A gentrificação da banana

Todos estavam acostumados a comprar barato, seja por quilo ou por dúzia. Bastava descascar e comer. Nada mais simples que uma banana. Mas isso ficou para trás. Na era do diferenciado, do premium e do gourmet, simples é a pior ofensa.

A história começa, obviamente, no supermercado Zona Sul. No meio das prata, nanicas etc, aparecem as bananas premium. São seis numa bandeja plastificada e custam bem mais que as outras. Exatamente iguais às outras, mas a nova embalagem faz com que sejam um sucesso de vendas. Mas é claro que não para aí, afinal nunca ninguém perdeu dinheiro subestimando a inteligência do consumidor. Começam a chegar as importadas. Custam o dobro. “Bananas made in Mongólia”, “bananas made in Tunisia” e por aí vai. Outro sucesso. Logo surgem os entendidos, por coincidência os mesmos do vinho e do azeite: “as da Tunísia são maiores mas o sabor não é tão acentuado como as da Mongólia”. “Boa mesmo é a do Marrocos, tem um aroma inconfundível” “Você já provou a de Honduras?”. Os produtores nacionais, aconselhados por marqueteiros, passam a embalar seus produtos em unidades. É o reposicionamento de produto, o grande movimento ideológico do Séc XXI. As bananas agora vem em caixinhas individuais ou num “family-pack” de quatro. Cada unidade embalada custa o equivalente a dois quilos das originais. Quem se importa? Aparecem várias marcas, com muitas informações na embalagem: gluten free, diet, light, vitaminada, sem corante etc. Cada marca tem várias versões, lux, gran lux, lux premium, lux premium gourmet. As mais caras fazem mais sucesso. Ninguém quer ser visto em público com uma banana ordinária. Banana de feira vira sinônimo de brega, cafona. A novidade é festejada na Internet, porque, segundo explicam os blogueiros especializados em futilidades, a banana em caixinha pode ser transportada sem que se altere o sabor ou a textura. Programas matinais mostram que o hype é levar uma na bolsa. “Além de elegante, é a forma mais nutritiva e higiênica”, afirma a famosa apresentadora e seu papagaio descerebrado. O Zona Sul contrata especialistas para ajudarem os clientes a se orientar entre tantas opções. Sommelier de banana é a profissão do momento, afirma a famosa colunista social.

A unidade de banana ultrapassa os cinquenta reais. Os políticos saúdam o fato, atribuindo isso ao aumento do poder aquisitivo e a ascensão da classe C

No Leblon a Dias Ferreira entra na onda. Cada restaurante tem a sua versão. O “Le Pretensieuse” cria um prato que custa trezentos reais, “tranches de banane du tahiti avec rien”. É o preferido do governador do Rio, que manda buscá-lo de helicóptero quando esta em Mangaratiba. Escolas de samba querem usar a banana como enredo, mas os marqueteiros dos produtores boicotam a iniciativa, temendo a popularização da fruta. No Village Mall surge a primeira boutique especializada, a Bananorama. De acordo com o dono são cento e cinquenta variedades, entre nacionais e importadas. “As mais caras são as que mais vendem, o público carioca está muito sofisticado, sabe apreciar o que é bom, inclusive já temos várias encomendas de bananas da Islândia, mais raras que trufas negras.” suspira o empreendedor. Sua loja aparece num editorial da Vogue Itália e é citada no New York Times.

Já não se encontra a fruta por menos de cem reais na cidade. Os micos são obrigados a pedir asilo em outros estados e os macacos do Zoo passam a ser alimentados com Big Macs, sob protesto do Greenpeace e do WWF. Questionado sobre os valores absurdos na cidade o prefeito reage com a sua habitual nonchalance: “Mas finalmente o Rio de Janeiro está a preço de banana!”

Fascinados com os acontecimentos os supermercados cariocas passam a importar feijão premium da Suécia.

29 thoughts on “A gentrificação da banana

  1. Jackie disse:

    Le Pretensieuse é tudo de bom. É o verdadeiro nome de vários restaurantes do Rio…rs

  2. Prá variar, hilário e ótimo, kkkkk

  3. NILTON MAIA disse:

    Prezado Leo,

    Mais uma vez você “acerta na mosca” ( a do alvo, não a da banana!). Creio que não estamos muito longe de tal tipo de coisa.
    “Sommelier de banana” e “papagaio descerebrado”, assim como falar do Supermercado Zona Sul (todo metido a besta), são ótimas tiradas. E os marqueteiros?
    Enfim, mais uma crônica impagável.

    Um abraço,

    Nilton Maia

  4. regina mas disse:

    Adoravelmente hilariante o seu texto…
    “tranches de banane du tahiti avec rien”.
    “Avec rien”…. quase morri de rir!
    Impressiona-me como certas pessoas se deixam levar por marcas ou rótulos….se famosos e caros, “vamu que vamu”, deve ser chique!
    Quanta pobreza de espirito!
    E como disse o Nilton Maia, não estamos muito longe disso.
    Depois que comi um brigadeiro, daqueles pequeninos, de festinha de criança, no Beco de Ipanema, por R$ 3,50 cada um, já acredito que tudo pode acontecer.
    Devo acrescentar que foi uma vez pra nunca mais.
    Adorei o texto-crítica tão engraçado quanto atual.
    Abraços
    regin@

  5. Ronald Cavaliere disse:

    Gentrificada a banana. Cristalizada a boçalidade . Só nos resta constatar ser, ainda, a “macaquice”, a mais representativa forma de expressão deste estrato social. Estrato que acredita ser este mundo, edulcorado e fotogênico, o mundo real. Agora, o importante mesmo é saber o que o macaco está achando disso tudo.

    • Thomaz disse:

      Melhor comentário da história. Me faz repensar a máxima “não leia os comentários”

    • Luis Tadeu Belloni disse:

      Se alguém estivesse preocupado com o macacos, plantaria bananeiras no zoológico para eles.
      O fato é que o país do bananal pode se transformar no país dos bananas e ainda loucos por bananas.
      Excelente texto… demonstra como a sociedade é consumida por futilidades…

  6. ASTRID I M HEILMANN disse:

    Leitura levemente picante de efeito hilariante e me deu a sensação gratificante de ter investido bem meu tempo de leitura… edificante !
    chapeau !

  7. Leny Fontenelle disse:

    Sarcástico, irônico, impagável…..”tranches de banane du tahiti avec rien” do Restaurante Le Pretensieuse foi demais !

  8. Angela Macedonio disse:

    Estamos perdendo nossa soberania alimentar!
    A globalização alimentar esta levando a pasteurização dos alimentos!
    Uma homogenização de frutas, legumes e verduras.
    Come-se, por exemplo, o mesmo tipo de alface em qualquer lugar do mundo.
    As espécies nativas e únicas das diversas partes do mundo, estão desaparecendo.
    Pensem nisso: alguém lembra de como eram as folhas da Couve Tronchuda por exemplo?

  9. Christinna Costa disse:

    Muito bom Leo. Adorei os nomes dados aos bois…supermercados, programa com o papagaio descerebrado…Com o nome do prato e o restaurante “Le Pretensieuse”, eu rolei. Alias, este deveria ser a razão social ou nome fantasia , de todos esses surreais restaurantes do Rio.
    Tenho falado que não estou com situação financeira pra viver mais no Rio…vou
    mudar pra NY ou retornar pra Amsterdam. Mais um pouco e nem banana consigo
    comprar.

    • ana lucia neves disse:

      Exatamente Christinna. Do jeito que as coisa andam vai ser impossivel continuar morando na Cidade da Copa. Outro dia um taxista me pediu 300 reais para ir do Tom Jobim ate a Barra. Explicou, diante do meu espanto, que esse preço e porque entramos no ano da copa. A coisa esta feia.

  10. Marcos Max disse:

    Amei.Publicifuckers sempre inventando moda

  11. Sensacional. O Marketing é genial, e a macacada cai como patinho!

  12. Paola Danemberg disse:

    Li agora em voz alta para o meu marido e ele está gargalhando aqui do lado!!! Muito bom para variar!! Kkkkkk Parabéns!!

  13. João disse:

    Só acho que não é o papagaio o descerebrado e sim a tal famosa apresentadora.

  14. Pedro Gadelha disse:

    Grande Leo,

    Nos aproximadamente 10 anos que trabalhamos juntos sempre via além do seu alto nível técnico e criativo como fotógrafo, o seu lado irônico, mas pouco compreendido no nosso meio. Perdemos contato, pois saí do Rio em 2001, mas volta e meia através das publicações da Cora dou uma espiada nas suas crônicas e me vejo gargalhando aqui no interiorzão de São Paulo (naquela cidade que passou um tornado em setembro). Cara continue escrevendo escreva um livro de crônicas do cotidiano ou sei lá o que, você tem o dom. Vou ao menos duas vezes por ano ao Rio e talvez por essa visão distante da cidade eu perceba direitinho isso que você descreve em suas palavras. Tá hilário, bem isso mesmo. Cada vez que volto à cidade maravilhosa a vejo como um sonho distante, uma cidade que já não reconheço, mas continuo amando. Mas basta duas vezes por ano, nada mais. Um Grande abraço camarada.

  15. Maria Clara disse:

    Sensacional a antecipação de um futuro quase presente. O Rio a preço de banana é o retrato do non sense.

  16. Silma disse:

    Menino, parabéns! Vc é a cara do Rio…. O que resiste… O que delicia a nós todos há tantos anos!
    Vc é a resistência! Ainda tenho esperança!

  17. Sou Belga e francófono, mas também tenho um blog em português, “língua afiada” http://dahu-brasil.blogspot.be/, et gostava de publicar là o seu tópico da banana, tanto curti; por isso estou pedindo a sua autorização … E também o quero saber o seu nome para divulgação.

    Muito obrigado

  18. tida poli disse:

    adorei sua cronica

  19. Maria disse:

    Le Pretencieuse com certeza vai ter uma banana trufada avec risotto de Limao siciliano e queijo grana padano….harmonizado com um Chateneau du Pap…..O Rio virou Sao Paulo….

  20. Julia disse:

    Estou chocada como o seu blog é genial e tão verdadeiro. Você consegue falar de todas as nonsense atitudes da “elite” carioca de uma forma tão ironica e inteligente. Parabéns parabéns parabéns!!! Aguardo o seu livro 🙂

  21. Alexandre disse:

    Sensacional! Parabéns pelo texto!

  22. daisy faller disse:

    Adoro o Rio , é a minha terra do coraçao, mas e de uma futilidade impar. A nossa banana e exportada – eu vibrava quando via na Alemanha limao , banana, manga, coco,maracuja(como iguaria) , café etc….mas lá se entede essas “proesas”dos marqueteiros…porem no Brasil!!!????Nao se justifica.La no Rio .

    Tudo q os americanos fazem eles adoram .A Barra da Tijuca

    é uma cópia de Miami.

  23. Temos que ver o lado bom da coisa. Com a gentrificação da banana, as agências de classificação de risco poderão elevar o Brasil a categoria de república de banana premium.

  24. Tathy Thuller Chartouni disse:

    Maravilha! Crônica excelente, afiada, bem redigida e com a dose certa de realidade e ironia.

    Gente que quer teorizar tudo para ser levada à sério dá umas mancadas bem indigestas: http://www.updateordie.com/2016/09/19/pipoca-gourmet-traz-a-tona-o-que-nossa-sociedade-tem-de-pior/

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