista, se você for dos nossos, pode parecer Brooklyn ou São Francisco, mas é no Jardim Botânico. Poderia ser Gávea ou Horto também. O importante é que não pareça o Leblon, lugar de artistas de televisão, celebridades e cafonices afins. No meu bairro, está o tipo certo de artista, aquele que só se vê em perfis de revistas hypadas ou editoriais de moda. Vivo cercado de fotógrafos, arquitetos, produtoras de moda, diretores de arte e músicos. Somos o corpo de baile da cultura carioca. Na minha área, quem não está do lado certo, o do cool e do hype, acaba virando artista plástico. Aí tem que se exilar em Santa Teresa, viver enfurnado em algum ateliê sem o menor glamour. Prefiro enfiar um lápis Blackwing no olho a encarar essa indigência.

Como autonomia é o que há, sou meu personal sartorialist. Artesão do layout, mesmo sem querer, cultivo um visual neo-indie que faz de mim um portfolio ambulante. Cada peça que uso, por exemplo, tem ao menos dez referências estéticas, e juntá-las pode levar várias horas. Tempo não me falta. Para não me confundir anoto todos os modelitos na Moleskine e fotografo com a minha Lomo. Depois posto no Instagram, mas só nele, que selfies no Facebook é o fim, egotrip, coisa de gente do Leblon. Como sou um mestre da embalagem, não posso descuidar um minuto do look, tenho que estar sempre preparado dar de cara com uma produção de editorial streetwear. Foto de moda de rua para o designer equivale à blitz da lei seca para um playboy. Imaginem ser fotografado sem o meu echarpe de brechó combinando com a minha calça da H&M de Estocolmo. Um suicídio social. Não posso vacilar. A forma manda no conteúdo.

Papai é do mercado financeiro. Morro de vergonha disso. Se meus vizinhos descobrem sou expulso daqui. Por isso digo a todos que ele é bicheiro, algo que tem um apelo naif e exótico, bem wild side. Quando aparece aqui em casa para pagar as contas peço pra ele vir sem o terno e botar uma camisa aberta com colar de ouro. Impressiona tanto que certa vez uma amiga até pediu um autógrafo. Fiquei orgulhoso. Pra quê arriscar dizendo a verdade? Já mamãe é tudo: estilista amadora e dona de galeria virtual. Mulher fina, viajada, trendsetter, nunca encostou a mão em nota de real. Essa é recebida de tapete vermelho. Cada vez que chega os vizinhos saem à janela para gritar: “Poderosa! Necessária! Balsâmica!” Ela retribui jogando brindes e dicas de viagem. Queria ser igual à ela mas papai já avisou que quando eu chegar aos quarenta corta minha mesada. O velho só pensa em dinheiro.

Atualmente sou hetero. Já fui gay mas isso ficou muito popular, qualquer um é, tem bee até no Catete, não aguentava mais. Ver a minha sexualidade ser debatida em programa vespertino do SBT é uma derrota total, quase como desfilar de semi-baggy e camiseta Hollister na Praça São Salvador. Já hetero is the new black. Tenho até uma noiva, para ser hetero e vintage ao mesmo tempo. Antonia Catarina Ferraz Almeida mora no Horto, que é a parte mais radical do Jardim Botânico. Catty Fê, como é conhecida por aqui, tem um blog de moda. Aprendeu tudo comigo. Vamos a todos os eventos antenados da cidade, chega a dar canseira, mas se você não está nos lugares certos, você não existe. Noblesse oblige, como diz mamãe, sempre divando. Catty atualiza o blog dez vezes por dia, é uma atividade frenética. Toda hora tem algo novo pra ela comentar. Ganha cinco reais por cada citação nos post. Agora criou uma promoção especial de três citações e um elogio por dez. É o negócio do futuro, as pessoas nunca cansam de elogios. Já apareci no blog dela várias vezes, mas tenho desconto

Galguei, ao longo dos anos, uma sólida carreira até virar diretor de arte de uma agência digital. Agência não, coletivo, mudamos semana passada. Agência é coisa de gente da Barra. Barra é ainda pior que Santa Teresa. O diretor de arte, como se sabe, é um cargo que vem desde o início da civilização ocidental e é responsável por gerir talentos como El Greco, Michelangelo e Pedro Lourenço. Não existe arte sem diretor. Vira zona, confusão, ninguém entende nada. Tem que ter direção. Atualmente, sou responsável pelo catálogo do supermercado Guanabara, aquele que vem encartado no jornal de domingo. Um trabalho incrível que combina cores e formas sem desviar a atenção das ofertas de chã, patinho e lagarto. Um case que certamente será valorizado em Cannes. Tenho me dedicado à essa área de de supermercados e farmácias, pode parecer pouco para o tanto de estilo que tenho, mas quero revolucionar o design pela base. Afinal, o que importa é o básico, li num biscoito chinês.

O primeiro compromisso do dia é uma reunião com cliente no café La pretensieuse, aqui na esquina de casa. Vou de monociclo, para chegar causando. Já tive bicicleta elétrica e fixie, mas elas ficaram muito populares. Pop tudo bem, mas popular não dá. O mise-en-scène é fundamental: peço um doppio cappuccino latte machiatto e despejo Vogues importadas e referências em cima do jogo americano. Quanto mais referências melhor o designer, é o que sempre digo. Junto desde a arte japonesa do período Muromachi aos grafittis na Chicago dos anos 70, não importa a finalidade que o projeto tenha. Meus clientes adoram. Já estou sendo sondado pelo Carrefour.

Depois da reunião, se ninguém estiver reparando, dou uma olhada rápida no jornal. Só no caderno de cultura, para saber se finalmente citaram o meu trabalho. Difícil. A imprensa tem implicância com quem está na vanguarda estética. São invejosos, que eu bem sei. Dos jornais só se salvam os estrangeiros. Todo dia compartilho no Facebook ao menos três artigos do New York Times, que escolho pelo título. Impressiona na timeline.

De tarde vou ao meu ensaio. Toco tamborim feito com pele de gato siamês numa roda de samba perto da PUC. É uma roda especial, só tocamos sambas até a década de 30. Quanto mais deconhecido, mais cool. Todos nos vestimos de terno branco e sapato bicolor. É assim que os sambistas se vestiam antigamente, vi numa produção de moda da Elle Itália. O ensaio sempre acaba no num pé sujo über clean que fica perto, o Péricles, onde discutimos os rumos da estética contemporânea, assunto que nos toma muito tempo. Terminamos sempre detonando o nosso Bin Laden particular: Romero Britto. Ele é o cachorro morto do coletivo. Nunca cansamos de chutá-lo. Não suporto artista vendido.

De noite é hora de postar o meu dia no Instagram e me jogar no Face. Tenho que saber o que acontece no mundo e, mais importante, o mundo precisa saber o que acontece comigo. Mas é claro que eu dou uma photoshopada nos acontecimentos antes de jogar nas redes sociais. Miojo vira De Cecco e Paquetá vira Bora-Bora. A vida é o que tá postado. Se sobrar tempo vou garimpar tendências, meu passatempo predileto. O importante é ver primeiro. Por que quem acha antes é praticamente autor. Então se uma banda indie lança um vinil novo na Islândia tenho que ser o primeiro a reproduzir a capa no Facebook. Todos os meus contatos vão confirmar que sou o mais antenado, a parabólica do hemisfério sul. As mina pira e a grana entra.

Antes de dormir vejo três seriados e uma novela mexicana. Ao mesmo tempo. Dois nas TVs, outro no laptop e mais um no iPad. Mixar é hype, você pega várias idéias usadas e transforma numa nova. É aí que entra o talento do artista. Estou pensando em colocar uma terceira TV, 3D, no banheiro, para captar tendências até nos momentos mais íntimos. Mas para isso preciso fazer mais uma reforma. A decoração da minha casa é toda inspirada no catálogo da Ikea de 1978. Foi um marceneiro lá do Catete que fez, baratinho. E ele nem sabe o que é a Ikea. Mal conhece a Tok&Stok. Coitado. Falta cultura aqui, ninguém sabe o que tá acontecendo lá fora, não sei como aguento. Às vezes andando pelo Jardim Botânico imagino que estou no Marais ou em Williamsburg. Sou um sonhador. Mas o tipo certo de sonhador. Meus sonhos são analógicos, preto e branco, um pouco desfocados e no contraluz. Nada parecido aos desses artistas hippongos, que sonham qualquer maluquice. Os meus tem forma e função. Não dá pra descuidar nem dormindo. A forma manda em tudo.

(Com colaboração de Renato Terra)

22 thoughts on “O designer do Jardim Botânico

  1. sandra disse:

    Gargalhei, muito, muito bom!

  2. Mariana Filgueiras disse:

    Hahaha Ele deve ser parente d’ Os Adequadinhos http://dinamicadebruto.wordpress.com/category/os-adequadinhos/

  3. eliana camara disse:

    Amei !!! Parece mesmo o JB, a Gávea, Leblon e os lugares citados… Bem “in” esse rapaz kkkk

  4. Jessica k disse:

    Genial! A caricatura em palavras da cariocada hypada da zona sul. Ri muito! A parte do “Imagine ser fotografado sem o meu echarpe do brecho…” gargalhei haha. Sempre me pergunto de onde vêm essas pessoas que aparecem quando vejo um streetstyle. A Barra é mesmo um bairro judiado do Rio, esqueceram do suburbio e agora a zoeira ficou toda pra Barra hauahuhau. Muito bom!

  5. J.R. disse:

    Novos tempos….

  6. val ayres disse:

    lápis blackwing… fantástico.

  7. É claro que é uma caricatura em palavras, mas é o que é. Fico ainda mais feliz por ter saído do Rio.

  8. regina mas disse:

    Esse moço vai longe… Está no caminho certo, bem de acordo com o mundo atual.
    Parabéns pela crônica!
    abços
    regin@

  9. Vagner Duarte disse:

    Noivar para ser vintage e rebelde foi tão bom quanto chegar de monociclo.

  10. Eugênio Mendes disse:

    Excelente ri muito, não estou sozinho…
    Sua criatividade, apesar de ter muito argumento disponível por aí, é interminável!!
    Um bálsamo, parabéns Leo!

  11. Aline disse:

    Sensacional! Parabéns pela qualidade do texto.

  12. brunocochito disse:

    matou a pau e lápis blackwing.
    excelente texto!

    =)

  13. AHC disse:

    Muito bom !

  14. beto jr. disse:

    Hilário e bem pontuado. Preciso.

  15. Christinna Costa disse:

    Muito bom Leo…me senti aí no Rio. Momentos hilários!

  16. Sylvia disse:

    Como dizem nos termos “in”do instagram kkk lacrou kkk
    muito bom o texto, a descrição é tão boa que pdemos fechar os olhos e imaginar direitinho o personagem… ou sair nas ruas desses bairros e vê-lo passando 🙂
    Adorei! Parabéns.

  17. porto sergio disse:

    Sofisticação e humor de primeira qualidade!
    Bom saber que temos desconhecidos talentosos aqui perto do Horto!
    O texto é excelente!
    Parabéns ao ilustre autor!

    Porto

  18. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAAHAHHA!!!!!!!!!!!!!

  19. Charles disse:

    Sei não, boa parte da galera que acha engraçado deve no fundo se identificar um pouco…
    meio recalcado essa estigmatização de “elite-branca” pelo “pseudo-proletáriado internético”… vide coxinha de osso-buco, reis do camarote, romeros britos, etc…

  20. Vera disse:

    Uma das melhores, sem dúvida! Adorei o “hétero ia the News black” . Ri muito

  21. Julia da Matta disse:

    muito bom mesmo! parabens!

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