Bebida

Tenho que dividir com todos algo que me envergonha há anos. Algo que me trouxe muitas dificuldades e constrangimentos desde a minha adolescência. Perdi muitos amigos, minha vida social foi afetada e mesmo entre a minha família sou motivo de chacota. Até meus pais já me pediram para que eu procurasse ajuda profissional. É coisa muito grave.

Eu não bebo

Lembro como se fosse hoje. Tinha onze ou doze anos. Meu pai me ofereceu meia taça de vinho. Fiquei radiante, via todos felizes e alegres quando bebiam. Mas só consegui sentir um amargo horrível. Tentei todas as outras bebidas. Tudo amargo, tudo horrível. Intragável.

Meus amigos tomavam todas, aprontavam todas e eu ali, sempre, sóbrio e, obviamente, sozinho. As aventuras mais mirabolantes, os desejos mais loucos, tudo parecia obra desse líquido maravilhoso. Não era só isso. E os chatos? Quantos e quantos chatos e inconvenientes eu tive que aturar tendo a plena consciência da chatice deles. Meio copo de cerveja já seria um grande alívio. E reuniões familiares? E festas de fim de ano da firma? Alguém consegue imaginar o que é uma comemoração de empresa sóbrio? A mala da repartição te pegando pelo braço e gritando na sua cara que te considera o melhor amigo dele? Triste, muito triste.

E shows que fui obrigado a assistir prestando total atenção? Daqueles amigos que são péssimos músicos mas são gente boa. Até um bombom com licor aliviaria o peso de tantos acordes errados ecoando na minha cabeça.
Não vou nem falar da falta que o álcool fez na minha vida afetiva. Chega a ser covardia. Imaginem um nerd tímido sóbrio. Pois é. Nas bacanas eu não tinha coragem de chegar e as nem tanto, bem, das bem tanto na manhã seguinte lembrava de tudo. E quantas DRs aguentei ? E os ciúmes? E as dores-de-cotovelo? Tudo aquilo que meia garrafa de whisky bastaria para esquecer para sempre.

Minha maior alegria foi quando inventaram a lei seca: finalmente algo de bom por não encher a cara. Mas até hoje nunca consegui ser parado para soprar o maldito bafômetro. Saio da festa sóbrio as quatro da manhã , passo uma, duas, três vezes pela mesma blitz e nada. Nunca nada salva a minha noite.

Enfim, mais uma juventude destruída pelo álcool. Ou melhor, pela ausência dele.

One thought on “Bebida

  1. Cintia Garland disse:

    Tambem nao tomo e nunca alcohol e entendo bem o que dizeste. 🙂

Deixe uma resposta