Questões fundamentais I

Meus amigos se preocupam com assuntos sérios e transcendentais. Querem saber qual a função da arte, se perguntam o que será da sociedade moderna em tempos de redes sociais e se o tapetão do Fluminense é válido ou não. Já eu, abjeto, só me preocupo com as bobagens do dia a dia. Ao menos assunto não me falta.

O filme está para começar. Você chega com pipoca, refrigerante e toda a boa vontade do mundo. Senta e espera. Começam os trailers. Um sujeito senta ao seu lado. Imediatamente você ocupa o apoio da cadeira que separa os dois. Tem que ser rápido. O homem tenta fazer o mesmo mas o seu braço já está lá. Começa a batalha e não é na tela. No primeiro movimento que você faz para pegar a pipoca o outro se aproveita do descuido e toma posse do braço. Então você fica atento, esperando o vacilo dele. O que não pode é encostar, como todos os civilizados sabemos tocar num desconhecido é crime hediondo. O filme já está no meio e você fica ali, todo desconfortável, só aguardando o momento da retomada. O outro se vira para pegar o refrigerante e…arrá! o braço é seu novamente. Agora sim. Você vai até o final agarrado àquele pedaço de plástico. Já nem sabe que filme está vendo, nem lembra se é Woody Alllen ou Spielberg, mas o seu espaço foi garantido. Quando acendem as luzes dá aquele sorrisinho vitorioso para o perdedor. Cinema é a maior diversão.

As boas maneiras, os códigos da boa educação, existem para facilitar a vida em sociedade. O problema é que, infelizmente, não tem código para tudo. Algum nobre francês ou lorde inglês esqueceu desta questão fundamental: de quem é o braço entre duas poltronas? E como todos acabamos por perceber, onde não tem código é cada um por si, faroeste puro. Seja onde for.

Você chega correndo no aeroporto. Está atrasado, não deu tempo para marcar o lugar. O avião mais uma vez está lotado. Restou o 22B. Na fila de três, é o do meio. Três pessoas disputando dois braços. Agora é guerra. Tem que entrar correndo para garantir ao menos um. Mas quando você chega os dois adversários já estão lá, ocupando todos os braços. Se deixar vai ser obrigado a viajar naquela posição de morto no caixão. Uma derrota.  Então tem que se virar. Na falta de regras vale a esperteza. Dá uma olhada insistente para trás. O cara da ponta, curioso e ingênuo, se vira para ver o que está acontecendo. Pronto, perdeu playboy, o braço que era dele agora é seu. Falta o outro. Tem que ter paciência. Mais cedo ou mais tarde ele vai baixar a guarda. Como nada acontece é hora de jogar sujo, literalmente. Você espirra em cima dele. O cara tem que pegar um guardanapo para se limpar. Tem que largar o braço. Vitória, o outro apoio é seu. Agora é só esperar o fim do voo sem se mexer. Faroeste não é para os fracos.

11 thoughts on “Questões fundamentais I

  1. Romulo garcias disse:

    Delicioso….E tira logo este braço daí…

  2. De disse:

    Kkkkkkkkkk adorei. É desse jeito… mas acho q pra não estressar, é melhor fingir q a poltrona nao tem braço. Ou pegar a sessão das 14!!!

  3. regina mas disse:

    Mais uma vez, ri um bocado. Interessante como você transforma fatos corriqueiros em verdadeiras comédias. Digo que você faz uma espécie de caricatura do cotidiano e o faz muito bem.
    Fico ansiosa pra ler suas crônicas, Leo!
    abçs
    regin@

  4. Adorável! De fato, você tira o riso de onde menos se espera e de maneira leve, simples e agradável, parece piadinha de salão. Obrigada.

  5. Tatah Moraes disse:

    Muito bom!!!

  6. Ana Cristina Maia disse:

    Muito bom o texto, afinal, quem nunca?

  7. NILTON MAIA disse:

    Prezado Leo,

    Mais uma crônica das boas. Diria “alleniana” (você inclusive cita o Woody na mesma). Tal preocupação com o braço da poltrona é, sem dúvida alguma, uma questão transcendente, um dos grandes enigmas de nossa civilização e que nem os séculos já passados por ela foram capazes de resolver.

    Um grande abraço,

    Nilton Maia

  8. JANAINA disse:

    Já travei varias dessas batalhas rs

  9. Brunna disse:

    Muito bom!

    Como li nalgum lugar alguma vez: “Quem nunca disputou o apoio de braço com alguém, não sabe o verdadeiro significado de Guerra Fria”.

  10. Aline disse:

    Não gostei do “parece piadinha de salão”! rsrsrs Pra mim, deve ser página de livro famoso! Como sempre, fantástico!!!

  11. Patrick disse:

    Mas a regra do avião é clara! Sentado na janela fica só com o braço colado na janela pois tem a janela pra apoiar, sentado ao corredor, o braço do corredor pois tem o espaço do corredor e quem senta no meio os 2 braços pra compensar por estar no meio!

Deixe uma resposta