O café da esquina

O primeiro café que entrei na vida foi o que meu pai frequentava. Ficava numa esquina e tinha um salão grande com várias mesas, as do meio ocupadas por pessoas conversando, as das janelas por quem estava sozinho. Muita gente ia só para ler o jornal. De quando em quando olhavam pra fora para conferir se o escrito estava mesmo acontecendo. Conversavam sobre futebol ou política, dependendo se era época de campeonato ou de eleição. Quase todos fumavam. Os garçons eram elegantes, a maioria de cabelo branco, conheciam os clientes pelo sobrenome, que também sabiam os deles. Não havia cardápios, não precisava. Acho que estava naquela esquina desde sempre, todo em madeira e ferro, louça simples e branca, talheres ásperos de tão gastos. No verão meia dúzia de ventiladores cansados espalhavam o mormaço, no inverno apenas fechavam as janelas. Como era pequeno eu achava aquilo uma espécie de museu, recheado de dinossauros. Uma velharia sem fim. Naquele tempo o mundo não era feito para crianças.

Um dia surgiu o primeiro fast food na cidade. Para mim, que tinha uns oito ou nove anos, foi como se Papai Noel chegasse tocando guitarra. Tudo novo, em alta definição e technicolor. O cardápio finalmente estava lá, exposto nas paredes, com grandes fotos.  E ainda tinha um palhaço como símbolo. Era um pedaço da Disney perto da minha casa. Uma epifania infantil. Precisava tirar o meu pai daquele museu sombrio que ele habitava e levá-lo aos novos tempos. Tanto insisti, tanto perturbei, que ele acabou cedendo. Fomos os dois rumo à modernidade. Já no primeiro momento ele ficou espantado com tantas cores, com tanto plástico. Depois sentou com dificuldade na cadeira, que era presa na mesa que por sua vez era presa no chão e ficou esperando o inexistente garçom. Fiquei morrendo de vergonha daquele fóssil que sequer sabia como funcionava o restaurante mais legal do mundo. Expliquei, impaciente, que tinhamos que pegar a comida lá no balcão, ninguém servia nada. No futuro tudo seria assim, exultava visionário. Meu pai foi atrás de um café pingado. Todos os atendentes se entreolharam espantados com o pedido misterioso. Não tinha no cardápio, o palhaço não gostava de café, isso era coisa de antigamente. Meu constrangimento não acabava nunca. Convenci o dinossauro a ficar só no hamburguer e refrigerante. Ele cedeu mais uma vez. Ficou na mesa olhando aquela profusão de caixinhas de isopor, copos de papel, talheres de plásticos e finalmente perguntou se eu estava gostando. A resposta era óbvia.

Há pouco fui com ele num shopping do Leblon. Na saída ele quis parar num café. O mais próximo era de uma rede americana, provavelmente prima daquela do palhaço. Os mesmos códigos, a mesma apresentação, só que em cores diferentes. Uma versão Las Vegas daquele da esquina. Ficamos ali, cercados de lojas e ar condicionado, olhando os copos de papelão e  os saquinhos de adoçantes. O público concentrado em celulares e laptops e o silêncio do WiFi só cortado pelo funcionário do balcão convocando os clientes em voz alta. Fulano! Beltrano! Sicrano! E lá iam eles orgulhosos receber os seus copos de papelão com tampa de plástico. Meu pai olhou para mim e viu o nó impecável na gravata do garçom, a fumaça dos cigarros filtrando a luz do sol, os cubos de açúcar, as conversas. Nem precisou repetir a pergunta. A resposta era óbvia.

13 thoughts on “O café da esquina

  1. Leo disse:

    O que aconteceu com o post “O importante é ficar bem na foto”?

    • Leo Aversa disse:

      Oi!

      Deu algum bug e ele sumiu. De qualquer maneira continua no Facebook. Vou republica-lo nos próximos dias
      abs

  2. regina mas disse:

    É Leo… e não havia gente obesa, as pessoas conversavam, ninguém estranhava o café pingado. Mas… a vida é assim mesmo, ou melhor, o mundo é assim… impermanente. Tudo muda, nem sempre pra melhor. Os dinossauros se foram mas, tenha certeza de que darão lugar a outros mais moderninhos… e obesos…Talvez não sejam bem dinossauros, mas um outro animal qualquer em extinção.
    Muito sensível e bonito seu texto… Senti falta de rir… mas não chorei…
    Abços regin@

  3. Caro Senhor,

    Notamos a referência, ainda que velada, à nossa marca e estabelecimento. A Starbucks muito se orgulha de estar no Brasil e poder oferecer o jeito e a filosofia Starbucks para seus clientes brasileiros. Na Starbucks oferecemos espaços para nossos clientes conversarem, contemplarem, curtirem, trabalharem, enfim, ficarem à vontade, sozinhos, com seus computadores, tablets ou smartphones, ou com amigos. Em outras palavras, respeitamos a individualidade e a liberdade de cada um fazer o que mais lhe aprouver. Entendemos que dessa forma, contribuímos para nos aproximar de nossos clientes fazendo de nosso estabelecimento uma extensão de sua residência. Infelizmente, o passado não volta mais. Mas podemos garantir que no Starbucks fazemos de tudo para que o presente seja o mais delicioso e agradável possível.

    Cordialmente,

    Richard Mahoney dos Santos – Gerente de Comunicação da Rede Starbucks Brasil

    • Roque Junior disse:

      Engraçado procurei pelo seu nome no grupo starbucks e linkedin e não achei. Será que você existe mesmo, Sr. Richard, ou resolveu trollar com o post alheio?

      Ah sim, e se você for do Starbucks Brasil, manda os seus baristas a aprender a servir um espresso pra viagem no corpo CERTO.

    • Jonathan disse:

      Starbucks,
      Já que se importam tanto com os seus clientes.
      Que tal um desconto para os leitores to TontoMundo?

  4. Jason Vôngoli disse:

    Starbucks é sacanagem… O próximo passo é levar seu pai para tomar um chope no Devassa do New York City Center?

  5. Eliana C lima disse:

    No Leblon – dentro e fora – do Shopping, existem cafés modernos com “cara” de Brasil, com café de verdade.
    Adorei seu texto, mas, vamos combinar que entre o antigo café que seu pai lhe apresentou e esse horror que chamam de café vendido no 2º exemplo da sua crônica, temos opções ainda boas – mesmo que não possuam wi-fi…
    Grande abraço,

  6. Luiz Maciel disse:

    “a fumaça dos cigarros filtrando a luz do sol…” Isto foi na cafeteria dentro do shopping?

    • regina mas disse:

      Boa pergunta, Luis…. Aliás, nem que fosse fora de shopping… Cigarros????? Fumaça….
      Nessa o Leo viajou! risos…
      Mas o Leo tem licença pra viajar que os textos são muito bons!
      bjs regin@

  7. Lucíola disse:

    Adorei o texto Leo.
    Beijo,

  8. Paulo disse:

    Nunca mais…!

  9. Marcos disse:

    Acho que vocês não entenderam bem o final do texto rs rs rs

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