O Brasil radical

Não se sabe ainda como o PSTU do B, partido criado pela ala mais radical do PSTU, acabou ganhando a eleição. Talvez tenha sido o resultado da Copa, talvez a oposição de uma revista semanal, secretamente financiada pela Coréia do Norte para desacreditar a direita brasileira ou até mesmo um surto de niilismo. Não importa. A extrema esquerda finalmente estava no poder.

A presidente Sininho assumiu o governo com idéias revolucionárias: no primeiro pronunciamento à nação avisou que a partir daquele momento nenhum cidadão ia precisar se preocupar com nada. O governo ia pensar por ele, cuidando de tudo e de todos. Não só da saúde, educação, transporte e segurança, assuntos considerados pequeno-burgueses pelos revolucionários, mas tudo mesmo, de briga de vizinhos até o preço do coco no Leblon, passando pela escalação do meio de campo do Flamengo. Para isso seriam criados mais 3243 ministérios e 6547 estatais. O problema é que o PSTU do B só tinha quatro integrantes, então rapidamente o PMDB, socialista desde sempre, se ofereceu para ajudar. A substituição do vice presidente original pelo Sarney (agora em versão barba preta) foi recebida com certa preocupação. Seu partido passou a controlar quase todo o governo, inclusive a senha de banco da presidente. Influenciada pelo estilo dos novos aliados, Sininho resolveu acabar com a miséria no Nordeste transferindo São Paulo para o Maranhão. O plano foi considerado lunático pelos infiéis reacionários, mas a presidente, guiada pela consciência do proletariado, seguiu em frente sem dar ouvidos aos opositores, como convém aos verdadeiros revolucionários.

O dia a dia do brasileiro ficou bem mais simples. Todos acordavam as seis da manhã, nem antes nem depois, como estabelecido pelo Ministério da Aurora, e tomavam o mesmo café da manhã, seguindo o cardápio da Secretaria da Primeira Refeição. Só existia um jornal, que trazia as notícias cuidadosamente escolhidas pelo Ministério da Realidade. Às sete a Tevebrás transmitia o “Bom dia Sininho!” programa de cinco horas onde a presidente cantava hinos patrióticos, ensinava a prática do legítimo socialismo tropical e oferecia conselhos afetivos. Numa atitude extremamente ecológica os carros particulares foram proibidos. Como o Ministério dos transportes era do PMDB, ônibus trens e metrô passaram a ser fornecidos exclusivamente por aliados de Renan Calheiros, que os compravam usados no Paraguai e revendiam para o governo pelo triplo do preço. Jornais clandestinos denunciaram a negociata e com isso todos foram parar no paredón. Não os aliados, só os jornalistas que fizeram a denúncia. A presidente, por demais ocupada pelo programa diário, não conseguia dar atenção a esses pequenos detalhes e os quatro integrantes originais do PSTU do B, os cardeais da revolução, passavam o tempo brigando entre si, como sempre.

Cada cidadão tinha o emprego escolhido pelo Ministério da Vocação e os salários foram abolidos: cada um tinha que ir na Gastobrás, a estatal que cuidava das despesas pessoais, e explicar o quanto precisava e onde ia gastar, sendo que o dinheiro só podia ser aplicado em bens e atividades pré-aprovados pelo ministro da Responsabilidade Financeira, Jáder Barbalho.

Inexplicavelmente o país começou a afundar. A presidente atribuía todos os problemas à uma conspiração dos agentes capitalistas internacionais, teoria desenvolvida no Ministério do Não-Fui-Eu. O blogueiro oficial da presidência inventou a  Mandrakebrás, uma estatal cujo objetivo era criar a ilusão de prosperidade, mas mesmo assim o clima só piorava. Os quatro companheiros do PSTU do B, cansados da situação, criaram um novo partido, o BUTS do P, para fazer oposição ao governo. A presidente Sininho foi obrigada a convocar novas eleições.

Desta vez, com a população ainda traumatizada pela última experiência, quem ganhou a eleição foi o NeoDemo, um partido à direita do antigo DEM. Formado pela Sheherazade, o Bolsonaro e um conselho de colunistas de direita, o NeoDemo tratou logo de mostrar serviço: privatizou absolutamente tudo, principalmente saúde, educação, transporte e segurança, setores considerados um antro de comunistas pelos novos reacionários. No primeiro pronunciamento à nação a presidente Sheherazade deu o tom: “Em tempo de murici, cada um cuida de si.” O conselho de colunistas, uma espécie de talibã ateu, decretou que a lei de Gérson era a nova constituição. O país seria dos mais espertos, numa versão involuntariamente sarcástica da meritocracia liberal. Seguindo outra recomendação do conselho o voto passou a ser pago: o preço variava de cem reais para votar para vereador até dez mil para presidente. “Só assim o povo vai entender o valor de uma eleição e só tem valor o que pode ser comprado” foi a explicação oficial. A solução do Bolsonaro, agora Ministro da Justiça, para a segurança foi uma farta distribuição de pistolas e fuzis para a população (exceto aos que ele considerava incapazes: crianças menores de cinco anos, homossexuais, mulheres e negros). Tudo passou a ser resolvido à bala, desde briga de vizinhos a discussões sobre o preço do coco no Leblon. O meio de campo do Flamengo não sobreviveu à fúria da torcida armada.

Como o NeoDemo era um partido pequeno, precisou pedir ajuda ao PMDB, que exigiu Sarney (na versão tradicional) como vice. Foi também o PMDB que organizou toda a privatização do governo, motivo pelo qual os aliados do Renan Calheiros conseguiram comprar quase todo o país a preço de banana ( eles pretendiam vender tudo de volta ao governo quando a esquerda voltasse ao poder). Foram proibidos protestos, manifestações, greves ou qualquer tipo de reclamação. “Quem reclama é porque levou uma volta e se levou uma volta é porque é otário. O Brasil não é mais lugar de otários”, explicou Sheherazade, com a candidez que lhe é peculiar. Os que ganhavam um salário mínimo eram obrigados a usar um uniforme escrito “perdedor” na frente e “pobre” atrás. O bulliyng contra os menos favorecidos não só foi liberado como também incentivado. A presidente dava o exemplo chutando os mendigos que encontrava no caminho para o Palácio do Planalto. Em pleno século XXI criava-se o capitalismo medieval.

A situação saiu do controle quando houve um grande incêndio na Rocinha. Os bombeiros, privatizados, exigiam pagamento adiantado para debelar o fogo. Como o dinheiro dos moradores estava chamuscado, só aceitavam Visa ou MasterCard ( 3x sem juros). Enquanto a negociação não andava o fogo se alastrou e reduziu metade da Zona Sul a cinzas. A declaração do Ministro da Justiça de que o acontecimento era irrelevante já que a maioria dos mortos eram pobres e que entre eles havia muitos gays não teve boa repercussão. A chapa esquentou e na eleição seguinte o NeoDemo foi deixado de lado.

Cansados das experiências radicais malsucedidas, desta vez os brasileiros votaram em alguém sábio, centrado, com condições de conduzir o país de maneira competente pelos desafios no novo século. Thor Batista foi o eleito. O PMDB,  como sempre preocupado com a nação, indicou Sarney ( agora em versão Tutankamon) como vice. O país completava o seu giro de 360º.

 

7 thoughts on “O Brasil radical

  1. NILTON MAIA disse:

    Prezado Leo,

    Como diz o Aluísio Machado, em um de seus sambas, “peço que me perdoe a redundância” em escrever eu, mais uma vez, que esta sua crônica é ótima, das melhores que você já publicou. Só o aspecto “camaleonesco” do Sarney e seus pares do PMDB, conforme você aborda, já valeria a mesma.
    Creio que, lendo o que você publica, mais do que nunca pode-se aplicar o ditado latino, embora de autoria de um francês (Molière): “Ridendo castigat mores”. E, no seu caso, como castiga!

    Um abraço do fã de sempre,

    Nilton Maia

  2. Marilia disse:

    Muuuuuito bom!!! Agora, Thor Batista, foi demais!!! Arrasou!!!

  3. Ana Carolina disse:

    Ser sua fã me deixar forte jornalisticamente. Obrigada pelos textos maravilhosos.

  4. regina mas disse:

    Leo, boa noite… Estou rindo como há muito tempo não acontecia. Você foi simplesmente genial… Na brincadeira, disse tudo. Acho que nada escapou…E terminou magistralmente… o giro de 360º, ou seja, não saiu do lugar. Maravilha de texto… Apesar de estar rindo um bocado, sinto um nó na garganta ao ver tantas verdades expostas nesse texto…
    Valha-me…
    Obrigada sempre
    abços regin@

  5. Octavio Queiroz disse:

    Genial ! Adoro seus textos, sempre imperdíveis ! Abs

  6. Gustavo Horta disse:

    Cara, você foi brilhante.
    Sensacional!
    O Sarney camaleão e o tradicional PMDB oportunista é um show de bola.
    Fechar com o piloto de Mercedes Benz, atropelador de ciclista que morre “acidentalmente” na presidência é um clímax!
    Demais.
    Parabéns.
    Felicidade. Sempre.

  7. Christinna Costa disse:

    Nossa…ri muito!!! É isso…completamos o ciclo “n” vezes e só piora.
    E nada mais perfeito do que a múmia Sarney, terminar(será?) na versão
    Tutankamon!
    Parabéns Leo…mesmo ficando com um baita amargo na boca ao final.

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