Fotografando Chico Buarque

Chico12

A diretora de arte pede candidamente uma imagem do Chico sorrindo. Parece simples, mas não é: sorrir para fotos é algo que ele não gosta. Na verdade o que detesta mesmo é ser fotografado. É um tempo que considera perdido, um tempo que ele podia usar compondo, escrevendo ou jogando futebol. Qualquer coisa, menos ficar na frente de uma câmera, no caso a minha. E eu nem sou um sujeito especialmente chato, quer dizer, sou até engraçado, ainda que de maneira involuntária. Por isso sempre tento não demorar, para não virar o Lex Luthor da mpb, o autor do click que tomou o tempo de mais um verso genial. Já tentei todo tipo de truque para descontrair, de conversar sobre o Fluminense ou afirmar veementemente que Maradona é melhor que Pelé. Tudo vai bem até apontar a lente. Mas a parte boa é que ele é resignado, sempre aparece pontualmente nas sessões marcadas, ainda que estampando mesma cara que o meu filho faz em dia de vacina.

Mas o que me falta em tempo sempre sobra em pretensão: conseguir um grande retrato do Chico Buarque. Quem sabe com um olhar que represente as mulheres na obra dele? Ou um gesto que traduza suas musicas de protesto? Ou tudo isso ao mesmo tempo, mais a solidão do artista criativo? Sempre começo a fotografar com a utopia de que vou virar o Alberto Korda, aquele que fez a imagem definitiva do Che Guevara. O sonho vai minguando até terminar com a realidade de 3×4 de lambe-lambe.

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O pedido da diretora não é à toa. Nenhuma mulher é indiferente ao Chico. Tem as que admitem e lidam bem com isso, na medida da paciência do marido ou namorado. E tem as que negam, dizendo que ele tá velho e caído. Essas são as piores. Quando conseguem chegar perto perdem completamente a linha. Já vi um casal de mulheres brigar feio por conta dele. Ao que parece uma delas quando viu o Chico descobriu não era tão homossexual assim. Acontece a mesma coisa com o Caetano Veloso e os críticos musicais. Quando o jornalista está sozinho na redação, tem sempre uma teoria super fundamentada sobre a decadência do Caetano e sua atual irrelevância no cenário musical. Na frente dele, numa entrevista, logo fica com um sorriso abobalhado, concordando com qualquer coisa que diga.

Pessoalmente o que eu mais admiro no Chico é ele ser um expoente da MAB, a musica assoviável brasileira. Nenhum outro autor tem tantas composições que você consiga assoviar tranquilamente andando na rua. É claro que cada vez menos pessoas fazem isso, virou uma habilidade pré-histórica, hoje em dia preferem tomar um Rivotril ao invés de dar uma volta no quarteirão assoviando “Meu caro amigo” ou “A banda”. Na era do tambor a melodia virou peça de museu.

Voltando à encomenda que me foi feita,  desta vez resolvi abrir o jogo com o meu modelo:

– Chico, pra essa foto preciso que você faça um olhar que represente a alma feminina e uma pose que sintetize a sua fase mais política. E não esquece da solidão do artista criativo.

Ao menos a diretora de arte conseguiu o que queria.

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5 thoughts on “Fotografando Chico Buarque

  1. Luisane disse:

    Embevecida

  2. Eu SEMPRE morro de rir com suas histórias! Seus textos são muito visuais, que maravilha! Parabéns!

  3. Nivia Eutrópio disse:

    Gosto da delicadeza do texto e consigo trazer as cores das palavras até o meu canto aqui nas Gerais.

  4. Elika disse:

    Reza a lenda que nenhuma mulher é imune ao Chico. Conheço muitas que admitem e lidam super bem com isso. Se casadas, os maridos se rendem já que, se um dia ficarem diante do Chico, até eles terão o coração acelerado. É possível que mesmo as lésbicas, ao verem Chico, descubram-se não tão homossexuais assim. As que afirmam que ele não faz o tipo, que ele não canta bem, que ele isso, que ele aquilo assim se comportam somente quando longe daqueles olhos azuis. Na frente deles, abrem logo aquele sorrisinho abobalhado e ovulam. Dizem.

    O discurso é sempre o mesmo. Chico Buarque conseguiu realizar uma das tarefas mais difíceis da humanidade: decifrar a mulher em suas múltiplas faces. As dóceis, de vida fácil, trabalhadoras, filhas, mulheres, amantes, musas, silenciosas, do mar, do céu, de outro lugar… Não importa como ela seja. Chico a compreende. Parece até que já foi mulher em outra encarnação para nos decifrar com tanta maestria. Dizem.

    Se ele, de fato, desvendou a alma feminina, a minha é, então, de um outro gênero.

    Não me encontrei nem de longe, por exemplo, em Com açúcar, com afeto. A mulher faz o doce predileto para ele ficar em casa. Ele não fica. Sai lindo e cheiroso dizendo que vai trabalhar para sustentá-la e qual o quê! Bebe, fuma, assobia para outras que passam na rua e volta para casa maltrapilho e maltratado e a Amélia corre para esquentar o prato do fanfarrão. Qual o quê, minha gente. Qual o quê!

    E Maria, a louca dos Anos Dourados? Uma bipolar que deixa confusões no gravador, acha engraçado se ele tem um novo amor, se o ama?, ela não se lembra, não sabe se ainda o esqueceu de uma vez, com os olhos insanos se lembra dos anos passados e dá-lhe mais loucuras no gravador sem esperança de beijá-lo nunca mais. Nunca mais!!! Fala sério, Maria, se interna!

    Também estou longe de ser a mulher que só diz sim de Folhetim. Primeiro que sou mulher de família mas, se puta, não seria por uma prenda qualquer coisa assim para eu ter uma noitada boa, um cinema ou um botequim. Muito menos sou aquela sem a menor auto-estima que fica chorando Atrás da Porta baixinho depois de se arrastar, de agarrar nos cabelos dele, no pijama, nos pés do diabo que se meteu com essa submissa, dependente, deplorável. A condição (necessária mas não suficiente) para ser amado por mim é me amar quase que acima de tudo, portanto, serei incapaz de adorar qualquer homem pelo avesso dadas as minhas condições.

    Também não sou Morena dos Olhos d´água que fica esperando o homem que prometeu voltar já já, ouvindo um outro alucinado falando que tem histórias, sorrisos, que sonha com o amor dela e fica insistindo agora, morena, vem! Agora, morena, vem! Ah, vê se me erra! Outra que não tem o que fazer, além de ficar na janela, é Januária. Qualquer um que madruga pode conferir que ela está lá. Estática. Distraída. Absorta. À toa. Sem nem um livro. Que isso…

    Meu Cotidiano está a anos-luz de ficar dizendo essas coisas que diz toda mulher para seu marido. Não beijo Nelsin todo dia com a boca de paixão, não vivo com medo de ele se afastar e não lhe juro eterno amor toda noite. Não que esses sentimentos não me ocorram, mas eles não são o meu dia a dia e muito menos, assim, exteriorizados por uma boca de pavor.

    E vamos combinar, não sei fazer uma Feijoada Completa e não vou gostar nem um pouco se trouxer uns amigos para conversar sem aviso prévio. Vou me afobar sim senhor! E que história é essa de não tem que pôr a mesa? Ponha os pratos no chão e o chão tá posto? Era só o que me faltava. Mulher, você vai fritar. Vou fritar nada! Joga o paio, carne seca,toucinho no caldeirão. Vou jogar nada! Mulher, depois de salgar, faça um bom refogado que é pra engrossar. Vou salgar nada, vou engrossar nada, vou botar mais água em nada!!! E cadê a palavrinha mágica, Francisco Augusto?

    As mulheres de Chico não trabalham, não pensam, não leem, não buscam a independência. Muito pelo contrário. Ou são passivas ao extremo ou histéricas. Vide Mulheres de Atenas. Se Chico Buarque, de fato, entendeu sobre nós mulheres favor, querida, não reclamar se apanhar. Vivemos esperando, cozinhando, somos assim tão submissas e fogosas com nossos maridos incondicionalmente e contemplamos tanto assim a paisagem na janela???

    Dirão os literatas que essa é uma forma de se chamar a atenção para aspectos da opressão sofrida por tantas mulheres e dissertarão sobre a importância dessas coitadas serem representadas. Pode ser. Mas daí a dizer que ele apoderou-se da essência de nossa alma é um grande equívoco e quiçá perigoso, pois ele, penso eu, ajudou a reforçar um esteriótipo enraizado em nossa sociedade que está longe de ser um reflexo do meu conceito de feminilidade. No mais, que diabo de tática é essa de retratar as relações abusivas e pintar a mulher com esse forte tom de resignação para nos ajudar? Em que medida essas belas canções apaziguam um diálogo entre os sexos?

    Meu caro amigo me perdoe, por favor, mas Chico nem chegou perto de me entender e cantar sobre a minh´alma. Se acaso me quiseres, não sou dessas mulheres.

    Tenho dito.

  5. Elika disse:

    Em tempo, assinei o blog. Descobri-o há pouco tempo e acho que já li tudo o que aqui está escrito.

    Parabéns!

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