Só mudam as moscas

Já cheguei no meio da estrada. A esta altura já percebi que muitas das minhas ilusões infantis não vão se realizar. Não vou disputar uma final de Copa do Mundo e a carteirinha de astronauta que meus pais me deram no natal de 78, uma que dava direito à uma viagem à Lua, talvez não seja verdadeira.

Os sonhos da juventude também vão ficando pelo caminho. Conseguir tocar violoncelo, por exemplo. Ou viver num país mais justo. Desse então, melhor nem falar. O blá, blá,blá de que a história é linear, que amanhã vai ser melhor do que hoje e muito mais do que ontem, é bom esquecer. Tenho que aprender a lidar com o que é imutável, incorrigível. Como o Sarney. Passei a minha vida inteira esperando o sujeito tomar vergonha na cara. Adiantou? Nem ele mudou muito menos os eleitores dele. O Maranhão continua na rabeira da civilização e ele continua lá, impávido, no Congresso. E desconfio que no dia que ele partir alguém ainda pior vai estar pronto para tomar o lugar. Não faltam Bolsonaros ou Felicianos.

Talvez a política seja o ponto fraco do brasileiro, como a kryptonita do Super Homem. Culpa da água, do clima ou de algum componente do feijão. O fato é que em termos de governo não chegamos ainda nem no patamar da opção entre esquerda e direita. Dá no mesmo PT ou PSDB, estamos ainda patinando na corrupção, na malandragem, na eterna obra farônica superfaturada. E essa ilusão de que o Congresso Nacional está cheio de alienígenas, que é um lugar que não tem nada a ver com o resto do país, talvez isso não seja verdade. Em algum momento vou ter ter que aceitar o fato de que o Congresso brasileiro é um reflexo da sociedade brasileira. Aquelas 500 pessoas não foram eleitas em Marte e enviadas secretamente para Brasília.  E aqui do meio da estrada já percebo que se desaparecerem essas 500, as que entrarem no lugar não serão muito diferentes. Sempre foi assim, provavelmente sempre será. Igual à propina do guarda e o vice campeonato do Vasco.

Numa viagem à Africa tentei consolar um fã de futebol etíope que estava triste porque a sua seleção mais uma vez não tinha se classificado para a Copa do Mundo. Disse que mais cedo ou mais tarde eles chegariam lá. O sujeito respondeu que ia ser difícil, a Etiópia ja estava tentando há séculos, antes mesmo do futebol ser inventado. Os caras são realmente ruins de bola. Excelentes maratonistas, mas não acertam meia dúzia de passes. Fazer o quê? Melhor o etíope se conformar.

Talvez seja o caso do Brasil com a política. Tivemos o Tom Jobim, o Niemeyer, o Senna, somos brilhantes individualmente, mas nossa noção de coletividade não passa dos onze de um time de futebol. Vamos ter que aturar sempre Renans e seus cúmplices, vamos conviver eternamente com o “Quanto eu levo nessa jogada?”, porque nunca conseguimos entender com clareza a relação entre um picareta no poder e a falta de hospitais e escolas.

Isso não quer dizer de maneira alguma que eu vá compactuar com pilantragens e safadezas ou votar em alguém sem princípios. Mas cada vez com menos esperança. Como disse o o FHC, num momento inspirado, falando sobre os problemas do país: “o Brasil é isso aí”. Não vai mudar, ao menos eu não vou conseguir ver essa mudança. Ainda me falta metade do caminho, mas já encaro uma eleição com o mesmo ceticismo reservado ao ao horóscopo do jornal ou à dança da chuva.

De qualquer maneira o título de eleitor vai estar sempre no bolso, à espera de algum milagre.

Junto com a carteirinha de astronauta.

 

9 thoughts on “Só mudam as moscas

  1. Catharina Castro disse:

    Como sempre, muito bom! Curto muito os seus textos.

  2. regina mas disse:

    Olá Leo, aguardo sempre com ansiedade suas magníficas crônicas pois elas me fazem rir e rir, pra mim, ainda é o melhor remédio. Dessa vez, entretanto, li com lágrimas nos olhos… Tento ser otimista mas, não está dando.
    Em junho do ano passado, pensei que o Brasil, o povo, havia acordado. No entanto, assisti a manifestações sem foco definido, a não ser os 20 centavos. Manifestantes sem qualquer liderança – e como faltam lideranças nesse país – sem propostas, enfim perdidos. Em relação aos políticos, apanhados de surpresa (?), também não vimos repostas razoáveis, atitudes coerentes… Perdidos, tanto manifestantes como políticos.
    Infelizmente, meu caro Leo, isso vem de longe, de longa data. Nunca houve planejamento pra coisa alguma e somos mesmo o país do improviso.
    Estou lendo, no momento, 1922 de Laurentino Gomes. Recomendo a quem ainda não leu. No livro ele diz: o Brasil tinha tudo pra dar errado, mas não deu… Será?
    Conseguimos uma unidade, sim, territorial. E o resto? As oligarquias estão aí mesmo, haja vista os Sarney… e outros.
    Acredite, Leo, o Brasil me aflige tanto quanto a você e a outras pessoas que amam de paixão essa terra tão bela, tão rica, tão repleta de possibilidades que está virando lixo.
    Pra lhe ser franca, nem sei se as moscas mudam…
    Abços..
    regin@
    ps Leiam também do mesmo autor, 1808. É ótimo. O 1989, será o próximo.

  3. Sandra Monteiro disse:

    Esta sua crônica me deixa um gostinho amargo, principalmente depois de junho do ano passado… triste ilusão…

  4. Aline Hakeln disse:

    Leonardo, já passei da metade faz tempo. E quando me lembro da época em que estava na metade e da época em que ganhava presentinhos de natal dos meus pais, tenho de admitir, apesar de todo o pessimismo classemedista que me foi instilado numa família de comerciantes, que melhora, sim. Infelizmente, melhora devagar. Mas melhora. Quando você chegar aos três quartos e passar deles, terá mais material para comparações. E torço para que, nessa época que provavelmente não verei, você possa tirar conclusões parecidas com as minhas.

  5. É uma pena, pensei que ia ter um refresco de baixaria com sua crônica, mas parece que você também como todos nós estamos meio que chocados e perdendo a esperança nesses dias estranhos , mas só um alerta, o título de eleitor até poderia ser uma esperança para você e todos nós não fosse o fato de como tudo nesse país inclusive essas malditas urnas eletrônicas também sejam uma fraude que inexplicavelmente o mundo todo quis vir conhecer e ninguém adotou em eleições de seus países. Mais inexplicável ainda é perceber em pleno ano eleitoral, ou seja uma chance de mudança, não ver absolutamente nenhum movimento da mídia tradicional e mesmo em redes de relacionamento, tenho percebido isso, ninguém realmente põe em pauta a discussão sobre a garantia ou não de eleições honestas com essas urnas que em alguns posts e vídeos do youtube é mostrada claramente a possibilidade e facilidade de fraude. Eu sei que é #deprimenteissotudo mas please, apesar de também estar muito bem escrita e excelente essa crônica desabafo , volte ao seu tradicional e refinado senso de humor, nós precisamos disso, tipo um break de tanta nojeira e desesperança, valeu Leo.

  6. Ronald Cavaliere disse:

    Depois de tudo que o “José Ribamar do sir Ney” já havia proporcionado ao Brasil enquanto partícipe dos diversos legislativos pelos quais passou, eis que esta indefectível figura se torna presidente deste aglomerado conhecido por Brasil. Se o atraso já se fazia presente, ele rapidamente se transforma em futuro.
    O seu governo foi, talvez, o pior desastre enfrentado pelo Brasil, sua sorte foi ter como substituto no cargo, ninguém menos do que o “caçador de marajás das Alagoas”. Deu no que deu.
    Elege-se o nosso “gentil-homem”. Porém de tão gentil, acabou permitindo que o então ex-presidente “sir Ney” presidisse o senado e exercesse uma perversa tutela sobre sua presidência.
    Não por acaso, hoje, Lula, “sirNey” e Collor são companheiros inseparáveis.
    Haja riqueza para tanta voracidade.
    Triste sina deste lugar.
    Será que algum dia, em algum momento, conseguiremos nos tornar uma Nação ?

  7. Thaís Prudente disse:

    Genial! Adoro seus textos.

  8. Guto disse:

    Desta vez não consegui achar a graça que buscava, como de hábito, em seus textos. Não pelo talento do escritor, mas pelo conteúdo da escrita. A crônica é genial – como todas as outras. Triste mesmo é a realidade aí nela descrita. Sou mais novo que você, mas também já entreguei os pontos. Mas, eu juro que eu queria poder resistir.

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