O importante é ficar bem na foto

Hoje fotografei uma das maiores neurocientistas do mundo. É algo mais complicado que fotografar psicanalistas. Com estes vc fica achando a todo momento que eles estão analisando o seu comportamento, vendo o quanto a maneira com que a troca de lentes demonstra uma relação mal resolvida com a mãe ou que o fato de gostar de fotografar no contra luz é um sinal de bipolaridade. Para quem tem a normalidade como uma utopia é um momento bastante tenso.

Com uma neurocientista o buraco é mais embaixo: a sensação que dá é que ela te observa como a um ratinho no labirinto do laboratório. Então, pra não fazer feio, tenho que pensar em cada passo, cada movimento, tentando não virar exemplo num congresso sobre comportamento humano.
A coisa ia bem, tinha conseguido achar a sala dela sem me perder e montar o set de luz sem tropeçar em nada. Com isso eu achava que já estava bem posicionado, algo à frente do Australopithecus ou um Neanderthal. Um bom começo.

Na hora das fotos expliquei o que queria e preparei a câmera. Apertei o botão e nada. Mais uma vez e nada. Olhei os comandos, todos na posição. A maldita estava dando defeito logo ali. Dei uma olhada para minha modelo de rabo de olho e percebi um olhar curioso. Tentei disfarçar fazendo comentários genéricos sobre o tempo e a falta de chuvas no verão.

Apertava o botão e nada. A curiosidade dela só aumentando. Comecei a falar sobre como a tecnologia moderna não era confiável, que no tempo do filme isso não acontecia e blá, blá, blá. A situação não melhorava. A câmera continuava sem reação. O que Sebastião Salgado faria numa hora dessas? A tensão embaralhava os neurônios. Algo que não é bom que aconteça na frente de uma renomada neurocientista. É como sangrar na frente de um tubarão branco. Precisava resolver isso rápido, ia acabar com a minha imagem e a de toda a categoria profissional.

Ela se aproximou. Comecei a relacionar a obra do Henri Cartier Bresson com a filosofia de Platão, para ver se me saia melhor na teoria que na prática. Se a chance de parecer cool e esperto já tinha passado, tentava ao menos parecer normal. Seria o obturador? Algum problema no sensor? O que adianta tanta sofisticação tecnológica se ela falha na hora que não pode?

O meu domínio sobre o meu instrumento de trabalho estava sendo scanneado naquele exato momento. Era a hora de saber se eu ia terminar na galeria da fama da Fotografia ou disputando bananas com um chimpanzé.

Ela chegou mais perto e resolveu a questão:

– Você esqueceu de tirar a tampa da lente.

 

2 thoughts on “O importante é ficar bem na foto

  1. Ana Carolina disse:

    O ocorrido foi puro nervosismo de ser avaliado. Hahahahaha, ótima experiência Léo!!!!

  2. m vinicius pires disse:

    Ótimo saber que até mesmo os melhores profissionais se “embaralham” em determinadas situações. Valeu por dividir a experiência e ainda de forma tão agradável.

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